31 de maio de 2026 - 16:53

Não pretendo me aposentar, diz Boris Casoy, que completa 70 anos de jornalismo

Aos 85 anos, Boris Casoy não pensa em se aposentar. “Enquanto aguentar fisicamente e, especialmente, mentalmente, eu não pretendo. Brinco que quero morrer em frente a uma câmera.”

Em 2020, o jornalista passou a apresentar o Jornal do Boris, atração diária transmitida pelo YouTube, com cerca de meia hora. E acaba de voltar ao Grupo Silvio Santos, onde atuou de 1988 a 1997.

Boris se tornou no SBT um dos primeiros âncoras do telejornalismo brasileiro com liberdade para emitir opinião no ar. Além disso, lançou bordões que ganharam popularidade, como “isso é uma vergonha!”.

Desta vez, porém, ele estará no SBT News, canal de notícias lançado em dezembro do ano passado. A partir desta segunda, dia 1º, o Jornal do Boris passa a ser exibido simultaneamente no YouTube e no SBT News, de segunda a sexta, às 8h.

O retorno à casa de Silvio Santos (1930-2024) acontece no momento em que Boris celebra 70 anos de carreira. Começou aos 15 anos na rádio Piratininga, em São Paulo.

Teve, em seguida, uma fase dedicada à assessoria de imprensa de líderes políticos, que se estendeu do final dos anos 1960 ao início da década de 1970. Esteve na equipe de nomes como Luís Fernando Cirne Lima, ministro de Agricultura do governo Médici.

Boris foi editor-chefe da Folha em dois períodos no intervalo entre 1974 e 1987. No ano seguinte, iniciou seu percurso no telejornalismo. Depois da passagem pelo SBT, trabalhou na Record, Band, RedeTV! e CNN, entre outros canais.

Na entrevista, ele critica o jornalismo brasileiro da atualidade. “O país se apequenou politicamente e economicamente, e a imprensa acaba refletindo esse apequenamento”, diz. Mas pondera: “Estamos vendo um momento de transição, e toda transição é confusa”.

Também afirma não se arrepender do apoio ao golpe de 1964. Segundo ele, “existia mesmo um perigo, talvez não tão intenso quanto um regime comunista, mas uma república sindical, algo assim”. Porém, com o passar do tempo, decepcionado com abusos, como a tortura, Boris defendeu a volta da democracia.

O jornalista diz se considerar de “centro-direita. Eu seria uma direita europeia civilizada, liberal mesmo”.

Antes do início da entrevista, em meio a livros, troféus, caricaturas e rádios antigos que dominam seu escritório em Alphaville, em Santana do Parnaíba (SP), Boris pediu: “Não me chame de senhor”.

Como foi o convite para voltar ao SBT?

Eu tinha trabalhado na CNN com o Leandro Cipoloni, que agora é diretor de jornalismo do SBT e do SBT News. Foi quem me convidou. Não aceitei inicialmente por causa da vida pessoal. Estou com uma certa idade e mereço ter mais espaço para lazer. Estava satisfeito com o que eu fazia no meu jornal matinal, o Jornal do Boris, na internet.

Depois, ele fez uma nova proposta e, em um momento de fraqueza [risos], acabei aceitando.

Não estou submetido a nenhuma orientação de caráter político. Se tiver que me submeter a qualquer tipo de injunção, estou fora. Aliás, o SBT News está trabalhando com liberdade e independência. Não pretende ser popular ou popularesco, que é um carimbo que existe no SBT e que eu não acho que seja um carimbo ruim, é uma escolha, um reflexo do próprio Silvio Santos.

Temos hoje pelo menos oito canais dedicados exclusivamente ao noticiário. Existe público para tantos canais?

É um ponto de interrogação. Acho que há sempre espaço para um jornalismo insuspeito, realmente independente, mas não sei se isso resulta em lucro. São emissoras privadas que procuram lucro, e televisão custa muito caro. Não acho que a sobrevivência de todas essas emissoras será fácil. O telespectador vai perceber quem tem mais qualidade, e vejo uma grande chance do SBT representar esse tipo de jornalismo.

Quando fiz o TJ Brasil, eu era totalmente livre. O Silvio Santos jamais interferiu. Eu ataquei a candidatura dele à Presidência da República [em 1989], e o Silvio, espertamente, usou isso para mostrar que era tão democrata que o empregado o atacava no ar e não acontecia nada.

Mas não foi tranquila a minha decisão. Eu conversei com Guilherme Stoliar, sobrinho do Silvio e vice-presidente do SBT. Disse a ele que precisava falar sobre aquele assunto, que havia imperfeições. E ele respondeu: “Faz o que você quiser”.

De que forma você avalia o jornalismo brasileiro hoje?

A pandemia foi um choque para a imprensa, provocou crises enormes nos jornais, televisões e rádios. Foram obrigados a demitir quem tinha os maiores salários. Acho que houve perda de qualidade e vejo agora um grande esforço de recuperação.

A principal perda, a meu ver, foi a correia de transmissão. Uma Redação é o espaço onde as pessoas trocam informações e ideias, é onde se fala do futuro. É importante que o jornalista mais novo possa pedir ajuda para o mais velho, esse é um ensino que vale muito mais do que qualquer faculdade de comunicação. Essa correia de transmissão se perdeu.

No período das vacas gordas, a gente tinha um jornalismo comparável ao melhor jornalismo americano, com os mesmos cuidados, a mesma tecnologia. Havia um imã, que era a redemocratização, com espectros ideológicos mais claros e definidos. O país se apequenou politicamente e economicamente, e a imprensa acaba refletindo esse apequenamento.

Quando o Tancredo Neves foi eleito [janeiro de 1985], acho que a imprensa tinha uma presença maior na sociedade e também tinha sensores –sensores com S– que conseguiam captar melhor as tendências. Hoje, há acontecimentos que a imprensa tem dificuldade para captar.

Estamos vivendo um momento de transição, e toda transição é confusa. Tenho esperança de que as coisas melhorem. Eu sou suspeito porque sou partícipe disso tudo, não estou isento, não sou observador.

Como tem sido a experiência como youtuber?

As pessoas costumam tachar os veículos de maneira muito diferente. Televisão é uma coisa, rádio é outra, jornal é outra, internet é outra. Para mim, o que predomina é o jornalismo. De modo geral, é igual em todos: é preciso ter cuidado com as fontes; deve se expressar corretamente, escrevendo ou falando; deve ter assuntos atraentes. O resto é técnica, e quem gosta de jornalismo aprende.

Uma das coisas de que me orgulho é ter feito um ciclo completo. Fiz rádio, televisão, jornal, imprensa escrita, assessoria de imprensa e agora estou na internet, sou um youtuber. E não vou ter falsa modéstia, fiz esse ciclo com sucesso.

Como é a equipe do Jornal do Boris?

Minha equipe é meu exército, e hoje os exércitos têm armas tecnológicas modernas e pouca gente. São quatro pessoas, além de mim. Fernando CA, jornalista e músico, cuida da transmissão, ao lado do Cássio Emerick, que trabalha comigo há mais de 30 anos. Cássio é engenheiro. Luiz Nartis acompanha o noticiário e chama atenção para os erros. E Iraci Teixeira, excelente cozinheira, cuida do penteado e da maquiagem.

Como se prepara?

Como o jornal entra no ar às 8h, eu acordo entre 5h30 e 6h. Leio os jornais enquanto tomo café. Tenho a mania de olhar o celular no meio da noite, acho que isso acontece com outros jornalistas. De repente, o mundo acabou e eu não sei.

Anoto algumas coisas e também improviso no ar. Quando acaba, depois de meia hora, estou cansado. Descanso uns 10, 15 minutos e, em seguida, definimos os cortes que vão para o Instagram.

As pessoas ainda se lembram bem dos seus bordões. Como surgiu “Isso é uma vergonha”?

Durante uma transmissão do TJ Brasil, no SBT. Havia uma reportagem sobre um pronto-socorro no Recife, onde faltava tudo, pessoas feridas estavam no chão, médicos correndo de um lado para o outro, água escorrendo pela parede, chuva entrando, um caos.

Fiquei olhando aquilo, não era comum a televisão mostrar. Nesse momento, me lembrei de uma TV do Meio Oeste dos EUA que, quando John Kennedy foi assassinado, colocou um letreiro em que se lia “shame” (vergonha). Quando a câmera abriu para mim, foi um impulso: “Isso é uma vergonha!”

Quando terminou, uma figura importante do SBT, que não vou nomear, falou que, como eu estava em “big close” [enquadramento em que a câmera se concentra no rosto], aquilo agredia o telespectador. Pensei: “destruí a televisão do Silvio Santos.”

Quando deixei o estúdio e voltei para a Redação, o telefone estava estourando, eram muitos os telespectadores se manifestando. Era um grito que estava atravessado há anos na garganta da população. O Silvio até quis fazer um programa chamado “Isso é uma vergonha”, mas eu não quis porque seria um filão. Até hoje, quando fico muito tempo sem falar o bordão, as pessoas reclamam.

Tem algum arrependimento ao longo destes 70 anos de jornalismo?

Tenho pequenos arrependimentos, pontuais.

Pode dar um exemplo?

A história dos garis na Band [na noite de 31 de dezembro de 2009, dois varredores apareceram em uma vinheta do canal desejando feliz Natal, e uma falha técnica levou ao ar o áudio de Boris dizendo: ‘Que merda, dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho’].

Eu estava fora do ar e fiz uma brincadeira. Fiz um comentário com um humor cruel, não precisava ter falado aquilo e pedi desculpas depois. Acham que foi racismo, não foi. Foi uma infelicidade.

Arrepende-se de ter apoiado o golpe de 64?

Não me arrependo. Primeiro, é preciso levar em consideração que havia um ambiente de Guerra Fria. Segundo, os meus pais saíram da Rússia –aliás, a região em que eles moravam hoje é a Ucrânia, mas pertencia à Rússia naquela época– e descreviam o que era o comunismo. Minha mãe dizia que o que estava acontecendo no Brasil naquele período se parecia com a realidade da Rússia.

Existia mesmo um perigo, talvez não tão intenso quanto um regime comunista, mas uma república sindical, algo assim. O governo [de João Goulart] não ia bem, havia movimentos revolucionários de esquerda no Nordeste, as Ligas Camponesas. Já havia Cuba, um país comunista.

Existia também a guerrilha. Hoje a esquerda brasileira –inclusive o Lula— caracteriza [as ações da guerrilha] como uma luta democrática, mas não eram, eram uma luta para impor um regime. Nenhuma das guerrilhas queria a volta dessa democracia tal como a conhecemos.

Mais tarde, apoiei a volta da democracia, mas não me arrependo [do apoio ao golpe].

Aconteceu algo que te fez acreditar que a situação havia atingido um limite?

A tortura, a tortura. Sempre condenei a tortura, é um desrespeito aos direitos humanos. Me perguntam: “Como você defende os direitos humanos?” Eu digo que os direitos humanos são o respeito à Constituição. Não é a favor do bandido, é a favor da lei.

Como se considera do ponto de vista ideológico?

De centro-direita. Eu seria uma direita europeia civilizada, liberal mesmo. A esquerda precisa ser respeitada, há ideias e governos de esquerda e centro-esquerda muito bons. Procuro separar a ideologia da administração do dia a dia de um país e procuro ser construtivo. Não odeio os meus amigos de esquerda, não rompi com ninguém.

Planeja se aposentar?

Não. Enquanto aguentar fisicamente e, especialmente, mentalmente, eu não pretendo. Brinco que quero morrer frente a uma câmera. É preciso ter uma ocupação na vida. Quem se aposenta, bota um chinelinho e fica vendo TV é um candidato à morte prematura.

Faço a pergunta que fez para o então candidato Fernando Henrique Cardoso no último debate da disputa pela Prefeitura de São Paulo, em novembro de 1985. Acredita em Deus?

Eu acredito, só que dispenso intermediários. A minha relação é direta. Tenho motivos para acreditar e tenho motivos para dispensar intermediários. Eu acredito, graças a Deus.

Gostaria de acrescentar algo?

Sim. A Folha foi minha mais longa experiência jornalística, onde aprendi mais e me firmei como um jornalista de certa qualidade.

Mesmo exercendo duas vezes a função de editor-chefe, tive dois professores de enorme capacidade: Cláudio Abramo, meu queridíssimo amigo, que tinha ideias diferentes das minhas, mas muitas convergências; e o publisher Octavio Frias de Oliveira, o melhor jornalista que eu conheci. Ele não gostava de que falassem que era jornalista, mas era quem melhor conhecia a notícia como consumidor. Aprendi muita coisa empresarial com ele e fizemos amizade –eu tinha uma relação quase filial com ele.

Depois que deixei o cargo de editor-chefe, Otavio Frias Filho assumiu a função, e eu fiquei durante quatro anos editando o Painel. Foi meu trabalho predileto na Folha.

Tive que fazer o jornal atravessar o Rubicão, passando incólume pelo regime militar. Ao lado da minha porta de entrada, aqui em casa, tenho uma gravura com um mar revolto e, sobre ele, um avião de papel. Eu me sentia pilotando este avião, acho que consegui aterrissar bem. O jornal foi ameaçado de ser fechado, mas está aí, vivo.

noticia por : UOL

31 de maio de 2026 - 16:53

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