A próxima grande inovação em cuidados dentários pode estar em dois novos e improváveis ingredientes adicionados às nossas pastas de dentes e enxaguantes bucais: lã de ovelha e cabelo humano.
Ambos contêm queratina, uma proteína fibrosa que pode reparar o esmalte dentário danificado, de acordo com um estudo internacional liderado por pesquisadores do King’s College London.
Os cientistas descobriram que a queratina pode interromper os estágios iniciais da cárie dentária, um problema que atinge cerca de 90% dos adultos americanos com idade entre 20 e 64 anos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Odontológica e Craniofacial, parte dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos.
Em relatório publicado nesta semana na revista Advanced Healthcare Materials, os pesquisadores afirmaram que quando a queratina se mistura aos minerais encontrados na saliva, como cálcio e fosfato, forma um revestimento que imita a estrutura do esmalte natural e é comparável em resistência.
O esmalte dentário, a camada externa protetora que protege os dentes, é a substância mais dura do corpo humano, mas pode ser desgastado por alimentos e bebidas ácidas, refluxo ácido, boca seca, escovação e uso do fio dental inadequados, e o ranger noturno que pode ocorrer durante o sono.
Enquanto outras partes do corpo humano têm capacidade de regeneração —unhas, pele, ossos, vasos sanguíneos e fígado— o esmalte não pode se regenerar.
“Infelizmente, uma vez que você perde o esmalte, ele não volta. Está perdido para sempre”, disse Sherif Elsharkawy, autor sênior do novo artigo e professor clínico sênior de prótese dentária no King’s College London.
Prótese dentária é o ramo da odontologia que lida com o design, fabricação e instalação de substituições artificiais para dentes e outras partes da boca.
Um artigo de 2014 sugeriu que a queratina capilar é importante para o esmalte dentário. Pesquisadores que trabalharam no estudo descobriram que pessoas com mutações na queratina tinham maior risco de cárie dentária.
A queratina já é encontrada em xampus, condicionadores, hidratantes para a pele e loções, e alimentos como ovos e salmão promovem a produção de queratina. “É extremamente segura”, disse Elsharkawy.
Embora a queratina ainda não tenha sido adicionada a nenhuma pasta de dentes ou enxaguante bucal disponível comercialmente, isso pode estar a apenas dois ou três anos de distância, segundo Elsharkawy. Ele também vislumbra um gel que os dentistas poderiam usar ao tratar pacientes com esmalte danificado.
“No geral, acho que é promissor como uma formulação futura, embora este artigo não tenha testado um produto real, então formulação, segurança, sabor, dosagem e ensaios clínicos ainda estão por vir”, disse Martinna Bertolini, professora assistente de periodontia e odontologia preventiva na Escola de Medicina Dentária da Universidade de Pittsburgh, que não participou do estudo.
A equipe de Elsharkawy, que incluiu cientistas da Universidade de Toronto, da Universidade de Tecnologia Chalmers em Gotemburgo, Suécia, e da Universidade de Trento na Itália, testou a queratina usando uma saliva artificial que tem concentrações de elementos semelhantes à nossa.
Eles aplicaram a mistura em dentes humanos com cáries criadas em laboratório e descobriram que o tratamento preencheu as lacunas no esmalte e superou uma resina plástica atualmente usada para tratar lesões de cárie iniciais.
Elsharkawy disse que o tratamento com queratina formou um escudo de cinco a seis vezes mais duro do que o criado pela resina plástica.
Bertolini disse que não seria difícil ajustar os componentes químicos que os pesquisadores usaram, o que deveria tornar mais simples traduzir seus resultados de laboratório em um produto que funcionará no consultório de um dentista.
Sami Dogan, professor de odontologia restauradora da Universidade de Washington que não participou do estudo, chamou a queratina de “uma tecnologia muito promissora” para reparo de esmalte, mas que está em estágios muito iniciais de desenvolvimento e ainda pode levar uma década ou mais para chegar ao mercado.
Uma vantagem clara que teria, disse ele, é que “a queratina desde o início é muito barata e também é abundante.”
Dogan tem trabalhado com outros pesquisadores em um peptídeo, uma cadeia curta de aminoácidos, projetado para reconstruir o esmalte dentário desgastado e cobrir tecido sensível com “microcamadas minerais”. A técnica se assemelharia muito à maneira como o corpo desenvolve os dentes.
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Dogan disse que poderia prever o uso de ambos os métodos —o scaffold de queratina e o peptídeo— para tratar cáries profundas.
Tim Wright, editor-chefe do Journal of the American Dental Association e professor na Escola de Odontologia Adams da Universidade da Carolina do Norte, disse que existem métodos de criação de scaffolding dental que “são modestamente bem-sucedidos”.
Embora ele tenha dito que ainda há necessidade de desenvolver alternativas mais eficazes e mais baratas, ele está longe de estar convencido dos resultados da queratina no novo artigo. “Tem promessa, mas eu gostaria de vê-lo em um ensaio clínico real”, disse ele.
Elsharkawy permanece confiante. Ele disse que os pesquisadores pretendem conduzir um estudo clínico para aprender mais sobre o mecanismo e obter uma melhor compreensão da dose mais eficaz.
noticia por : UOL





