Talvez seja um túnel, um portal, ainda busco a palavra certa para definir o que acontece quando mergulho em um tema para escrever um livro novo.
Estou pesquisando a história de um hospital psiquiátrico que fechou as portas e foi demolido. De tudo que pude apurar, ficou uma pergunta: para onde foram os homens e mulheres que estavam internados e não tinham vínculos familiares nem casa para onde voltar?
Consegui uma entrevista com uma terapeuta ocupacional que trabalhou não só neste hospital, mas em outros. Foi uma conversa de duas horas que mudou a minha vida, pois ela me deu a resposta: os pacientes que sobraram estão, até hoje, em uma residência terapêutica da Prefeitura de Fortaleza.
São idosos, alguns nunca souberam nem o próprio nome, a maioria não tem familiares conhecidos. Certamente ficarão nesta casa para sempre, seja quanto for o sempre de cada um.
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Chama-se Teresa. Sua vida inteira é dedicada à saúde mental, a pacientes de quem ela lembra os nomes, o olhar, os detalhes, a voz, as coisas que diziam. Sobretudo as coisas bonitas.
Eles são capazes de amar muito, ela disse, e foi se lembrando de cenas e palavras que ouviu. Perguntei como cada um chegou até o hospital, quem levou. A polícia, os bombeiros, a família. Chegam em surto. Ou em silêncio profundo.
Pedi permissão para conhecer a residência e estar com eles por algumas horas, e assim começou um novo tempo para mim. São 14 pessoas em uma casa ampla e ventilada, com quintal, quartos espaçosos e uma cuidadora que eles —os que falam— chamam de mãe.
Alguns não falam, nunca falaram, pelo que se sabe. Não têm documento, não têm nome. Só os apelidos que ganharam. Apesar da doença, uns cuidam dos outros da maneira que conseguem.
Conheci um por um, os que conseguem andar, os que não andam mais. Ouvi suas histórias cíclicas e lógicas, mesmo em uma organização desconexa de personagens.
O que resistia na memória eram as palavras que nomeavam o amor: a mãe, a filha, a gatinha de estimação. A vontade de ter roupa cor-de-rosa, pulseira e colar. Crianças em corpos desgastados por uma doença cruel que leva tudo, mas deixa o amor.
Estávamos ao mesmo tempo diante da maior desgraça e da maior prova de compaixão e esperança. Dos pacientes psiquiátricos desvalidos desse mundo, 14 estão a salvo. Não foi totalmente triste estar lá.
Enquanto o mundo corre acelerado esperando alienígenas, apocalipse, combatendo os sites de apostas, produzindo vídeos e gastando água para pedir respostas às máquinas, aquela casa flutua em outro tempo e espaço, onde somos humanos e precisamos uns dos outros.
Foi uma chance de compreender a vida no máximo da sua tragédia e, ao mesmo tempo, no limite nunca alcançado da experiência do amor de quem cuida. Como a Teresa, como todos que dedicam seus dias àquelas pessoas em outra experiência de tempo, vivendo no mesmo mundo que nós, precisando de nós. Precisando de mim.
O mais impressionante é que, antes de ir, eu tinha escrito seis personagens usando o que eu achava que era a minha imaginação. Mas as histórias coincidiam com os relatos da Teresa. Exatamente iguais.
Não sei mais explicar onde a loucura encontra a literatura na experiência da linguagem. Estar ali me deu uma nova dimensão de vida, um novo lugar de onde eu vejo o mundo. Talvez seja um túnel, talvez seja o meu sempre.
P.S.: A partir de hoje, esta coluna será publicada às terças-feiras, não mais às segundas.
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noticia por : UOL






