6 de abril de 2025 - 5:02

Harmonização nominal

Espero que o grande jornalista Zuenir Ventura não se ofenda, não ousaria e nem poderia pôr em dúvida seu inconteste talento —seria como um reserva do Íbis criticando um Pelé— mas com um nome desses, já é meio caminho andado. Um ser humano chamado “Zuenir Ventura” só pode estar predestinado a grandes feitos. Em qualquer profissão em que se aventurasse.

“Venerável público! Com vocês, agora, o homem bala, engolidor de facas e acrobata “Zueniiiiiiirrrrr Venturaaaaaaa!”. Eu pagaria para assistir. “Aqui estão os resultados dos exames, Antonio. Você sofre de Pedulatolite papilogênica aguda”. “É grave, doutor?”. “Não se preocupa, vou te indicar o Professor Zuenir Ventura, ele é o papa da Pedulatolite papilogênica aguda no Brasil”. Eu confiaria no Dr. Zuenir.

Zuenir Ventura certamente tem algum parentesco, não de sangue, mas de espírito, com o ator Perfeito Fortuna. Taí outro que só precisa mostrar o RG para que a vida se encarregue de, digamos, afortuná-lo. Outros membros desta estirpe, como cantou Caetano Veloso em “Língua” são Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé. Caetano se esqueceu de Jards Macalé —e Gregorio Duvivier só não entrou pelo detalhe menor de ainda não haver nascido.

Existem esses abençoados (ou, deveria dizer, batizados?), cujos nomes vêm à frente, como um corneteiro medieval anunciando a chegada do rei e existem nós outros, os normais, que ao longo da vida vamos preenchendo —tentando, pelo menos— nossos nomes com algum significado. Ou você duvida que um Pedro Cardoso, um Paulo Gustavo precisou fazer muito mais esforço para ser lembrado do que um Milhem Cortaz, um Caco Ciocler?

Penso nisso ao ler a matéria enviada pelo amigo Luiz Megale, sobre a curiosa história do cidadão que nasceu em Águas da Prata, em 1958, com o nome de José Eduardo Franco dos Reis e aposentou-se em 2018, na 35ª vara cível de São Paulo, convertido num nobre inglês chamado Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield. Isso mesmo. Isso tudo.

Em algum momento da vida, Zé Eduardo cansou-se de ser apenas mais um Zé, de Águas da Prata e decidiu: serei inglês, serei nobre, serei Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield. Falsificou documentos e conseguiu rebatizar-se com essa frase que mais parece parte da escalação do time de futebol na pelada de final de ano do palácio de Buckingham. (Wimbledon, Chesterfield, Lloyds e Tanqueray, que completarão os 11, ainda estão no vestiário).

Só em 2024, ao tentar tirar uma segunda via do RG, Edward etc foi desmascarado pela biometria. A maquininha percebeu que a digital do polegar em que supostamente corria sangue azul era exatamente a mesma digital de outro polegar, cujo sangue vermelho pertencia ao plebeu José Eduardo. Pois é.

Pelo que li, é crime, mas não deveria ser. Só deveria ser considerado contra a lei a pessoa abandonar um nome sujo na praça, um nome que bateu na mulher, um nome que tá na lista da Interpol. Já aquele em que nada consta, mas que quer, assim, dar um retrofit em sua certidão de nascimento, qual o problema? Tem gente que sai por aí fantasiada de Batman. Tem gente que faz sexo fantasiada de bicho de pelúcia. Tem até gente que escreve tudo empolado pra se fantasiar de intelectual. Por que o Zé Eduardo não pode ser todo um trava-línguas somente à altura de quem fez no mínimo um ano e meio de CCAA? Devia poder.

Assinado: Millôr Machado Verissimo Ramos Drummond Bandeira Lispector Prata (o do Mario, não o meu).


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noticia por : UOL

6 de abril de 2025 - 5:02

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