As Duas Sessões, principal evento legislativo do calendário chinês, começaram na quarta-feira (4) com um número que rapidamente dominou o noticiário global. Ao abrir o encontro, o premiê Li Qiang se dirigiu ao Congresso Nacional do Povo e previu uma meta de crescimento econômico em 2026 para algo em torno de 4,5% e 5%. É o menor valor desde 1991. Mesmo que ainda robusto para padrões globais, ele é resultado de pressões domésticas complicadas e um ambiente internacional instável.
Os próprios dados divulgados no relatório de trabalho apresentado por Li ajudam a ilustrar o desafio. No ano passado, o PIB da China bateu a meta estabelecida em 5%, enquanto o país criou 12,67 milhões de empregos urbanos e manteve a taxa média de desemprego em 5,2%. Mas as boas notícias do documento pararam aí.
O setor imobiliário seguiu em retração, a inflação permaneceu baixa em virtude da demanda doméstica fraca e a dívida pública se aproximou de 96,8% do PIB, segundo estimativas do FMI, enquanto governos provinciais acentuaram a dependência de financiamento via emissão de títulos. O relatório oficial também mencionou explicitamente a combinação de choques externos com o aumento do protecionismo internacional como motivações para o número estabelecido em 2026.
Fossem estas estatísticas anunciadas há uma década, um prospecto tão pessimista viria certamente acompanhado por anúncios de pacotes econômicos e estímulos setoriais. Mas a China aprendeu com o erro e, ao invés de distribuir dinheiro, vai dobrar a aposta nas chamadas “novas forças produtivas de qualidade”, tecnologia de ponta aplicada à indústria e à inovação produtiva.
E é neste ponto que o leitor precisa se atentar se quiser ir além da manchete simplista sobre a meta de crescimento. Enquanto a projeção geral denotou cautela, basta fazer como eu e se aprofundar no relatório de trabalho do premiê, no plano de desenvolvimento da Comissão de Reforma e no projeto de orçamento anual para perceber a ambição da liderança chinesa.
Mesmo prometendo conter o crescimento da dívida pública, Pequim pretende crescer os gastos em ciência e tecnologia em 10%, elevando o investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento em pelo menos 7% ao ano até 2030. O objetivo é ampliar o peso das indústrias digitais para 12,5% do PIB no fim da década.
O financiamento dessa transformação dependerá de forte mobilização de recursos públicos, com o orçamento central prevendo 755 bilhões de yuans (R$ 576,2 bilhões) em investimento direto, além de 800 bilhões de yuans (R$ 610,5 bilhões) em títulos especiais de longo prazo para apoiar grandes projetos estratégicos e reforçar a segurança econômica em setores críticos como semicondutores e energia
A China também decidiu aumentar gastos ligados diretamente à projeção de poder internacional, denotando crescente inquietação em um ambiente geopolítico mais hostil e em tempos de intensa competição estratégica com os Estados Unidos. O orçamento de defesa crescerá cerca de 7%, chegando a 1,91 trilhão de yuans (cerca de R$ 1,45 trilhão), enquanto os gastos diplomáticos subirão 9,3%, para aproximadamente 70,9 bilhões de yuans (R$ 53,8 bilhões).
No conjunto, as decisões anunciadas em Pequim indicam que a liderança chinesa aceita a desaceleração gradual do crescimento como parte de um processo de maturação econômica. A prioridade agora é garantir que a expansão futura seja sustentada por inovação tecnológica, capacidade industrial avançada e maior resiliência diante de um ambiente internacional incerto.
É por isso que focar apenas os 4,5 a 5% da meta de crescimento leva a uma leitura incompleta. Xi Jinping e companhia já entenderam que o preço de um país mais autossuficiente e preparado para um futuro hostil é deixar no passado o crescimento a dois dígitos.
É uma aposta arriscada que troca velocidade de crescimento por resiliência estratégica. O crescimento pode ser menor. A ambição, não.
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noticia por : UOL




