8 de agosto de 2026 - 7:47

Por que uma gigante de IA está destruindo livros raros (literalmente)

Compra-se o livro, arranca-se a lombada, as folhas soltas passam por um scanner de alta velocidade e o que sobra segue para a reciclagem. Repetido alguns milhões de vezes, o processo produz o combustível de uma inteligência artificial. Para ensinar as máquinas a manejar a linguagem, a indústria da IA passou a comprar e destruir em escala os livros que guardam essa linguagem, e um juiz federal americano decidiu que a prática é uso legítimo, o fair use da lei de direitos autorais.

A revelação veio de documentos internos da Anthropic, criadora do assistente Claude, abertos num processo por direitos autorais e noticiados pelo Washington Post. Um deles descrevia o Projeto Panamá como o esforço da empresa para digitalizar destrutivamente todos os livros do mundo. Outro trazia uma frase que diz muito sobre o incômodo da própria companhia com o que fazia: “Não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso.”

A operação era grande e metódica. Sob o comando de Tom Turvey, ex-executivo do Google Books, a Anthropic comprou milhões de livros usados no mercado comum, de preferência anteriores a 2022, quando ainda não circulava em massa texto gerado por máquina, capaz de contaminar o treinamento. Livreiros começaram a notar o padrão: pedidos enormes, sobre qualquer assunto, sem a menor sensibilidade a preço. A destruição das obras físicas faz parte do processo de digitalização porque o método tradicional era mais trabalhoso e lento.

A bênção do juiz

O caso judicial que expôs tudo, Bartz contra Anthropic, terminou com uma vitória parcial para a empresa. Em 2025, o juiz William Alsup decidiu que comprar, escanear e destruir um livro adquirido de forma legal, para treinar um modelo, é uso transformador e, portanto, uso legítimo. O raciocínio foi curioso: como a cópia digital apenas substituía a física, que era destruída, não havia duplicação nem redistribuição, e uma coisa tomava o lugar da outra.