7 de março de 2026 - 5:10

Base Aérea de Anápolis (GO) tem de salas secretas a lojinha; conheça casa dos caças Gripen

Por volta das 13h45, como agendado, o major-aviador Vitor Luís Martins Faria, 37, deixa uma unidade de acesso restrito e controlado para realizar os procedimentos finais. Cerca de 40 minutos depois, ele decolou com uma aeronave supersônica de matrícula FAB 4108, realizando três rasantes e arremetidas que ecoaram sobre o cerrado antes de desaparecer no horizonte para uma missão de treinamento de pouco mais de uma hora.

O avião é uma das 11 unidades já entregues ao Brasi como, parte do lote de 36 caças F-39 Gripen adquiridos da sueca Saab. Todos estão sob responsabilidade do 1º GDA (Grupo de Defesa Aérea) Jaguar, sediado na BAAN (Base Aérea Anápolis), em Goiás.

No dia 13 de novembro, a Folha acompanhou —pela primeira vez desde a chegada dos Gripen ao país, em 2022— todo o processo de preparação do piloto até a decolagem.

Inaugurada em 1972 para abrigar os primeiros caças supersônicos a equiparem a FAB (Força Aérea Brasileira), os franceses Dassault Mirage 3, a base foi projetada para proteger o coração do país.

A zona rural de Anápolis está a apenas cinco minutos de Brasília em voo com Gripen, capaz de atingir 2.400 km/h —duas vezes a velocidade do som.

Por causa dos novos caças, a base aérea teve de passar por reformulações. Do prédio da década de 1970 ficaram apenas paredes externas.

“Tudo foi modificado, principalmente por questões de segurança e salvaguarda de informações de segredo de Estado e de defesa nacional”, diz o tenente-coronel aviador Ramon Fórneas, 43, comandante do 1º GDA.

A reportagem teve acesso a uma ala controlada, chamada de Black Box, monitorada por vídeo e áudio, onde não se pode portar nenhum dispositivo de gravação.

Nesse núcleo são planejados, entre outros, exercícios táticos, análises de missões e treinamentos avançados.

Há dois simuladores em funcionamento, instalados em salas separadas e rodeados de câmeras.

Durante a visita, um piloto treinava sob orientação de um técnico sueco da Saab, que acompanhava dados e imagens projetados em ambiente que mescla elementos virtuais e reais.

Existe também uma sala equipada com computador, joystick e manete de potência idênticos aos do avião, usada para aprendizado.

A partir de janeiro, a rotina do local será intensificada com a chegada de quatro novos pilotos ao esquadrão, que hoje conta com 13, sendo que desses apenas um não treinou na Suécia e foi formado integralmente em Anápolis —o que se repetirá com os recém-chegados.

“[Em janeiro de 2024] recebemos um piloto oriundo do F-5 [caça americano que será substituído pelos Gripen] que não iria para a Suécia. Isso exigiu bastante do GDA”, diz Fórneas.

Para chegar ao Gripen, o piloto precisa acumular experiência em outros caças da FAB. Segundo o comandante, a concorrência entre os candidatos aptos é de 1 para 10.

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Ao todo, o grupamento reúne cerca de 50 profissionais, incluindo técnicos e mecânicos treinados para operar sistemas avançados do Gripen, considerado o caça mais tecnológico já incorporado pela Força Aérea Brasileira.

O hangar de manutenção precisou ser reconstruído para atender às especificações do programa.

Com exceção de uma réplica de 2002 do Mirage 3, em referência aos então 30 anos da base aérea, e de um cockpit real cortado de um deste mesmo avião, no grupamento praticamente só se respira a nova estrela da aviação de caça brasileira.

Há referências do Gripen em todos os cantos. No hall de entrada, existe um grande pôster do avião na parede de fundo, ao lado da galeria de comandantes do local.

No espaço de lazer, há uma réplica pendurada no teto e fotos espalhadas, sem falar nas miniaturas na sala do comandante.

Numa espécie de lojinha, todos os souvenirs comercializados se referem ao caça sueco, de camisetas a chaveiros e botons, entre outros, produtos que fazem sucesso no tradicional Domingo Aéreo de Anápolis, que não foi realizado em 2025, como em outras bases aéreas no país, por causa da contenção de gastos das Forças Armadas.

No dia em que a Folha foi a Anápolis, o local recebeu a visita de dezenas de policiais civis.

Num dos corredores, há o desenho do avião pendurado com a frase “F-39 Gripen Brasil – Leading the change” (liderando a mudança, na tradução do inglês).

Esse corredor leva à academia de treinamento físico do GDA, criada para preparar os pilotos para suportar a força gravitacional de até 9G —quase o dobro da enfrentada por pilotos de Fórmula 1. “Não existe aeronave com carga gravitacional maior”, diz Fórneas.

“Para voar nessas aeronaves tem que ser qualificado”, afirma sobre a qualificação feita na Suécia para se encarar a força gravitacional.

Antes do voo, o major Martins passou por checagens de pressão do equipamento, inclusive, verificação da máscara de oxigênio. Ele foi também a um local chamado de “Casa de Pista”, onde recebeu a confirmação da aeronave preparada e da reserva.

Ele vestiu, então, o equipamento especial para o Gripen em um vestiário onde macacões e capacetes estão separados para cada piloto.

A viseira do capacete é protegida por uma capa até ele subir no avião. Como uma espécie de monitor, ela reproduz as informações do computador do caça aos olhos do oficial quando ele se vira.

Depois de testada a pressão, o oficial-aviador vai para o avião indicado —os Gripen ficam em hangares individuais, que a reportagem não teve autorização para registrar imagens da localização, assim como de várias dependências da base, por questão de segredo militar.

Na visita havia dez aviões em Anápolis, quatro nos hangares individuais e os demais no de manutenção. Vindo da Suécia de navio, o 11º chegaria no dia seguinte.

Antes de ir para a pista ao fundo e decolar, o major Martins realizou uma checagem nos componentes da aeronave que levou pouco mais de 30 minutos, boa parte com motor ligado e auxiliado pelo sargento Asaf Gonçalves Ferreira.

A reportagem foi à Base Aérea de Anápolis na véspera de quatro caças voarem para três semanas de exercícios em Natal. Como antecipou a Folha, pela primeira vez eles iriam realizar exercícios com disparos de mísseis de longo alcance, o que foi confirmado na úllitma sexta-feira (27).

O programa brasileiro prevê 36 Gripen, 8 deles com dois lugares —são chamados de E e F, respectivamente.

Neste ano ainda deverá ficar pronto o primeiro avião produzido na unidade da Embraer em Gavião Peixoto (SP), como parte do programa de transferência de tecnologia —a fabricante brasileira é parceira da Saab. Entretanto, só deverá ser entregue à Força Aérea em 2026.

noticia por : UOL

7 de março de 2026 - 5:10

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