7 de março de 2026 - 0:49

Arqueólogo faz 26 viagens em barcos como os de mil anos atrás para estudar vikings

Em 2021, Greer Jarrett embarcou na primeira de 26 viagens para retraçar rotas marítimas dos navegadores nórdicos durante a Era Viking, que durou de 800 a 1050 d.C.

Os vikings, além de sua reputação como vilões medievais —saqueadores, se preferir—, eram comerciantes habilidosos que estabeleceram rotas comerciais que se estendiam até Bagdá. Sua supremacia dependia do domínio dos mares.

Jarrett, doutorando em arqueologia na Universidade de Lund (Suécia), estava intrigado não apenas com os pontos de partida e chegada desses antigos marinheiros mas com os caminhos que percorreram para chegar lá. “Os detalhes do comércio da Era Viking frequentemente se limitam às suas origens e destinos.”

Ao longo dos três anos seguintes, e no espírito da arqueologia experimental, Jarrett utilizou nove embarcações no estilo daquelas usadas há um milênio.

A maioria das viagens foi realizada em bacos de dez metros construídos na tradição de Afjord, um pequeno município norueguês onde as técnicas de construção naval da Era Viking perduraram até o século 20. Os menores barcos da frota eram preferidos tanto por pescadores quanto por agricultores.

Durante grande parte desses três anos, Jarrett liderou tripulações de estudantes e voluntários em expedições de navegação ao longo da costa oeste da Península Escandinava, o núcleo histórico da navegação nórdica.

Mesmo sem atravessar oceanos, eles encontraram perigos que às vezes rivalizavam com os de Leif Erikson e seu pai, Erik, o Vermelho, que se acredita ter sido o primeiro europeu a chegar à América do Norte. Correntes de maré turbulentas. Vergas quebradas —as hastes horizontais no mastro de um navio às quais a vela principal é fixada. Encontros com ondas de quatro metros, um submarino emergindo e uma baleia-de-minke.

Os mais desafiadores dos perigos eram ventos poderosos e gélidos que varriam as encostas das montanhas.

Tudo foi em nome da ciência: fornecer informações práticas sobre a navegação nórdica a Jarrett, um pesquisador que passa o máximo de tempo possível no mar, trabalhando como parte da tripulação a bordo de um barco tradicional de madeira, com poucos recursos modernos para navegação, conforto e processamento de alimentos.

Neste ano, em maio, ele publicou suas descobertas no períodico Journal of Archaeological Method and Theory. Sua análise, abrangendo as primeiras 17 viagens e 1.494 milhas náuticas registradas durante essa investigação, une observações em primeira mão com modelagem digital da antiga costa norueguesa para descobrir rotas marítimas perdidas e portos escondidos antes utilizados pelos vikings.

Vibeke Bischoff, uma reconstrutora de navios do Museu do Navio Viking em Roskilde (Dinamarca), disse que o novo estudo derrubou a noção de que os comerciantes vikings estavam confinados a viagens costeiras. Em vez disso, sugere que eles eram capazes de longas viagens através de extensões de mar aberto.

“Jarrett demonstrou que o uso de abordagens arqueológicas experimentais que unem teoria e prática pode levar à descoberta de temas para investigação que não foram pensados antes simplesmente porque não foram fisicamente experimentados”, afirmou ela.

Pelos olhos dos marinheiros

Nascido na Escócia e criado na Espanha, Jarrett descende de uma longa linhagem de marinheiros que remonta pelo menos ao século 16, quando um ancestral ajudou a fazer o Great Michael, o maior navio construído durante o reinado de Jaime 4º na Escócia. O pai de Jarrett o levou, aos 18 meses de idade, através do Corryvreckan, o terceiro maior redemoinho do mundo, como uma forma de batismo.

Jarrett interessou-se pelas ligações marítimas da Era Viking no Atlântico Norte enquanto cursava arqueologia na Universidade de Glasgow. Sua ideia era entender a visão de mundo viking por meio dos olhos de marinheiros experientes.

Em 2020, ele iniciou seus estudos de doutorado na Universidade de Lund, concentrando-se na navegação da Era Viking. Começou a explorar o Atlântico Norte em barcos feitos em um centro norueguês. A construção seguiu um método no qual os cascos foram formados por tábuas de abeto sobrepostas fixadas com rebites metálicos (originalmente pregos de ferro com arruelas, nos tempos vikings).





É provável que os comerciantes vikings não usassem exclusivamente grandes cidades e portos estabelecidos. Em vez disso, eles dependiam de uma rede de refúgios menores e descentralizados

As embarcações de Jarrett apresentavam uma grande melhoria: em vez do tradicional remo de direção montado no lado direito, seus barcos eram controlados por um leme de popa.

A premissa do novo estudo de Jarrett é que as expedições vikings —apesar de não possuírem instrumentos de navegação como mapas ou bússolas— aventuraram-se mais longe em alto-mar do que se presumia anteriormente. “É provável que os comerciantes vikings não usassem exclusivamente grandes cidades e portos estabelecidos. Em vez disso, eles dependiam de uma rede de refúgios menores e descentralizados.”

O pesquisador identificou quatro desses refúgios, todos antes desconhecidos. Ele afirmou que as ancoragens, dispersas em ilhas remotas e penínsulas, provavelmente serviam como áreas de preparação cruciais e informais, fornecendo pontos de parada para marinheiros que viajavam entre centros bem conhecidos como Ribe, na Dinamarca, Bergen, na Noruega, e Dublin.

Esses locais, a seu ver, eram mais do que simples paradas. Frequentemente situados no que ele chama de zonas de transição entre águas abertas e fiordes, eles ofereciam abrigo temporário contra condições adversas e também a oportunidade de reabastecer e interagir com outros marinheiros.

Ao integrar os registros de navegação das 26 viagens com modelos digitais avançados, Jarrett reconstruiu os níveis do mar, abrangendo 1.200 anos de mudanças geológicas.

“Peguei valores modernos de elevação de uma grade digital e subtraí a diferença no nível do mar da Era Viking para cada quadrado na grade”, disse ele. Depois de traçar onde estariam a maré baixa e a alta, ele estimou quanto de terra seca poderia ter estado disponível e a navegabilidade de alguns dos canais de navegação mais rasos.

Jarrett descobriu que as ilhas ao longo da costa externa são mais fáceis de acessar do que os refúgios abrigados no fundo dos fiordes.

Nenhum dos refúgios que ele identificou estava em fiordes estreitos, que são difíceis de acessar com um barco de vela quadrada. “Cada um tinha que ser um espaço seguro entre diferentes áreas de risco, que pudesse ser facilmente encontrado e acomodar vários barcos”, disse Jarrett. Eles também tinham que oferecer água doce, abrigo contra ondulações, correntes de maré, tempestades e um ponto de observação a partir do qual se pudesse avistar tempestades ou frotas hostis que se aproximassem.

As conclusões de Jarrett destacam o impacto do rebote isostático, que ocorre quando a terra se eleva após o recuo das geleiras da costa. “Alguns dos refúgios que existem hoje, e que há muito acreditávamos estarem ativos na Era Viking, estavam na verdade submersos naquela época”, afirmou o pesquisador. “O nível do mar havia mudado em até seis metros, e assim ilhas de baixa altitude estavam completamente submersas naquele tempo.”

Dos quatro refúgios, apenas a ilha de Storfosna forneceu evidências arqueológicas de habitação humana —um sepultamento de navio do período imediatamente anterior à Era Viking. Jarrett tem esperança de que escavações sejam realizadas nos refúgios para potencialmente desenterrar restos de cais, postes de amarração, pedras de lastro, fossas de cozinha, abrigos temporários e os detritos da construção de barcos, como rebites e pregos dobrados.

Na avaliação de Jarrett, o sucesso das viagens vikings dependia tanto de embarcações robustas quanto de tripulações unidas que pudessem suportar ambientes hostis e uns aos outros.

Para o pesquisador, dominar técnicas tradicionais de navegação e experimentar o vínculo entre companheiros de embarcação durante passagens difíceis cria uma conexão com os marinheiros da antiguidade.

noticia por : UOL

7 de março de 2026 - 0:49

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