6 de março de 2026 - 4:14

Líderes que deveriam estar presos são "risco existencial" para a humanidade

É preciso que vislumbremos o “findomundistão” com que nos ameaçam esses arautos do apocalipse. E, nessas horas — e estamos a falar do risco de colapso global, se alguém não entendeu —, as questões laterais sempre são evocadas por diversionistas como se fossem o centro do debate. “Ah, então o Irã é um regime admirável? Não. Mas quem disse que é? “Ah, mas então Israel não tem o direito de se defender?” É claro que tem. Mas quem disse que não? “Ah, então os EUA não deveriam se colocar em socorro de seu aliado?” Mas não está desde sempre, e não é esse, afinal, um pressuposto para Israel, daí o desassombro de Netanyahu?

Notem que, quando me refiro a “questões laterais”, tenho em mente a escala em que esses dois atores, Netanyahu e Trump, passaram a operar. O presidente norte-americano já botou a economia mundial e a de seu próprio país numa sinuca com a sua insanidade tarifária. O risco de uma escalada do preço do petróleo é real, e tudo vai depender da capacidade do Irã, caso leve adiante o intento, de bloquear o Estreito de Ormuz.

Netanyahu, Deus da guerra e do tribunal da história, defendeu o assassinato de Ali Khamenei. Consta que Washington segurou a sua mão. A história é, quando menos, verossímil. O aiatolá não tem razão para se sentir seguro, até porque parece que os agentes israelenses têm mais domínio da Inteligência iraniana do que tinham sobre a fronteira de Israel com Gaza naquele 7 de outubro de 2023. Trump, o Senhor dos Exércitos, acenou com uma mudança de regime em Teerã. Sejamos práticos: duvido que boa parte dos mais de 90 milhões de iranianos não quisesse o mesmo. A questão, como sempre, é saber como e a que custo. Infiro que a maioria dos palestinos de Gaza teria gostado de se ver livre do Hamas. Dado o genocídio em curso — e se chame a coisa pelo nome que tem —, por que os remanescentes haveriam de ter simpatia por seus algozes?

A população iraniana já arca com o custo das sanções econômicas impostas por aqueles que se dizem seus potenciais libertadores. Se o regime dos aiatolás caísse amanhã, poderia até ser uma bênção para a população — o que, note-se, à margem, não mudaria a política de Netanyahu para os palestinos —, mas, até onde se sabe, isso não está num horizonte próximo, salvo um improvável golpe de estado, que teria de contar com a colaboração das Forças Armadas e da Guarda Revolucionária. Até onde se sabe, não sobrou no país uma elite dirigente fora do establishment constituído pelos aiatolás nos quase 50 anos de triunfo da revolução islâmica.

A questão, assim, pode estar no tamanho do horror que Israel e os EUA estão dispostos a infligir a uma população de quase 100 milhões de pessoas. Netanyahu salvou a própria cabeça em Israel promovendo o massacre em Gaza e atacando todos os inimigos ao mesmo tempo, brandindo sempre a “ameaça existencial”, como a dizer: “Ou é assim, a meu modo, ou corremos o risco de desaparecer”, o que obviamente nunca mais esteve no horizonte desde 1973. Esse é, na verdade, o mote da extrema direita para levar adiante a sua política de inviabilizar a criação do Estado palestino, sempre com a sangrenta colaboração dos terroristas “do outro lado” — que, na prática, se tornam seus aliados objetivos.

Netanyahu se segura no poder — e fora da cadeia — enquanto durar a guerra. Se for longa, tanto melhor para a sua própria “segurança existencial”. O que vai acontecer com o resto do mundo? Aí, meus caros, estará mal-informado qualquer um que diga saber. Se o regime de Teerã se sustenta e se milhares começam a morrer, o risco é Oriente Médio virar, com o perdão do clichê, um barril de pólvora.

noticia por : UOL

6 de março de 2026 - 4:14

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