10 de setembro de 2026 - 8:31

Sem dinheiro, holding do Master em Cayman faz assembleia com credores que pedem US$ 1 bi

A Grant Thornton, consultoria que atua como liquidante judicial da Titan Capital Holding, empresa de participação ligada ao Banco Master nas Ilhas Cayman, realizou nesta quarta-feira (9) a primeira reunião com credores. Os principais pontos da pauta foram a formação de um comitê de credores e a apreciação do primeiro relatório —que não trouxe informações animadoras.

Até agora, cinco credores apresentaram provas de dívidas que, ainda em análise, somam US$ 1,064 bilhão (R$ 5,43 bilhões). O liquidante, porém, apontou que não há dinheiro nas Ilhas Cayman.

O detalhamento da localização de ativos da Titan apontou que potenciais recursos estão associados a participações acionárias em subsidiárias brasileiras e fundos de investimento ligados ao Master.

A Grant Thornton afirma que analisa a abertura de uma ação de falência transfronteiriça sob o Chapter 15 nos Estados Unidos —o capítulo 15 da Lei de Falências norte-americana.

A medida buscaria o reconhecimento da liquidação de Cayman em solo americano para proteger ativos e forçar a entrega de registros e documentos que estejam em posse de instituições e agentes nos EUA.

O relatório detalhou que foram contratados advogados nas Ilhas Cayman, nos EUA e no Brasil, que notificaram mais de 70 partes envolvidas no caso Master, entre bancos, custodiantes e executivos de empresa na busca por ativos. Foi solicitada a entrega de livros e registros financeiros, mas a entrega da maioria dos documentos solicitados continua pendente.

Não há dinheiro nem para pagar os serviços da Grant Thornton, que está atuando no caso com duas divisões, a Grant Thornton Specialist Services, de Cayman, e a Grant Thornton UK Advisory & Tax LLP. Os honorários acumulados já somam US$ 572,8 mil (R$ 2,9 milhões), e ainda há outros US$ 89 mil (R$ 454 mil) referentes ao pagamento de advogados externos.

O liquidante informou que busca financiamento de terceiros para cobrir esse custo e convida os credores que tenham interesse em financiar o processo a se manifestarem.

CONEXÕES BRASILEIRAS

A Titan tem um único acionista, Daniel Vorcaro, que controlava o Master. Como diretores, estão registrados Angelo Antonio Ribeiro da Silva e Luiz Antonio Bull, que eram executivos do banco no Brasil — Silva como sócio e tesoureiro da instituição, e Bull na cadeira de diretor de Riscos e Compliance. Ambos respondem a processos criminais, estão com bens bloqueados no país e não retornaram às solicitações de esclarecimento dos liquidantes.

O relatório da Grant Thornton explica que a Titan tinha uma inscrição ativa de contribuinte não residente no Brasil sob o CNPJ 57.265.362/0001-21, aberta em 12 de setembro de 2024. Esse CNPJ brasileiro foi registrado originalmente sob a razão social Master Holding – Sefer Investimentos Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda., uma designação que remete ao operador financeiro Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido na Faria Lima como Mineiro.

Não consta do relatório do liquidante da Titan, mas investigações da PF (Polícia Federal) e dados do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontaram que a Sefer, na posição de braço brasileiro da Titan, foi utilizada para triangular repasses suspeitos para a Entre Investimentos, empresa de intermediações financeiras de Freixo.

O Mineiro fechou acordo de delação com a PGR (Procuradoria-Geral da República), que aguarda homologação do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Em outra linha de frente, a liquidante extrajudicial do Banco Master no Brasil, EFB Regimes Especiais, também baseada em investigações no Brasil, apontou ainda que a Titan esteve no centro de um suposto esquema de esvaziamento patrimonial, tendo recebido mais de R$ 700 milhões da instituição financeira entre janeiro e julho de 2025, antes da liquidação do banco pelo Banco Central, em novembro.

O relatório aos credores da Titan ainda informa que Grant Thornton e a liquidante brasileira do Banco Master buscam coordenar a recuperação de livros, registros e documentos da Titan que possam estar no Brasil. A parceria tenta evitar a duplicação desnecessária de custos, esforços e processos judiciais nas duas jurisdições.

O liquidante do Banco Master já obteve uma decisão judicial na Suprema Corte de Cayman que o reconhece oficialmente como representante estrangeiro no território. A tendência é que o liquidante brasileiro apresente reivindicações financeiras contra a Titan em nome da massa falida do Banco Master, mas até a data do fechamento do relatório não havia apresentado prova de dívida.

A Grant Thornton informou ainda que está avaliando de perto o impacto jurídico dessa decisão para entender como as duas liquidações vão coexistir e interagir em Cayman.

TETHER LEVOU À LIQUIDAÇÃO

Entre os credores da Titan que se destacam está a Tether Investments, a divisão de investimentos da Tether, gigante do setor de criptomoedas, criadora e emissora do USDT, a maior stablecoin (moeda digital com paridade com o dólar). Foi o questionamento da Tether que levou à liquidação da empresa.

Em março de 2025, a Tether liberou para a Titan uma linha de crédito no valor de US$ 300 milhões, garantida por recebíveis de empréstimos consignados associados ao Master.

Com o rebaixamento de ratings, seguido da liquidação extrajudicial do Master pelo Banco Central do Brasil, em novembro de 2025, a Tether emitiu notificações de vencimento antecipado da dívida.

A Titan questionou a cobrança na Corte de Arbitragem Internacional de Londres, que proferiu sentenças favoráveis à Tether. Sem obter o pagamento, a Tether peticionou a liquidação judicial da holding nas Ilhas Cayman reivindicando o pagamento da dívida, que já soma US$ 326,2 milhões, mais os custos da arbitragem na corte inglesa, de 649,5 mil libras.

Antes de a Tether obter a ordem de liquidação, a Titan estava prestes a ser extinta de forma administrativa pelo governo de Cayman, porque o antigo provedor de sede e agente registrado da empresa havia renunciado aos serviços.

Uma das primeiras ações da Grant Thornton ao assumir o controle foi regularizar essa situação e nomear a HSM Corporate Services para manter a Titan legalmente ativa e permitir que o processo de falência e as investigações pudessem prosseguir.

noticia por : UOL

10 de setembro de 2026 - 8:31

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