28 de setembro de 2026 - 19:22

Pastora do Rio é contra esquerda, feminismo e armas

Todo passo que Sarah Lole dá passa primeiro por Deus. “Ir à academia, meu futuro, para onde vou viajar: qualquer decisão que tome na minha vida, eu começo orando. Até quando for algo que parece um pouco superficial, vai que vou fazer uma cirurgia estética, vou orar por isso também.”

Ser evangélica, para a pastora e publicitária de 31 anos, é um “estilo de vida”. Nem sempre foi assim. Ela cresceu indo à Assembleia de Deus da Penha, liderada por seu avô. A mesma igreja que, em 2010, passou a se chamar Vitória em Cristo, agora sob batuta do tio Silas Malafaia —ele é casado com a pastora Elizete, irmã da mãe dela.

Ser de uma família de pastores não impediu que Sarah bambeasse na fé. Ela conta que, lá pelos 18 anos, relacionou-se com “uma pessoa que me traía” e que a fez se “distanciar de Deus”.

Só mais tarde detectou a dependência emocional em jogo. “Meu pai era coronel da PM, um homem rígido. Entendi que eu queria preencher o amor que meu pai deixava sem demonstração.”

Foi Deus no controle. Se Ele realmente libertava, que a ajudasse a terminar aquela relação. Deu certo. Uma “mudança de coração” a fez rejeitar o homem que a fazia tão mal, diz. Houve outro namoro, com um homem que depois se assumiu homossexual. “Foram relacionamentos que machucaram muito.”

Sarah conheceu o marido, Matheus, no culto. Ele era amigo de um rapaz com quem Sarah treinava crossfit. O casal está junto desde 2019 e planeja começar a tentar ter filhos no fim deste ano.

Na escala de prioridades de Sarah é Deus acima de tudo, e então família, igreja e trabalho. Ela foi ordenada pastora aos 29 anos, idade que considera precoce. A Vitória em Cristo não é regra —várias Assembleias de Deus não concedem o título a mulheres.

Sarah diz que nunca permitirá que a rotina pastoral ocupe o lugar do marido. “Se ele está doente, estarei cuidando dele antes de ficar servindo que nem louca dentro de uma igreja.”

O trabalho formal também perdeu espaço. A publicitária passou pela L’Oréal, onde sonhava chegar aos cargos mais altos, mas o meio executivo foi perdendo sentido. Também não considera prioritário trabalhar como CLT. Deus a livre de estar todos os dias numa empresa.

Hoje faz home office cuidando das redes sociais de Malafaia. “Fui renunciando às coisas na minha vida. Os sonhos que tinha de crescer financeiramente… Renunciei para estar mais presente na igreja.”

O cargo religioso é voluntário. Em geral, só homens que pastoreiam em período integral são pagos, diz. “Preciso ter uma fonte de renda para me ajudar, ainda mais no Rio, onde as coisas são muito caras.”

A visão de Sarah sobre o papel da mulher passa por essa divisão de tarefas. Ela rechaça a ideia de que a submissão feminina, prevista na Bíblia, signifique inferioridade. Interpreta-a como estar sob a mesma missão do marido. “Você casa com um homem íntegro, que realmente seja uma bênção, né? Não casa com qualquer um. Se você se submeteu a uma pessoa que é lunática, você que fez a escolha errada.”

É preciso confiar no cônjuge para direcionar o lar, afirma. “Não que a mulher seja menor do que o homem, mas eu tô aqui para auxiliar o meu esposo.”

Sarah enxerga o feminismo como uma força que altera essa harmonia familiar. “Nasci em lar cristão, só que fui impactada pela cultura do nosso país. Sempre quis filhos, mas priorizei a vida profissional.”

Ela se incomoda com o que chama de “evangelho secularizado”. O que mais vê é mulher exibindo o corpo na academia e depois aparecendo na igreja “de saião”. Para ela, a cultura secular tenta convencer os cristãos de que não existe mais diferença entre viver dentro e fora dos valores religiosos.

Aplica lógica parecida quando fala sobre a comunidade LGBTQIA+. São pessoas bem-vindas porque “a igreja é para todo mundo”, mas a fé deve produzir uma transformação. Menciona como positivo a cantora Ludmilla ter ido à sua igreja, no Recreio (zona oeste carioca), dia desses. “A gente sabe que ela é homossexual e prega uma vida nada a ver com o evangelho.”

Avalia como “inerente ao ser humano a gente ser preconceituoso, ter um coração mau”. O que muda isso, para Sarah, “é o Espírito Santo”.

Sente preconceito por ser crente. “Na escola, se fala que é cristã, acham que a gente é bobo, que não vai experimentar a vida.”

Sua preocupação com a violência nasceu de um episódio concreto. Quando criança, a caminho do culto, foi assaltada com a família.

Educação ruim e pobreza geram violência, diz. “Não adianta só fazer milhares de leis e diminuir a idade penal. A gente vê os países de primeiro mundo, onde a pessoa tem mais oportunidade. [O nosso] é um governo que ajuda a pessoa a tapar buraco com dinheiro para poder comer, ter a picanha lá no final do dia. Não tem educação empreendedora.”

Também não apoia a liberação de armas por considerar que o Brasil não tem maturidade para lidar com elas. “Um vai atirar no outro, vai ser pior ainda.”

Quando fala de violência doméstica, a fé não elimina a punição. Sarah defende a Lei Maria da Penha e diz que homem que bate em mulher deve ser preso. “A gente não tem que ficar fingindo que nada tá acontecendo. Prende e ora para que Deus transforme o caráter dele.”

A lembrança que guarda da escola é negativa. Conta que um professor do ensino médio pregou sobre a PSOL para a turma, e que saiu de lá querendo votar em Marcelo Freixo.

O pulso conservador que teve em casa a colocou na rota oposta. “Sou de direita porque vejo que é o melhor caminho a se seguir no país.” Votará em Flávio Bolsonaro (PL) neste ano.

A adesão ao bolsonarismo vem com ressalvas. Acha que Jair Bolsonaro (PL) “começou falando coisas muito fortes”. Mas foi preciso apoiar sua presidência para derrotar a esquerda, que tanto ameaçaria o que mais lhe importa: família, pátria e religião.

Daí ser tão importante, segundo ela, que evangélicos se engajem e não comam a poeira do redemoinho eleitoral. “Antigamente, a gente atribuía política ao diabo.” Não mais.

noticia por : UOL

28 de setembro de 2026 - 19:22

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