7 de março de 2026 - 5:51

Programa no Rio de Janeiro usa detentos para reflorestar áreas de mata atlântica

“Eu sempre acreditei na minha mudança e pensava positivo”. É assim que Daniel Lemos, 36, hoje em liberdade condicional, refere-se a sua transformação, desde que começou a plantar mudas como parte de um programa de reflorestamento em Magé, na Baixada Fluminense.

A iniciativa no Rio de Janeiro faz parte do projeto Replantando Vida, que envolve detentos em regimes fechado, semiaberto e aberto para conservação e restauração dos mananciais de abastecimento público.

A atividade instala viveiros de mudas nativas da mata atlântica dentro de unidades prisionais. Os presos participantes recebem um salário mínimo. Atualmente, o projeto conta com cinco bases florestais.

Três delas funcionam dentro de unidades prisionais: em Resende, Magé e Itaperuna. As outras estão em áreas da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro), nos mananciais de Guandu e Rio Pomba. A ação, desde 2001, é coordenada pela Cedae, que custeia os salários e o treinamento.

São 550 apenados participando atualmente. Já passaram mais de 6.000 pessoas pelo programa. Ao todo, foram mais de 4,5 milhões de mudas plantadas.

Presos do regime fechado atuam na produção das mudas, enquanto os que estão em regime semiaberto saem diariamente para o plantio e manutenção até que as áreas revegetadas se consolidem como florestas.

“Trabalhamos com 250 espécies de mudas, sendo 40 ameaçadas de extinção”, afirma Allan Henrique Marques, engenheiro florestal do projeto.

Para escolher os participantes, funcionários vão até penitenciárias do Rio de Janeiro para a triagem. “Evitamos ir em presídios com facções e selecionamos presos com bom comportamento”, explica Marques.

Privado da liberdade desde 2007, Daniel viu no projeto uma maneira de mudar de vida e trazer sustento para sua família. Ele começou a trabalhar no programa em 2019.

Ao ser preso, com 18 anos, só havia estudado até o quinto ano do ensino fundamental. Desde que entrou no sistema penitenciário, voltou a estudar e concluiu o ensino médio.

Plantar mudas, conta, o afetou positivamente, mesmo estando em um ambiente hostil. “Teve um poder importantíssimo. Hoje eu almejo coisas bem maiores para o futuro e penso em dar uma vida melhor para a minha filha”.

Assim como Daniel, João Nascimento, 54, encontrou no programa, onde atua desde 2022, uma forma de recomeçar. “Aprendi do zero. Eu era marceneiro de profissão, uma pessoa encarregada de fazer móveis. Hoje eu conservo aquilo que destruía”.

Ele está em prisão domiciliar, com tornozeleira, mas com autorização de sair para fazer o plantio.

Em relação ao comportamento, ele também sentiu mudanças em sua maneira de se relacionar com os colegas.

“Eu era uma pessoa muito fechada. E hoje tenho oportunidade de ajudar outras pessoas que antes não podia”, diz.

Quando questionado sobre quem não acredita na ressocialização de pessoas do sistema penitenciário, ele é enfático. “Discriminação sempre vai existir, mas primeiro precisamos acreditar na vida e na mudança. Eu entrei analfabeto e saí lendo e escrevendo. Tem que se apegar à mudança”, diz.

O estudo “Replanting Life: ecology and human restoration”, da Cedae com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, mostrou uma queda significativa na reincidência prisional: apenas dois em cada dez participantes voltaram ao sistema após o cumprimento da pena.

O supervisor Cláudio Brandão, que acompanha as equipes diariamente, afirma que os resultados são perceptíveis no contato com os detentos. “A ressocialização é praticamente 90%. O problema maior é o preconceito”, diz.

As equipes envolvidas no projeto precisam se deslocar diariamente das unidades prisionais até as áreas de plantio em vans ou caminhões.

A estrutura do projeto inclui um coordenador-geral, responsável pela gestão do programa, além de dois supervisores específicos: um voltado para os viveiros florestais, que acompanha a produção das mudas, e outro para a restauração florestal, que orienta o trabalho em campo. Atualmente, cada equipe de 10 a 15 pessoas conta com um supervisor exclusivo.

A meta é alcançar cerca de mil participantes e ampliar as áreas de reflorestamento.

noticia por : UOL

7 de março de 2026 - 5:51

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