4 de outubro de 2026 - 17:47

Como o consumo de álcool aumenta o risco de desenvolver demência

Em 2003, um estudo publicado no Journal of the American Medical Association relatou que consumir duas ou mais bebidas alcoólicas por dia estava associado a um risco 22% maior de demência.

Mas pessoas que bebiam menos do que isso tinham um risco até 54% menor, em comparação com aquelas que não bebiam nada.

“Lembro-me de ler esse artigo do Jama há uns vinte e poucos anos e pensar: ‘Eu realmente deveria tentar tomar uma taça de vinho todos os dias'”, disse Joel Gelernter, professor de psiquiatria, genética e neurociência na Faculdade de Medicina da Universidade Yale.

Esse estudo não foi o único a sugerir que o consumo moderado de álcool era benéfico para o cérebro: pesquisas observacionais têm mostrado de forma consistente que consumidores leves a moderados têm um risco menor de demência em comparação com abstêmios.

“Essa ideia da curva em formato de J era realmente bastante reproduzível em muitos estudos”, diz Kristine Yaffe, professora de psiquiatria, neurologia e epidemiologia na Universidade da Califórnia, em São Francisco. Mas ela acrescentou: “Acho que, mais recentemente, as pessoas desmistificaram esse J.”

De fato, os pesquisadores passaram a compreender que os benefícios para a saúde atribuídos a uma taça diária de vinho são, em grande parte, uma miragem.

Pessoas que bebem com moderação tendem a ter mais vantagens na vida do que pessoas que se abstêm (como ter um nível socioeconômico mais elevado, mais anos de escolaridade e, de modo geral, melhor saúde), e os especialistas acreditam que isso explica o menor risco de demência, e não o álcool em si.

As evidências de que o consumo excessivo de álcool (frequentemente definido como mais de duas doses por dia) pode danificar o cérebro e aumentar o risco de demência também continuaram a se acumular.

No entanto, os especialistas ainda estão aprendendo exatamente como isso acontece e a partir de qual quantidade os danos começam a ocorrer.

Consumo excessivo e o cérebro

Os especialistas têm algumas teorias sobre como o consumo crônico e excessivo de álcool prejudica o cérebro.

Pesquisas, muitas delas realizadas em animais e células humanas em laboratório, indicam que o álcool pode induzir estresse oxidativo no cérebro e desregular o sistema imunológico cerebral, desencadeando inflamações prejudiciais.

Tanto o estresse oxidativo quanto a inflamação estão associados à demência. O álcool também afeta o cérebro indiretamente. Pessoas que bebem muito têm um risco maior de hipertensão e AVC (acidente vascular cerebral), e os danos aos vasos sanguíneos são um fator determinante para a demência vascular.

Pessoas que bebem muito também tendem a ter outros hábitos não saudáveis que podem prejudicar o cérebro, como o tabagismo ou uma dieta inadequada.

No caso mais extremo, algumas pessoas com transtorno por consumo de álcool desenvolvem a síndrome de Wernicke-Korsakoff, uma forma de demência causada por uma grave deficiência de tiamina (vitamina B1) decorrente do consumo crônico e pesado de álcool.

“Existem múltiplos caminhos diferentes” pelos quais o álcool pode danificar o cérebro, disse Louise Mewton, professora associada que estuda o consumo de álcool na Universidade de Sydney.

E, acrescentou ela, “pode ser que todos eles atuem ao mesmo tempo. A literatura científica certamente ainda não está consolidada.”

Consumo moderado e o cérebro

Com níveis mais baixos de consumo de álcool, é menos claro quando e como o cérebro é afetado. E como a maioria dos estudos sobre os hábitos de consumo das pessoas encontra essa enganosa curva em J, os cientistas tiveram que ser criativos em seus métodos de pesquisa.

Alguns estudos que analisam o volume cerebral indicaram que os danos podem ocorrer mesmo com o consumo leve a moderado.

Um grande estudo de 2022 realizado no Reino Unido descobriu que consumir uma média de oito doses por semana estava associado a um volume cerebral ligeiramente menor do que consumir uma média de quatro por semana. E quanto maior o consumo de álcool, menor o cérebro.

Charles DeCarli, professor de neurologia na Universidade da Califórnia, Davis, disse que não há evidências de que quantidades moderadas de álcool danifiquem diretamente os neurônios.

“O que esses estudos mais recentes indicam, no entanto, é que existe alguma relação” entre pequenas doses de álcool e o cérebro. Mas, acrescentou ele, “o volume cerebral não se traduz necessariamente de forma direta em desempenho cognitivo.”

Outras pesquisas sugerem que o consumo leve a moderado pode estar associado a alguma perda na função cognitiva, mesmo que não se enquadre como demência.

Outro estudo do Reino Unido descobriu que pessoas que consumiam apenas quatro doses por semana apresentaram um declínio maior nas habilidades de linguagem ao longo de 30 anos em comparação com pessoas que eram abstêmias. Mais uma vez, quanto mais as pessoas bebiam, pior ficava sua cognição.

Pesquisas mais recentes sobre a predisposição genética ao consumo de álcool também produziram resultados alarmantes.

Um estudo publicado em janeiro descobriu que, quando os pesquisadores usaram os hábitos de consumo autorrelatados pelas pessoas para avaliar o risco de demência, a típica curva em J emergiu.

No entanto, quando repetiram a análise usando genes que preveem o comportamento em relação ao álcool (se alguém é geneticamente mais propenso a beber muito, pouco ou nada), o risco de demência aumentou mesmo em níveis baixos de consumo previsto de álcool.

Gelernter, que participou do estudo genético, disse que agora acredita que existe uma relação linear entre o consumo de álcool e o risco de declínio cognitivo. Mas a pesquisa não o levou a se abster completamente.

“Com certeza não tento mais tomar uma taça de vinho todos os dias, mas não parei”, disse ele. Embora “fosse muito mais agradável quando dizíamos: ‘Estou fazendo isso pela minha saúde'”, acrescentou.

noticia por : UOL

4 de outubro de 2026 - 17:47

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