7 de março de 2026 - 3:41

'Eu comprei esse processo'; PF reconstitui os passos de lobistas dentro do STJ

RAYSSA MOTTA, FELIPE DE PAULA E FAUSTO MACEDO

DO ESTADÃO

Um novo relatório da Polícia Federal no âmbito da Operação Sisamnes reforça a suspeita de que servidores do Superior Tribunal de Justiça vinculados aos gabinetes dos ministros Isabel Gallotti, Nancy Andrighi e Og Fernandes mantinham contato direto com os lobista de Mato Grosso, Andreson de Oliveira Gonçalves e o advogado de Cuiabá, Roberto Zampieri, assassinado em dezembro de 2023.

Segundo a PF, o grupo articulava um esquema de venda de sentenças que envolvia antecipação de minutas, promessas de influência sobre ministros e contratos milionários de advocacia e consultoria usados para disfarçar o repasse de valores.

Os ministros não são alvo da investigação. Por sua assessoria, Og Fernandes afirmou que ‘não tem conhecimento desses novos fatos e reforçou que, respeitando o direito ao contraditório, quem cometer ato ilícito deve assumir as consequências legais cabíveis’.

O gabinete de Nancy Andrighi afirmou ‘que os processos de responsabilização encontram-se em andamento, a fim de que os fatos sejam devidamente esclarecidos e os responsáveis punidos de forma exemplar’.

Isabel Gallotti informou, por sua assessoria no STJ, que ‘desconhece o conteúdo da investigação, porque tramita em sigilo, e que seu gabinete está à disposição para auxiliar, no que seja necessário, a fim de que sejam cabalmente apurados os fatos ocorridos e responsabilizados todos os envolvidos’.

Pelo menos três assessores já estão sob suspeita da Sisamnes, mas outros podem ser identificados. Eles seriam responsáveis por manipular decisões, interferir em processos e vazar detalhes de investigações que envolviam magistrados ligados à suposta venda de sentenças.

O Estadão teve acesso ao documento, subscrito pelo delegado Marco Bontempo, que integra a equipe da PF para inquéritos sensíveis de competência do Supremo Tribunal Federal.

Fora pra dentro

Diálogos entre Andreson e Zampieri indicam como o esquema operava. Segundo os investigadores, as conversas revelam um primeiro fluxo de corrupção, descrito como ‘de fora para dentro’, no qual as partes interessadas – os ‘clientes’ – buscavam o Judiciário em troca de decisões favoráveis, tratadas posteriormente pelos intermediários. O mecanismo fica evidente, segundo a PF, em mensagens trocadas em 20 de junho de 2019, quando os lobistas discutem o pagamento relacionado a um processo que estaria em curso no gabinete de Gallotti.

O teor da conversa, na avaliação dos investigadores, levanta a suspeita de ligação de Zampieri com o gabinete da ministra – não há indicativos de que ela soubesse dos movimentos dos lobistas.

“Oi, assunto novo”, instigou Andreson.

“Boa noite. Está em segredo de Justiça? É pra negar liminar?”, devolveu Zampieri.

“Sim”, confirmou Andreson.

“Ok”, respondeu Zampieri. “Vou pedir agora”.

“Veja valor”, instruiu Andreson.

Quatro meses depois, em 16 de outubro de 2019, Andreson orienta Zampieri a cobrar o pagamento referente à mesma ação.

“Manda ele pagar o da Gallotti, que já resolveu”, insistiu Andreson.

“Eu não duvido, não, Andreson. É que tem momentos em que o povo não tem grana”, ponderou Zampieri.

“Aí é foda… sem grana não anda”, retrucou Andreson.

 Para os investigadores a expressão ‘o da Galotti’ seria uma referência ao servidor do gabinete da ministra ligado ao esquema.

Leia a matéria completa no Estadão.

FONTE : ReporterMT

7 de março de 2026 - 3:41

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