23 de abril de 2026 - 16:47

Dia da Libras: mulheres surdas reforçam importância da educação inclusiva

O Dia Nacional da Libras é comemorado neste 24 de abril. Em 2002, neste dia, foi sancionada a Lei nº 10.436 que reconhece a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Com isso, a data homenageia a comunidade surda e reforça a importância da acessibilidade linguística, diversidade comunicacional e a inclusão.

Há cerca de 10,2 milhões de pessoas surdas ou com deficiência auditiva no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Deste número, 2,7 milhões convivem com surdez profunda. 

Pessoas com deficiência auditiva encontram diversas barreiras, desafios e dificuldades ao longo de suas vidas, seja pela falta de acessibilidade ou pelo preconceito ainda presente na sociedade. A educação inclusiva é uma potencial ferramenta de transformação que muda a realidade de muitas pessoas surdas no país. 

Histórias como a de Mariana Victoria Todeschini Sarnik, que se tornou uma das farmacêuticas surdas pioneiras a assumir o cargo de diretora técnica de farmácia, reforçam a importância da educação inclusiva para a transformação social.

A professora Bruna Narazaki é outro exemplo de mulher que encontrou na educação um instrumento de autonomia e inclusão.

“Quando a educação respeita as diferenças e garante acessibilidade, ela contribui diretamente para a formação de sujeitos mais preparados, críticos e seguros para atuar profissionalmente. Para as pessoas surdas, a educação inclusiva é decisiva para o rompimento de processos históricos de exclusão social e profissional.”

Bruna Narazaki

Neste Dia da Libras, o Brasil Escola conversou com Mariana e Bruna que compartilham sobre suas trajetórias de formação acadêmica enquanto mulheres surdas, do nível básico ao superior, até a inserção no mercado de trabalho. 

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Tópicos desta notícia

Desafios na formação escolar e no ensino superior

Natural de São José dos Pinhais (PR), Bruna Narazaki (36) é surda desde o nascimento em decorrência de rubéola contraída pela mãe durante a gestação. Na educação básica, a paranaense conta que enfrentou desafios de acessibilidade comunicacional, principalmente pela ausência ou insuficiência de intérpretes de Libras, práticas pedagógicas pouco inclusivas e falta de compreensão da surdez como uma diferença linguística e cultural.

Bruna se formou em Letras/Libras, fez especialização em Educação Bilíngue e Docência do Ensino Superior, atualmente é mestranda em Linguística na Universidade Federal do Paraná (UFPR). No âmbito do ensino superior, apesar de avanços na inclusão, os desafios permaneceram, especialmente quanto à qualidade da mediação linguística, adaptação dos materiais acadêmicos e reconhecimento da Libras como língua de instrução, relata.

Bruna Narazaki
Bruna Narazaki é mestranda em Linguística na UFPR.
Crédito: Divulgação.

A escassez de intérpretes de Libras também foi uma dificuldade vivida por Mariana Victoria Todeschini Sarnik (35). A paulista, natural da capital São Paulo e atualmente moradora de Campo Largo (PR), é surda bilateral profunda de nascença, oralizada e fluente em Libras.

Mariana se formou em Farmácia, e ao longo da graduação, encontrou dificuldades quanto ao entendimento de termos técnicos que ainda não têm sinais próprios padronizados, o que torna a comunicação ainda mais complexa. 

“O curso de Farmácia é considerado complexo e intenso para os estudantes ouvintes. Imaginem para os surdos, que precisam superar, além da complexidade técnica, a barreira linguística entre duas línguas de estruturas completamente diferentes”

Mariana V. T. Sarnik 

Mariana Sarnik
Mariana Victoria Tadeschini Sarnik é uma das pioneiras como surda no cargo de diretora técnica de farmácia.
Crédito: Arquivo Pessoal. 

Na faculdade, Mariana era a única surda de toda a instituição. Quando começou o curso não havia intérprete de Libras com conhecimento técnico em saúde, os professores falavam devagar para auxiliar no processo de leitura labial, mas a compreensão não deixava de ser limitada.

Mariana contou com o suporte e apoio familiar. Ela gravava as aulas e eles transcreviam todo o conteúdo. O fato de seu pai ser farmacêutico também contribuiu para seu processo de formação, considera.

Mercado de trabalho

Mariana reforça que na maioria das vezes há muito preconceito e capacitismo no processo de ingresso de profissionais surdos no mercado de trabalho. Em seu caso, conseguiu ser alocada em uma farmácia até que de maneira rápida, algo que a surpreendeu.

Ela se tornou uma das farmacêuticas surdas pioneiras a assumir o cargo de diretora técnica de farmácia. Em seu trabalho, desempenha várias funções como atendimento, entrada e saída de medicamentos, licenças nos órgãos regulatórios, alvarás e sistema de controle de medicamentos controlados.

Ao atender, a paulista conta que o paciente estranha a forma como ela se comunica e pergunta de onde ela é. A resposta é “sou farmacêutica e surda”. Quanto à reação, na maioria das vezes é de admiração, espanto, mas também carinho e disposição conjunta para encontrar formas de efetivar a comunicação, acrescenta.

No caso de Bruna Narazaki, sua inserção no mercado de trabalho aconteceu de forma gradual e foi marcada por desafios, principalmente relacionados às barreiras comunicacionais e ao preconceito. 

Por ter formação específica na área de Libras e contar com experiência acadêmica, Bruna contou com oportunidades profissionais especialmente no campo da educação e da formação docente.

Bruna é professora de curso superior a distância no Centro Universitário Internacional (Uninter), instituição que conta com o Serviço de Inclusão e Atendimento aos Alunos com Necessidades Educacionais Especiais (SIANEE) que apoia atualmente cerca de 6,8 mil estudantes em todo o país.

Bruna
Bruna Narazaki é professora universitária.
Crédito: Divulgação.

Importância da educação inclusiva

Para Mariana um dos principais desafios é o preconceito estrutural. Segundo a farmacêutica, “a maioria dos empregadores ainda acredita, de forma equivocada, que as pessoas surdas não têm capacidade para exercer a profissão”.

A justificativa é que os surdos “não sabem falar” ou que a comunicação será impossível e com isso, desconsideram que a comunicação em saúde é multifacetada e que existem inúmeras estratégias para superar barreiras auditivas, afirma Mariana. 

“A surdez não é um impedimento para o exercício qualificado do trabalho profissional, mas sim um elemento que enriquece a prática, ao trazer olhares e estratégias diferenciadas para o atendimento.”

Mariana V. T. Sarnik

É imprescindível, para ela, que o tema direcionado à inclusão e acessibilidade de pessoas com deficiência sejam abordados em todos os níveis de ensino.

Ela destaca a necessidade de haver profissionais, de todas as áreas que olhem para os surdos como pessoas produtivas, capazes de serem o que quiserem ser.

Aprendizagem de Libras por farmacêuticos

Desde 2019, Mariana integra a equipe do programa FarmaLibras, uma iniciativa nacional desenvolvida pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF) que busca estimular o aprendizado da língua de sinais pelos farmacêuticos brasileiros e desenvolver ferramentas de comunicação com as pessoas surdas usuárias da Libras.

No FarmaLibras, Mariana ajudou a criar um curso de Libras para farmacêuticos que é oferecido de forma online pela plataforma Edu.farma do CFF desde 2022. Além disso, contribuiu também no processo de desenvolvimento do Vocabulário Terminográfico Farmacêutico Bilíngue (Português-Libras) e o aplicativo web Farma Libras, ferramenta que ajuda o surdo a ser atendido com acessibilidade pelo farmacêutico ouvinte.

“A garantia do acesso linguístico ao surdo é primordial e me orgulho muito por fazer parte deste programa pioneiro em nosso país. Toda a equipe FarmaLibras busca realizar um trabalho farmacêutico tecnico, unido a estrutura gramatical da Libras e cultura surda, buscando, assim, contribuir para que a informação em saúde  produzida alcance os surdos com acessibilidade linguística real e promova saúde com segurança e efetividade”

Mariana V. T. Sarnik

Mariana Sarnik
Mariana atua no FarmaLibras, projeto nacional de formação em Libras para farmacêuticos.
Crédito: Arquivo Pessoal.

Inclusão das pessoas surdas nas escolas e universidades

Confira o bate-papo do professor João Gabriel com a professora e especialista Lívia Martins Gomes sobre as principais questões que envolvem a população surda no Brasil:

 

Por Lucas Afonso
Jornalista
 

noticia por : UOL

23 de abril de 2026 - 16:47

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