Fenômeno literário desde a estreia com “O Fim de Eddy”, em 2014, o escritor francês Édouard Louis construiu uma obra que mistura gêneros. O autor criou sua identidade ao bagunçar em um mesmo livro os limites da autobiografia, sociologia e intervenção política.
Nascido como Eddy Bellegueule em uma pequena cidade operária no norte da França, ele mudou o rumo da própria trajetória –que até então era marcada por pobreza, violência e homofobia–, em matéria literária, tornando-se uma das vozes mais debatidas da literatura contemporânea.
Nesta segunda (9), o autor participou de um encontro gratuito com o público no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, para discutir os temas centrais de sua produção. O debate contou com a mediação da escritora e dramaturga Helena Vieira e do advogado e pesquisador Renan Quinalha.
A visita acontece em paralelo à programação da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), que apresenta duas adaptações teatrais de livros de Louis. A peça “História da Violência” chegou aos palcos entre os dias 6 e 8 de março, com direção de Thomas Ostermeier. Agora, “Quem Matou Meu Pai”, que também integra a programação do festival, chega aos holofotes no Sesc Pinheiros.
Frequentemente alvo de críticas por tornar explícitas as conexões entre literatura e política —como quando responsabiliza decisões de líderes franceses pelo adoecimento do próprio pai—, Louis costuma afirmar que seu projeto literário busca justamente trazer para a literatura aquilo que tradicionalmente fica fora dela. Para ele, a arte deve confrontar o público com o que a sociedade prefere não ver e deixar um desconforto palpável em seus leitores.
Durante a conversa, o autor reforçou uma das ideias centrais de sua obra, a de que o íntimo é sempre político. Ao revisitar a infância no norte da França, ele contou que, quando criança, interpretava os conflitos familiares como escolhas individuais. “Eu achava que meu pai era racista porque queria ser, que meu irmão era violento porque escolhia ser”, afirmou.
O contato posterior com a sociologia mudou essa perspectiva. Segundo ele, aquilo que parecia individual era, na verdade, resultado de estruturas coletivas de classe, masculinidade e opressão social. Foi dessa descoberta que nasceu seu projeto literário, que busca criar narrativas capazes de fazer o leitor sentir experiências coletivas a partir de histórias pessoais.
Essa tensão aparece também nas memórias que o mediador Quinalha descreve como o “encontro de duas vergonhas” —a de ser pobre e a de ser homossexual.
Crescido em um ambiente operário, Louis lembra que o corpo, a fala e o sotaque eram constantemente percebidos como inadequados —uma marca social que produzia humilhação. Ao mesmo tempo, ele lidava com o estigma da sexualidade. Durante muito tempo, acreditou que ascender socialmente poderia apagar esse conflito. “Achei que, se mudasse de classe, minha vergonha sexual desapareceria também”, disse. A escrita surgiu nesse processo de fuga e transformação.
Essa é uma metamorfose que, segundo ele, traz tanto descoberta quanto dor. As cicatrizes surgiram quando o autor voltou a sentir vergonha mesmo depois de ter mudado de classe social. Desta vez, sentia-se humilhado por um dia ter se envergonhado da vida que levava.
“Quem tem que ter vergonha são as burguesias por ignorarem outras classes sociais”.
O autor também foi questionado sobre a recepção de seus livros no Brasil, país que, segundo ele, viveu nos últimos anos uma experiência intensa de politização do cotidiano. Para Louis, a combinação de desigualdade social e turbulência política —associada a figuras como Jair Bolsonaro— ajudou a tornar mais evidente a ligação entre corpo, vida cotidiana e decisões de poder, e, quem sabe, por isso suas obras são tão aclamadas pelo público nacional. “Talvez eu seja apenas um brasileiro trancado no corpo de um francês”, brincou.
noticia por : UOL






