6 de março de 2026 - 0:30

Má formação médica vira entrave ao cuidado mais próximo da população

“Tem médico que encaminha um paciente para o endocrinologista só para prescrever insulina”, criticou Junqueira. Isso significa mais custo para o sistema, mais desgaste para o paciente, que precisa faltar ao trabalho de novo e esperar mais tempo por uma consulta com um especialista.

O problema estrutural se agrava com a falta de vagas em programas de residência e a baixa atratividade financeira das bolsas. “O sistema não estimula a formação contínua. O profissional sai da faculdade endividado, quer ganhar dinheiro rápido, e a UBS vira o primeiro emprego, mas ele não está preparado para isso”, afirmou.

Para Tânia Mara Coelho, presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e secretária de saúde do Ceará, a raiz do problema é ainda mais profunda. “Saúde não se muda sem educação. Esse é o pilar básico para transformar o cuidado no Brasil”, afirmou. Ela defende também o empoderamento da população como parte do processo: “As pessoas precisam saber o que cobrar e como cobrar”.

Pacientes aguardam atendimento em UBS da Ceilândia, no DF
Pacientes aguardam atendimento em UBS da Ceilândia, no DF Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A descentralização do cuidado propõe que o atendimento ocorra no lugar mais adequado à complexidade do caso, de preferência, próximo à casa do paciente. Unidades básicas, ambulatórios e até o domicílio são preferíveis aos hospitais, que deveriam atender apenas os casos mais graves. A proposta melhora o acesso, desafoga serviços de emergência e promove um cuidado mais humanizado e eficiente. Mas, sem profissionais capacitados para atuar com autonomia na atenção primária, essa lógica se desmonta.

“Sem gente preparada para cuidar, não adianta reorganizar a rede. A descentralização precisa andar de mãos dadas com a formação e a valorização do trabalho em equipe”, disse José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde e pesquisador da Fiocruz. Para ele, descentralizar o cuidado é também “uma resposta cultural às transformações contemporâneas da saúde coletiva, como o envelhecimento da população e o aumento das doenças crônicas”.

noticia por : UOL

6 de março de 2026 - 0:30

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