Na primeira metade dos anos 1970, passava em frente ao Santapaula Iate Clube, no bairro Interlagos, quando ia com meu pai pescar carás e lambaris na represa de Guarapiranga. De dentro do carro, observava a agitação frenética e ficava fascinado. Era um lugar da moda naquela época, sempre lotado nos fins de semana. Via-se do lado direito da avenida Robert Kennedy, hoje Atlântica, uma enorme garagem de barcos de concreto aparente.
O Santapaula, hoje em estado de total abandono, foi uma referência de lazer de luxo em São Paulo. Havia dez pistas de boliche, salões de festa e jogos. Centenas de pessoas se divertiam nos bares, nos restaurantes e nas piscinas, uma delas com 1.200 m². Os sócios chegavam até suas lanchas potentes e veleiros por uma passagem subterrânea que saía do clube e atravessava a avenida até a garagem.
Reunia uma classe média mais abastada que ainda encontrava lazer na Guarapiranga. Eu ia pescar no barquinho do meu pai, com motor de popa Yamaha 8 HP, chamado Sabadell. Naquela época a represa não era tão poluída e era uma espécie de praia de São Paulo. Tinha também muito peixe.
Eu só não sabia que o Santapaula era um marco da arquitetura brutalista brasileira, desenhado pelos arquitetos João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) e Carlos Cascaldi (1918-2010) e inaugurado em 1964. Ele exalava modernidade e alienação. Era um lugar para esquecer os problemas e ignorar os anos de chumbo assistindo a shows de artistas importantes do momento, como Roberto Carlos e Agnaldo Rayol.
O brutalismo era o estilo dominante da arquitetura local naqueles tempos. E a garagem de barcos do Santapaula é um exemplo primoroso desse tipo de construção. Além de paredes, pilares e vigas à mostra, exibe volumes geométricos pesados e não possui qualquer adorno ou revestimento. Trata-se de uma das obras-primas de Artigas.
A garagem, com oficina e posto de combustível, foi projetada para abrigar e dar manutenção às embarcações e conta com uma laje de cobertura tripartite sustentada por oito pilares dispostos simetricamente. Sua estrutura suporta um grande vão livre sem qualquer obstrução interna. Hoje ela se encontra degradada, com o concreto rompendo-se em vários pontos e elementos de ferro corroídos pela ferrugem.
Antes do projeto do clube, o engenheiro e empreendedor Louis Romero Sanson, idealizador do autódromo de Interlagos, pretendeu erguer na área o Grande Hotel de Interlagos, nos anos 1950, com uma torre de 13 andares. O projeto, porém, fracassou e o terreno com uma edificação que parou no quarto andar foi adquirido pela empresa Santapaula Melhoramentos, de Adelino Boralli. Ele contratou Artigas, reformou as estruturas existentes e acrescentou os equipamentos necessários para um clube náutico, como a própria garagem, do outro lado da avenida, além da passagem subterrânea e das piscinas.
Artigas, autor de centenas de projetos, foi um dos mais proeminentes membros da chamada escola paulista de arquitetura, que se caracterizou pela estética e por um modo construtivo brutalista. Entre suas obras de maior destaque estão o estádio do Morumbi e o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Também de sua lavra é o conhecido edifício Louveira, em Higienópolis.
Nos anos 1980, o Santapaula fechou as portas por dificuldades financeiras, afetado pela poluição da represa e pelas mudanças nos hábitos de lazer da população. No final da década, o conjunto foi vendido por Boralli para a Montecarlo Comércio de Participações, mas nunca mais foi reformado. Ao longo do tempo, houve projetos para transformá-lo em um hotel com centro de convenções. A ideia não saiu do papel.
Desde 2007, o conjunto arquitetônico projetado por Vilanova Artigas é tombado pelo órgão de proteção do patrimônio histórico do município, o Conpresp.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
noticia por : UOL






