6 de março de 2026 - 17:24

Na Páscoa, esquerda e direita se juntaram para odiar Jesus

Quem conhece pouco a Bíblia pode tomá-la como um livro que nos mostra muito amor. Não está errado. Mas uma leitura atenta dela mostrará também o poder do ódio. Tendo em conta que estamos na Semana Santa, há um exemplo flagrante.

Como passou Jesus os dias antes da sua morte? Invariavelmente, ia para o templo ensinar. O ensino de Jesus atraía muito povo: o que gostava dele e o outro. No povo que não gostava de Jesus destacavam-se “fariseus” e “herodianos”. Curiosamente, fariseus e herodianos andavam juntos “para apanharem Jesus em alguma palavra”.

Quem eram estes fariseus? Se tivéssemos de simplificar muito, diríamos que eram os religiosos mais conservadores, geralmente mais próximos do povo e, por isso, mais populares. Quem eram os herodianos? Eram os religiosos mais liberais, geralmente vindos da elite e, também pela sua maior erudição, mais na vanguarda progressista.

Em circunstâncias normais, estes religiosos conservadores e estes religiosos liberais não se misturariam. Pelo contrário. Acontece que, quando Jesus entra em cena, as circunstâncias deixam de ser normais. O que a encarnação de Cristo também significa é que tudo fica tão revolvido que até água e azeite se podem misturar.

A coligação anti-Jesus era feita de conservadores e progressistas. Sim, costumavam ser inimigos uns dos outros mas, desde a chegada dele, tinham descoberto algo em comum: odiavam mais Jesus do que se odiavam uns aos outros. Por isso, trabalhavam juntos a favor da morte dele.

Tendemos a pensar no amor como o vínculo que une as pessoas. Mas não ignoremos o poder da inimizade: pouco há melhor do que um bom ódio em comum para juntar pessoas diferentes. Talvez seja o ódio ao ecumenismo que mais competentemente faz os opostos convergir.

Jonathan Haidt, autor de “A Mente Moralista”, lamenta quando as pessoas perdem “a capacidade de falar com quem está do outro lado”. O autor menciona então o conceito de “negative partisanship” (partidarismo negativo), em que ganha quem conseguir fazer o seu adversário parecer o mais horrível possível. A política atual é cada vez mais assim.

Quanto maior o país, maior a capacidade de este jogo de partidarismo negativo atingir níveis estratosféricos. Se dúvidas houvesse, os Estados Unidos e o Brasil, como os países que à distância mais sigo, servem para dissipá-las. Como pastor evangélico, lamento profundamente que até dentro das nossas congregações o fenômeno aconteça.

Em semana pascal, alguma introspecção ajuda. Alguma confissão ajudará também. O povo que se junta por conta de um salvador odiado por conservadores e progressistas não deveria dividir-se pelos mesmos partidos que se coligaram para o matar. Afinal, quando os cristãos celebram a morte de Jesus, não devem celebrar os seus assassinos.

Ao afirmar isto, não quero ser ingênuo. Tenho a noção de que posso ser caracterizado como um conservador e posso ser colocado mais à direita. Não o desminto nem preciso enxotar todos os rótulos, sobretudo quando eles tentam classificar tendências visíveis e justificáveis. O meu ponto é outro.

Na semana da Páscoa, a morte que deve ser celebrada não é a que me une a quem odeio para podermos odiar ainda mais um terceiro. Pelo contrário: se o poder do ódio é claramente demonstrado nos dias que conduziram Jesus à sepultura, o poder do amor é o que o fez levantar dela.

Numa época em que as pessoas são máquinas de partidarismo negativo, como explicou Jonathan Haidt, os cristãos devem servir de antídoto: unem-se nas suas diferenças por um amor maior a Jesus. Se o ódio junta água e azeite, tenhamos esperança no que une o sangue da cruz.

noticia por : UOL

6 de março de 2026 - 17:24

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