O evento foi realizado na praça do Relógio, no campus Butantã, e reuniu centenas de jovens evangélicos, vindos de muitas faculdades particulares da cidade de São Paulo e até de outras cidades do estado. O Jornal do Campus publicou matéria sobre o culto e as reações de perplexidade do público da Cidade Universitária diante do episódio inusitado.
A concentração foi promovida pelo Dunamis Movement, uma organização evangélica voltada para a evangelização de universitários, fundada pelo pastor Teo Hayashi em 2008. Embora o Dunamis não esteja ligado oficialmente a nenhuma igreja evangélica, seu fundador é filho da pastora pentecostal Sarah Hayashi, da Igreja Monte Sião, em São Paulo.
Teo Hayashi estudou psicologia na Liberty University, nos Estados Unidos. Criada em 1971 por Jerry Falwell, uma das vozes mais extremistas da direita conservadora estadunidense, a universidade foi estabelecida com o objetivo de oferecer um ambiente cristão aos alunos. Falwell pretendia proteger os jovens das ideologias progressistas difundidas em outras instituições de ensino e formar uma nova geração de líderes nas áreas da política, artes e negócios.
Desde a década de 1960, a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (Abub) tem promovido atividades evangélicas para jovens universitários no país. No entanto, sua metodologia difere da utilizada pelo Dunamis Movement. Ziel Machado, um dos líderes mais experientes da Abub, destaca que a entidade foca o desenvolvimento de atividades em pequenos grupos de reflexão. Esses grupos valorizam o diálogo, a análise conjunta de temas, a escuta atenta e a construção de relações pessoais de confiança e amizade entre os estudantes.
O Dunamis Movement adota uma estética de classe média para se conectar com os jovens. A linguagem é recheada de termos em inglês, por exemplo, a escola de ministério é chamada de “school of ministry” e os grupos que se reúnem nas universidades são denominados “pockets” (bolsos). A linguagem e a dinâmica de encontros parecem ser inspiradas em uma mistura de eventos musicais como The Town e de games, como a Brasil Game Show (BGS).
Não há dúvidas de que a linguagem e a estética adotadas pelo Dunamis funcionam para atrair jovens da geração Z. É como se o pentecostalismo das periferias tivesse passado por um reality show, como Esquadrão da Moda, com o objetivo de repaginar o look da nova geração de crentes. O reacionarismo vestido de jeito descolado.
Teo Hayashi, depois de passar pela Liberty University, ficou três anos no Havaí se preparando para trabalhar com a evangelização de jovens universitários no Brasil. Parece-me contraditório, para dizer o mínimo, que alguém que se propõe a trabalhar pastoralmente com jovens universitários brasileiros nunca tenha se matriculado em uma universidade por aqui.
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A USP (Universidade de São Paulo) não é de Karl Marx, como equivocadamente afirmaram os líderes do Dunamis Movement. Nem sequer a Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) é de propriedade do referido autor de “O Capital”. Estive por lá da graduação ao doutorado em sociologia e asseguro que Karl Marx, Max Weber, Émile Durkheim, Pierre Bourdieu e tantos outros são estudados e criticados, jamais adorados.
O modo como o Dunamis trata fé e ciência em vez de preparar os universitários com a capacidade de debater racionalmente as contribuições e limitações de pensadores clássicos e contemporâneos, acaba por instilar neles os vírus do preconceito e da ignorância. Esta última é da pior espécie: aquela em que se presume conhecer a obra de um pensador apenas por ter ouvido falar seu nome. No caso do Dunamis Movement, vale para os nomes de Marx e, lamentavelmente, para Jesus.
noticia por : UOL





