
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (centro), nomeou o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair (esquerda), e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (direita), como membros do conselho executivo do Conselho da Paz
Dawoud Abu Alkas/Reuters
O Hamas concordou com o “desarmamento total” em um acordo com o Conselho da Paz, um órgão internacional criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Descrevendo o acordo como “histórico”, o conselho afirma que haverá um plano gradual que levará à retirada completa das forças israelenses. Israel, que controla cerca de dois terços da Faixa de Gaza, ainda não se pronunciou.
Mas o que é o Conselho de Paz?
Donald Trump lançou oficialmente seu Conselho de Paz à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos, em janeiro de 2026
Reuters
O que é o Conselho da Paz?
A criação do órgão foi proposta no fim de setembro de 2025, como parte do plano de paz de 20 pontos apresentado pelo governo Trump para encerrar a guerra de dois anos entre Israel e Hamas e supervisionar a reconstrução de Gaza. Posteriormente, a ideia foi endossada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU.
No entanto, a carta constitutiva do órgão não menciona explicitamente Gaza nem os territórios palestinos, o que levantou temores de que pudesse ter um escopo mais amplo e assumir funções tradicionalmente desempenhadas pela Organização das Nações Unidas.
A iniciativa foi lançada formalmente quatro meses depois, em 22 de janeiro, à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos.
Na estrutura atual, Trump atua como presidente do conselho vitalício, o que lhe confere ampla autoridade de decisão. Para aderir à instituição de forma permanente, é preciso pagar uma taxa de US$ 1 bilhão.
O que se sabe sobre o acordo para o desarmamento do Hamas e a retirada israelense de Gaza
Na estrutura atual, Trump atua como presidente vitalício do conselho
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Quem integra o Conselho da Paz?
Dos 60 países convidados pela Casa Branca, mais de 20 aceitaram participar do Conselho da Paz, incluindo Israel, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Egito.
Nenhum dos principais aliados europeus dos Estados Unidos — entre eles o Reino Unido e a França — aderiu à iniciativa, e vários manifestaram preocupação de que ela pudesse ofuscar a Organização das Nações Unidas. A China e a Rússia tampouco aderiram ao grupo — embora Trump tenha feito um convite a Vladimir Putin.
Trump retirou o convite feito ao Canadá sem dar qualquer explicação. Ottawa havia sinalizado interesse em participar, mas não pagaria a taxa de adesão de US$ 1 bilhão.
O Brasil também foi convidado, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) condicionou sua participação à inclusão de representantes palestinos.
“Se o Conselho for para cuidar de Gaza, o Brasil tem todo o interesse de participar. Agora, é muito estranho que você tenha um Conselho e não tenha um palestino na direção. O Brasil tem todo o interesse de participar, mas é preciso que os palestinos estejam na mesa, senão não é uma comissão de paz”, disse Lula em entrevista ao UOL em 5 de fevereiro.
Em janeiro, Lula havia criticado a proposta. Durante um evento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador, o presidente brasileiro afirmou que Trump queria “ser dono da ONU”.
Hamas impõe condições para acordo em Gaza
Na reunião inaugural do Conselho, em fevereiro, Trump afirmou que os Estados-membros contribuíram com US$ 7 bilhões para a reconstrução de Gaza após o desarmamento do Hamas.
Em abril, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, declarou estar cooperando com o Conselho em relação a Gaza.
No início deste mês, um funcionário do Conselho afirmou que haverá uma zona humanitária piloto para palestinos em Gaza.
Quem integra o Conselho Executivo da Paz?
BBC
Como funciona o Conselho da Paz?
Além do Conselho de Paz, foram anunciados dois conselhos executivos subordinados:
o Founding Executive Board (Conselho Executivo Fundador, em tradução livre), com foco de alto nível em investimentos e diplomacia;
o Gaza Executive Board (Conselho Executivo de Gaza, em tradução livre), responsável por supervisionar todo o trabalho em campo do Comitê Nacional para a Administração de Gaza, um grupo de tecnocratas encarregado da governança temporária e da reconstrução do território.
A Casa Branca afirmou que os integrantes desses conselhos atuarão para garantir “governança eficaz e a prestação de serviços de excelência que promovam a paz, estabilidade e prosperidade para o povo de Gaza”.
Segundo a Casa Branca, Trump presidirá o “Conselho Executivo Fundador” de nove membros, que conduzirá Gaza à sua próxima fase de reconstrução. Outros integrantes incluem:
o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio;
o enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff;
Jared Kushner, genro de Trump;
o ex-primeiro ministro do Reino Unido, Tony Blair.
A inclusão de Blair é considerada controversa porque, em 2003, ele levou o Reino Unido à Guerra do Iraque com base em alegações de que o governo iraquiano possuía armas de destruição em massa, afirmações que mais tarde se mostraram falsas.
Não há representantes palestinos em nenhum dos dois órgãos.
O Conselho da Paz pode ‘consertar’ Gaza?
ONU estima que cerca 80% dos prédios em Gaza foram destruídos ou danificados
Reuters
A reconstrução de Gaza deve levar anos e pode custar mais de US$ 70 bilhões, segundo uma avaliação de danos realizada no ano passado pela Organização das Nações Unidas, pela União Europeia e pelo Banco Mundial.
Cerca de 80% dos edifícios em Gaza foram destruídos ou danificados, gerando 61 milhões de toneladas de escombros, segundo estimativas da ONU. Famílias deslocadas também enfrentam baixas temperaturas do inverno, abrigo limitado e escassez de alimentos.
Palestinos caminham entre as ruínas do bairro de Al Tuffah, na zona leste da Cidade de Gaza, em meio ao cessar-fogo entre Israel e o Hamas.
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O cessar-fogo mediado pelos EUA, que entrou em vigor em outubro, procurou interromper mais de dois anos de combates entre Israel e o Hamas. Embora os combates mais intensos tenham diminuído, pelo menos 1.168 palestinos foram mortos em ataques israelenses desde então, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas. Os seus números são considerados fiáveis pela ONU.
Na cerimônia de assinatura do Conselho da Paz realizada em Davos, na Suíça, Kushner — empresário do setor imobiliário e genro do presidente Donald Trump, que ajudou a negociar um cessar-fogo entre Israel e o Hamas — apresentou um “plano diretor” para Gaza que inclui arranha-céus, novas cidades e uma zona turística costeira.
Ele disse que a construção poderia levar de dois a três anos e exigirá um investimento de pelo menos US$ 25 bilhões, sendo a ajuda humanitária a prioridade imediata.
Por que o Conselho da Paz de Trump é tão polêmico?
Nenhum dos dois órgãos criados em conjunto com o Conselho de Paz inclui representantes palestinos
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A iniciativa tem recebido críticas significativas, que vão desde preocupações com sua legitimidade até a representatividade dentro do órgão.
Apesar de Trump promover o conselho como um futuro mediador de conflitos, vários aliados dos EUA alertaram que ele pode enfraquecer a Organização das Nações Unidas e o seu Conselho de Segurança da ONU — responsável pela manutenção da paz internacional e por sanções.
O governo Trump já reduziu o financiamento dos EUA para as Nações Unidas.
No início do ano, o presidente americano assinou um memorando retirando o país de 31 entidades das Nações Unidas que, segundo ele, estavam “operando contra os interesses nacionais dos EUA”.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, descreveu o Conselho da Paz como um instrumento pessoal de Trump, sem mecanismos de responsabilização perante os palestinos ou a ONU.
Em discurso na Conferência de Segurança de Munique em fevereiro, ela afirmou que, embora o Conselho de Segurança tenha aprovado uma resolução apoiando a criação de um Conselho de Paz temporário para Gaza — que incluiria participação palestina e referência explícita ao território — a carta constitutiva do conselho omitiu esses elementos.
“Então, acho que existe uma resolução do Conselho de Segurança, mas o Conselho da Paz não a reflete”, disse ela.
A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou que o Conselho da Paz é um instrumento pessoal de Trump
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A ausência de palestinos dos conselhos executivos é outro motivo de controvérsia.
“Parece que é basicamente um conselho americano, com alguns elementos internacionais”, disse o político palestino Mustafa Barghouti à BBC em entrevista recente, acrescentando que os palestinos esperavam “uma representação muito mais ampla”.
Segundo Barghouti, o fato de o papel do grupo administrativo palestino aprovado durante negociações de paz no Cairo “não estar claro” seria “problemático”.
Enquanto isso, o Conselho Executivo de Gaza inclui dois membros israelenses: o bilionário do setor imobiliário Yakir Gabay, atualmente radicado no Chipre; e o capitalista de risco americano Michael Eisenberg.
A inclusão de políticos de alto escalão do Catar e da Turquia — países críticos à atuação de Israel em Gaza — também provocou críticas entre políticos israelenses.
Israel, por sua vez, afirmou em janeiro que a composição dos conselhos executivos “não foi coordenada com Israel e contraria sua política”, informou o gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
O líder da oposição israelense, Yair Lapid, classificou a composição como um “fracasso diplomático para Israel”, enquanto o ministro da Segurança Nacional, da direita radical, Itamar Ben-Gvir, escreveu no X que a Faixa de Gaza não precisava de nenhum “comitê administrativo” mas deveria ser “limpa de terroristas do Hamas”.
Contribuíram para essa reportagem Paula Adamo Idoeta, Sanne Peck e Andrew Webb, da BBC World Service
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Fonte: G1





