14 de março de 2026 - 17:17

EUA encaram elevado risco de terrorismo doméstico com guerra contra Irã e cortes no Departamento de Justiça


Trump confirma ter atacado a ilha de Kharg no Irã
Na cidade de Nova York, dois homens que autoridades federais dizem ter sido inspirados pelo Estado Islâmico levaram poderosas bombas caseiras a um protesto de extrema direita em frente à residência oficial do prefeito.
Em Michigan, um cidadão naturalizado americano, originário do Líbano, lançou seu veículo contra uma sinagoga, onde foi alvo de disparos da segurança antes de tirar a própria vida.
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
Na Virgínia, um homem que já havia sido preso por terrorismo foi ouvido gritando “Allahu akbar” antes de abrir fogo em uma sala de aula universitária, em um ataque que, segundo autoridades, terminou quando o atirador foi morto por estudantes.
Os três atos de violência na última semana evidenciaram uma ameaça terrorista crescente, em meio à guerra dos Estados Unidos com o Irã e enquanto o sistema antiterrorismo do país enfrenta pressão devido à saída de profissionais experientes de segurança nacional do FBI e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
As demissões e renúncias, somadas ao redirecionamento de recursos e pessoal no último ano para atender outras prioridades do governo de Donald Trump, alimentaram preocupações sobre a capacidade de evitar um possível aumento de ameaças.
Acompanhe AO VIVO os últimos desdobramentos da guerra no Oriente Médio
“Tanta experiência foi dizimada das fileiras”, disse Frank Montoya, ex-alto funcionário do FBI. Segundo ele, as pessoas mais bem posicionadas para investigar e impedir algo grave antes que acontecesse, em muitos casos, já não estão mais no governo, o que significa que profissionais menos experientes designados para lidar com a ameaça estão “começando muito atrás”.
O FBI afirmou que não comentaria números e decisões de pessoal, mas divulgou um comunicado dizendo que “agentes e funcionários são profissionais dedicados que trabalham 24 horas por dia para defender o país e combater crimes violentos. O FBI avalia continuamente e realinha seus recursos para garantir a segurança do povo americano”.
Ataque à sinagoga em Michigan nesta semana
AP
Irã tem histórico de planejar ataques e assassinatos nos EUA
O Irã prometeu vingança pela morte do líder supremo Ali Khamenei, atribuída aos Estados Unidos e a Israel. Embora os combates até agora estejam restritos ao Oriente Médio, a República Islâmica há muito declara sua determinação de realizar ataques em solo americano.
Agentes iranianos, por exemplo, reagiram ao assassinato do general Qassem Soleimani em 2020, durante o primeiro governo Trump, com um plano de assassinato por encomenda que acabou frustrado e tinha como alvo o ex-assessor de segurança nacional John Bolton.
Um empresário paquistanês que disse seguir instruções de um contato na Guarda Revolucionária do Irã (IRGC, na sigla em inglês) foi condenado em Nova York na semana passada por tentar contratar assassinos em 2024 para tramas de assassinato contra figuras públicas, incluindo o presidente Donald Trump, que na época era candidato.
Embora muita atenção esteja voltada ao uso de intermediários ou executores contratados pelo Irã para realizar ataques, a capacidade do país de organizar um grande atentado em território americano ainda é incerta, apesar das preocupações.
O FBI alertou em um boletim recente às forças de segurança sobre a aspiração do Irã de realizar um ataque com drones contra a Califórnia, mas depois ressaltou que a informação não estava confirmada e que não havia conhecimento de um plano específico.
Atacantes solitários são preocupação constante
Após os ataques de Atentados de 11 de setembro de 2001, o governo dos Estados Unidos reformulou profundamente seus sistemas de inteligência e segurança nacional para evitar eventos semelhantes. Mesmo assim, ao longo dos anos, indivíduos radicalizados pela internet realizaram ataques como o de 2015 contra dois centros militares em Chattanooga, no Tennessee, e o massacre em uma boate de Orlando no ano seguinte, no qual um atirador matou 49 pessoas enquanto atacava o que chamou de “formas imundas do Ocidente”.
Esses ataques conduzidos por indivíduos autônomos têm se mostrado notoriamente difíceis de prevenir e ocorreram mesmo quando o FBI não enfrentava demissões e turbulências internas como no primeiro ano do governo Trump.
“Eles agem por conta própria”, disse o ex-agente do FBI Edward Herbst. “É isso que os torna realmente letais. Você nunca sabe quando vão surgir nem quando e onde vão atacar.”
Preocupações com terrorismo costumam aumentar durante períodos de conflito internacional, quando operações militares no exterior são acompanhadas de maior vigilância interna — incluindo contatos mais frequentes de agentes com suas fontes, maior compartilhamento de informações entre forças policiais federais e locais e coordenação mais estreita entre forças-tarefa conjuntas de combate ao terrorismo do FBI, disse Claire Moravec, ex-autoridade de segurança nacional do FBI.
Autoridades disseram não haver indicação de que os homens presos devido aos explosivos em Nova York ou o responsável pelo tiroteio de quinta-feira na Old Dominion University tenham sido explicitamente motivados pela guerra com o Irã. Já o homem que lançou seu carro contra a sinagoga Temple Israel, perto de Detroit, perdeu quatro familiares em um ataque aéreo israelense no Líbano na semana passada, segundo uma autoridade libanesa.
Ainda assim, guerras como a que envolve o Irã pode funcionar como “aceleradores”, aumentando o volume e a intensidade de ressentimentos entre pessoas já radicalizadas, disse Moravec.
“Em última análise, o objetivo nesses períodos não é ‘vigilância’, mas manter uma ampla consciência de como eventos internacionais podem se traduzir em riscos de segurança interna, para que ameaças possam ser identificadas e interrompidas precocemente”, escreveu ela em um e-mail.
Demissões e saídas no FBI e no Departamento de Justiça
A Divisão de Segurança Nacional do Departamento de Justiça foi criada em 2006 para lidar com ameaças de terrorismo, espionagem e outros riscos. No último ano, advogados da divisão foram encarregados de revisar os arquivos de Jeffrey Epstein para prepará-los para divulgação pública, enquanto setores de elite dedicados à acusação de terroristas e à captura de espiões sofreram forte rotatividade.
Cerca de metade dos promotores antiterrorismo da divisão deixou o cargo desde o início do governo Trump, com aproximadamente um terço da liderança sênior, segundo estimativas da Justice Connection, rede de ex-funcionários do departamento.
Um porta-voz do Departamento de Justiça disse que o foco da divisão continua sendo “manter os americanos seguros de ameaças externas e internas” e que não há ameaças conhecidas ou confiáveis ao território dos EUA.
O diretor do FBI, Kash Patel, demitiu dezenas de agentes, mais recentemente cerca de uma dúzia de funcionários que trabalharam na investigação de contrainteligência sobre a retenção de documentos classificados por Trump em sua propriedade Mar-a-Lago, na Flórida.
Diretor do FBI Kash Patel
AP
“Não é exagero dizer que eles não são tão capazes quanto eram um ano e meio atrás”, disse Matthew Olsen, que liderou a Divisão de Segurança Nacional durante o governo de Joe Biden, em entrevista ao podcast Lawfare. Segundo ele, foram perdidos — por demissões, saídas forçadas ou afastamentos — os agentes e promotores mais experientes que trabalhavam com a ameaça iraniana.
No campo da segurança nacional, onde experiência e desenvolvimento de fontes são fundamentais, a perda de conhecimento institucional e de relações com comunidades pode ser devastadora, disse Montoya.
“Não houve transição”, afirmou ele sobre os agentes demitidos abruptamente. “Essas pessoas simplesmente foram escoltadas para fora do prédio.” Os novos agentes até podem ligar e perguntar o que estava sendo feito, disse ele, mas “ainda assim você está introduzindo um rosto completamente novo na equação”.
VÍDEOS: Os mais vistos agora no g1
Veja os vídeos que estão em alta no g1
source
Fonte: G1

14 de março de 2026 - 17:17

LEIA MAIS