Akash Samant sempre acreditou que deveria pagar a maior parte das despesas em um relacionamento, seja aluguel, encontros românticos ou viagens ao exterior. Ele cresceu no Arizona, e seus pais o criaram para ter orgulho de poder sustentar outras pessoas. O boom da IA (inteligência artificial) no Vale do Silício lhe deu os recursos para isso.
Samant, 26, conheceu a namorada, Valeria Barojas, 24, com quem namora a distância, em um aplicativo de namoro em setembro de 2024, depois de cofundar a Coverflow, uma startup de IA que atende a agências de seguros. A startup levantou US$ 4,8 milhões (R$ 25 mi) em capital de risco no ano passado. Ele mora em San Francisco, e Barojas em Glendale, Arizona, onde está concluindo sua graduação em serviço social na Arizona State University e vivendo de suas economias.
Quando o casal se visita, Samant paga as passagens aéreas. Quando viajaram juntos para Paris no ano passado, ele pagou o hotel e os jantares.
Os dois planejam morar juntos em breve e dividir os custos de moradia de forma proporcional às suas rendas. “Não é uma expectativa que eu tenha que pagar tudo para ela”, disse Samant. “No fundo, eu gostaria de fazer isso, mas não é algo que eu faça atualmente.”
A empresa de Samant lhe proporcionou um pacote de remuneração que supera tudo que ele ganhou anteriormente em sua carreira como engenheiro. Ele recebe entre US$ 120 mil (R$ 626,9 mil) e US$ 160 mil (R$ 835,9 mil) de salário base e tem uma participação acionária substancial como cofundador.
Seu cenário dos sonhos? Ganhar dinheiro suficiente com a abertura de capital ou aquisição de sua empresa para dar à namorada a opção de não trabalhar.
Porém, mesmo nesse cenário, ele não abriria mão de um acordo pré-nupcial, um assunto que surgiu no mês passado, depois que ele e Barojas completaram cerca de um ano e meio de relacionamento.
“O esforço de cada um sempre vai parecer diferente para outra pessoa”, disse Barojas, sobre dividir despesas em um relacionamento. “Meus 100% podem ser os 60% de alguém, e vice-versa.”
A febre da IA está criando fortunas pessoais raramente vistas na tecnologia moderna, mudando as atitudes das pessoas sobre justiça e dinheiro nos relacionamentos. Quase 25% das pessoas disseram que a alta da remuneração em meio ao boom da IA mudou a forma como dividem despesas com um parceiro, segundo uma pesquisa com mais de 1.000 pessoas realizada no mês passado pelo Blind, um fórum de discussão anônima sobre trabalho. Cerca de 9% dos entrevistados disseram que o boom da IA os fez pensar de forma diferente sobre acordos pré-nupciais ou proteções financeiras.
Empresas de tecnologia estão pagando salários premium a funcionários de IA, com alguns pesquisadores negociando pacotes de remuneração de US$ 250 milhões (R$ 1,3 bi). Capitalistas de risco no Vale do Silício estão levantando bilhões de dólares para acompanhar os investimentos em startups de IA. OpenAI, Anthropic e SpaceX, que recentemente se fundiu com a xAI, deram passos em direção a ofertas públicas iniciais de ações. Somente essas listagens públicas poderiam criar mais de 16 mil milionários, de acordo com uma estimativa da Sacra, que fornece pesquisas sobre mercados privados.
Para pessoas que trabalham em tecnologia, um acordo pré-nupcial é frequentemente esperado, disse Lauren Lavender, diretora de marketing da HelloPrenup, startup de acordos pré-nupciais. Pode ser surpreendente quando um casal não faz um, acrescentou ela. Alguns trabalhadores de tecnologia que usam a HelloPrenup têm pacotes de remuneração em ações que valem mais do que seus salários base.
“As pessoas na Bay Area —porque trabalham em uma indústria que poderia potencialmente ser superada pela IA— estão plenamente conscientes dos ativos que possuem”, disse ela. “Elas têm um estilo de vida que querem proteger.”
Apesar da mentalidade de proteção financeira, Samant reconhece a importância do aspecto emocional: “Eu definitivamente dependo dela para apoio emocional”, disse ele. Mas como ele começou sua empresa antes de conhecer Barojas, ele vê o sucesso financeiro dos negócios como algo separado do relacionamento deles.
Desde que Gujri Singh, 31, entrou na equipe de vendas OpenAI no final de 2023, ela disse que assinar um acordo pré-nupcial com um futuro parceiro antes do casamento é inegociável.
“Eu sei o quão difícil tem sido para as mulheres serem financeiramente independentes e estarem em situações onde não estão no controle”, disse ela. “Para mim, isso sempre foi a coisa mais assustadora.”
Singh, que é solteira, disse que um ex-namorado se tornou mais compreensivo sobre seu desejo de um acordo pré-nupcial depois que ela foi contratada pela OpenAI, onde, segundo ela, ganha entre US$ 200 mil (R$ 1 mi) e US$ 300 mil (R$ 1,5 mi) anualmente, além de participação acionária na empresa de capital fechado.
“Acho que o que tenho hoje não será a totalidade do que vou ganhar na minha carreira”, disse ela. “Estou, francamente, apenas começando.”
A OpenAI está pagando aos funcionários mais do que qualquer outra grande startup de tecnologia na história, informou o The Wall Street Journal em dezembro, com a remuneração baseada em ações da empresa sozinha atingindo uma média de US$ 1,5 milhão (R$ 7,8 mi) por funcionário em 2025.
Funcionários bem pagos estão tomando decisões sobre relacionamentos e dinheiro em meio à incerteza sobre se suas ações vão despencar ou disparar, se sua empresa vai abrir capital ou ser adquirida e se a bolha da IA vai estourar ou não. Essa incerteza é uma grande razão para funcionários do setor considerarem acordos pré-nupciais, disse Sam Mockford, consultora de patrimônio associada na Citrine Capital.
Folha Mercado
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“Um acordo pré-nupcial é pensar sobre o futuro próximo e o futuro distante e o futuro hipotético”, disse ela. “E quando você está olhando para ações, há muita coisa variável sobre sua riqueza futura.”
Mesmo quando ambos os parceiros estão em áreas bem remuneradas, como consultoria e tecnologia, a corrida do ouro da IA ampliou as diferenças salariais.
Megan Lieu, 29, fundadora da ML Data, uma empresa que cria conteúdo sobre IA e tecnologia, disse que seus ganhos dispararam desde 2022, o ano do lançamento do ChatGPT. Desde então, ela fez parcerias com Anthropic, Nvidia, Salesforce e Adobe, todas empresas que se beneficiaram financeiramente da IA.
A empresa faturou mais de US$ 660 mil (R$ 3,4 mi) no ano passado, com acordos sendo a principal fonte de receita, segundo ela. Lieu ganha cerca de cinco vezes mais do que seu namorado, Daniel Kim, 32, que trabalha em consultoria de gestão. Eles moram juntos na região de Washington em uma propriedade dela. Embora Kim pague a Lieu aproximadamente uma parte igual dos custos da hipoteca a cada mês, ela cobre uma porção maior de outras despesas de moradia, como taxas de condomínio e serviços públicos.
“Estar no mundo da criação de conteúdo sobre IA me expôs a muitas outras mulheres e famílias e pessoas que têm esse tipo de lar não tradicional, onde às vezes é a mulher contribuindo mais“, disse Lieu. Ela disse ver Kim como seu igual e que a disparidade de renda não criou tensão no relacionamento deles.
“Eu nunca veria meu parceiro como um competidor, mas diria que normalmente sou bastante competitiva em relação aos meus pares”, acrescentou.
Kim disse que prefere cobrir as despesas do dia a dia, incluindo pagar a conta durante os encontros românticos e as compras de supermercado do casal.
“É apenas um gesto gentil que acho que estou oferecendo para minha namorada, e gosto de oferecer esse tipo de gesto”, disse ele. “É o mesmo com minha família, o mesmo com meus cachorros, tipo, eu simplesmente gosto de oferecer esse gesto para eles quando posso.”
Lieu e Kim discutiram informalmente como seria um acordo pré-nupcial. Se o investimento de uma pessoa der grandes resultados, Kim não necessariamente vê isso como algo individual, e afirma que o outro parceiro contribuiu indiretamente, incluindo através de apoio e sacrifícios.
“Quando você concorda em se casar”, disse ele, “você está meio que concordando em se tornar um só.”
noticia por : UOL




