6 de março de 2026 - 21:41

Emissões de metano crescem, mas há chance de atalho para devolver planeta à rota do 1,5°C

As emissões globais de metano estão aumentando, mas novas metas e tecnologias já freiam essa expansão. Mais do que isso, podem tornar um corte mais ambicioso do potente gás de efeito estufa em atalho para devolver o planeta à rota do 1,5°C de aquecimento.

Relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), lançado nesta segunda-feira (17) em Belém, atesta o efeito de alguns compromissos acertados para a contenção do metano, gás resultante de processos naturais, mas também da atividade humana, sobretudo produção e queima de combustíveis fósseis, agricultura e pecuária.

O motor desses compromissos é o Pacto Global de Metano, assinado por 103 países na COP26, em Glasgow, há quatro anos. O documento prevê um corte nas emissões globais de metano em 30% até 2030, em relação ao verificado em 2020.

A meta é alcançável, diz o Pnuma, se os signatários do acordo abraçarem todas as práticas e tecnologias existentes para diminuir o volume de emissões. Tal ofensiva ajudaria o planeta a lidar com o “overshooting”, uma trajetória de aquecimento acima do limite de 1,5°C decidido há dez anos pelo Acordo de Paris.

O progresso até aqui é notável. Em junho deste ano, as chamadas NDCs (contribuições nacionalmente determinadas, na sigla em inglês) já previam políticas e medidas para coibir o metano em proporção 38% maior do que o registrado em 2020. Ainda assim, o esforço, que seria o maior da história, equivale a uma redução de apenas 8% das emissões.

O tom do levantamento do Pnuma, quase otimista se comparado aos de outros documentos do gênero lançados por ocasião da COP30, se explica pelas particularidades do metano: 80% mais potente como gás de efeito estufa do que o dióxido de carbono, mas com um vida bem mais curta na atmosfera, cerca de 20 anos.

Não bastassem as propriedades físico-químicas, há o bolso, fator que tem prevalecido nos debates em Belém, a despeito dos relatos alarmantes dos cientistas e da ONU.

Apenas cumprir as metas existentes fariam os países economizar US$ 330 bilhões (R$ 1,73 bilhões) anualmente até 2030. Contados de outra forma: 0,2°C a menos nos termômetros até 2050, mais de 180 mil mortes prematuras e 19 milhões de toneladas anuais não perdidas para a crise climática.

Outro apelo do atalho do metano é o custo das tecnologias envolvidas. Diferentemente do que ocorre com o dióxido de carbono, a maioria já está à disposição e é acessível. O setor de energia, por exemplo, pode responder por 72% da mitigação planejada até 2030 (completam a conta agropecuária, com 18%, e tratamento de resíduos, com 10%).

Segundo o Pnuma, a conta de implementação chegaria a US$ 127 bilhões (R$ 662,9 bilhões) anuais até 2030, sendo 80% da mitigação obtida por meio de métodos de baixo custo.

Há opções que soam banais, como tampar poços de gás de xisto, estancar vazamentos de plataformas de petróleo e gás, oleodutos e outras instalações e acabar com procedimentos considerados ultrapassados como o flare (queima controlada de resíduos em refinarias).

Empresas que empregam essas novas tecnologias chegam a ser cem vezes mais eficientes do que a média do setor.

Estudo publicado pela Agência Internacional de Energia (AIE), em maio, foi ainda mais longe. Com US$ 100 bilhões, seria possível fechar adequadamente minas de carvão e poços de petróleo e gás que já não estão em funcionamento.

Apenas esses esqueletos, cerca de 8 milhões no setor terrestre de petróleo e gás, emitem mais metano do que o Irã, o quarto colocado em um ranking de poluição liderado por China, EUA e Rússia.

Grande financiador da máquina de guerra de Vladimir Putin, o petróleo russo é o contraexemplo: produzido com uma infraestrutura precária, repleta de vazamentos e quase sem nenhuma contabilidade ambiental.

Medir emissões de maneira mais confiável é uma das sugestões do Pnuma, salientado que a tarefa cabe não apenas às agências reguladoras, como também às empresas. O financiamento privado também é crucial e precisa de políticas de apoio do setor público.

“Não se enganem, qualquer período de “overshooting” trará consequências dramáticas, com vidas perdidas, comunidades deslocadas e desenvolvimento revertido”, declarou recentemente António Guterres, secretário-geral da ONU. “Temos, porém, soluções para tornar esse período menor e o mais seguro possível.”

Conter o metano é uma delas e também uma das mais promissoras, conclui o Pnuma.

noticia por : UOL

6 de março de 2026 - 21:41

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