2 de julho de 2026 - 18:49

Joia brutalista projetada por Vilanova Artigas está abandonada

Na primeira metade dos anos 1970, passava em frente ao Santapaula Iate Clube, no bairro Interlagos, quando ia com meu pai pescar carás e lambaris na represa de Guarapiranga. De dentro do carro, observava a agitação frenética e ficava fascinado. Era um lugar da moda naquela época, sempre lotado nos fins de semana. Via-se do lado direito da avenida Robert Kennedy, hoje Atlântica, uma enorme garagem de barcos de concreto aparente.

O Santapaula, hoje em estado de total abandono, foi uma referência de lazer de luxo em São Paulo. Havia dez pistas de boliche, salões de festa e jogos. Centenas de pessoas se divertiam nos bares, nos restaurantes e nas piscinas, uma delas com 1.200 m². Os sócios chegavam até suas lanchas potentes e veleiros por uma passagem subterrânea que saía do clube e atravessava a avenida até a garagem.

Reunia uma classe média mais abastada que ainda encontrava lazer na Guarapiranga. Eu ia pescar no barquinho do meu pai, com motor de popa Yamaha 8 HP, chamado Sabadell. Naquela época a represa não era tão poluída e era uma espécie de praia de São Paulo. Tinha também muito peixe.

Eu só não sabia que o Santapaula era um marco da arquitetura brutalista brasileira, desenhado pelos arquitetos João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) e Carlos Cascaldi (1918-2010) e inaugurado em 1964. Ele exalava modernidade e alienação. Era um lugar para esquecer os problemas e ignorar os anos de chumbo assistindo a shows de artistas importantes do momento, como Roberto Carlos e Agnaldo Rayol.

O brutalismo era o estilo dominante da arquitetura local naqueles tempos. E a garagem de barcos do Santapaula é um exemplo primoroso desse tipo de construção. Além de paredes, pilares e vigas à mostra, exibe volumes geométricos pesados e não possui qualquer adorno ou revestimento. Trata-se de uma das obras-primas de Artigas.

A garagem, com oficina e posto de combustível, foi projetada para abrigar e dar manutenção às embarcações e conta com uma laje de cobertura tripartite sustentada por oito pilares dispostos simetricamente. Sua estrutura suporta um grande vão livre sem qualquer obstrução interna. Hoje ela se encontra degradada, com o concreto rompendo-se em vários pontos e elementos de ferro corroídos pela ferrugem.

Antes do projeto do clube, o engenheiro e empreendedor Louis Romero Sanson, idealizador do autódromo de Interlagos, pretendeu erguer na área o Grande Hotel de Interlagos, nos anos 1950, com uma torre de 13 andares. O projeto, porém, fracassou e o terreno com uma edificação que parou no quarto andar foi adquirido pela empresa Santapaula Melhoramentos, de Adelino Boralli. Ele contratou Artigas, reformou as estruturas existentes e acrescentou os equipamentos necessários para um clube náutico, como a própria garagem, do outro lado da avenida, além da passagem subterrânea e das piscinas.

Artigas, autor de centenas de projetos, foi um dos mais proeminentes membros da chamada escola paulista de arquitetura, que se caracterizou pela estética e por um modo construtivo brutalista. Entre suas obras de maior destaque estão o estádio do Morumbi e o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Também de sua lavra é o conhecido edifício Louveira, em Higienópolis.

Nos anos 1980, o Santapaula fechou as portas por dificuldades financeiras, afetado pela poluição da represa e pelas mudanças nos hábitos de lazer da população. No final da década, o conjunto foi vendido por Boralli para a Montecarlo Comércio de Participações, mas nunca mais foi reformado. Ao longo do tempo, houve projetos para transformá-lo em um hotel com centro de convenções. A ideia não saiu do papel.

Desde 2007, o conjunto arquitetônico projetado por Vilanova Artigas é tombado pelo órgão de proteção do patrimônio histórico do município, o Conpresp.


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noticia por : UOL

2 de julho de 2026 - 18:49

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