7 de março de 2026 - 3:00

De ex-guerrilheiro a presidente, Petro está disposto a desafiar Trump

Poucos líderes ousaram enfrentar Donald Trump tão abertamente quanto o presidente Gustavo Petro, da Colômbia.

Enquanto muitos agiram com cautela desde que o republicano assumiu o cargo, Petro o enfureceu, bloqueando voos de deportação, estando nas ruas de Manhattan pedindo que soldados dos Estados Unidos desobedecessem a ordens e acusando os EUA de assassinato em seus ataques a barcos no Pacífico oriental.

Na terça-feira (12), ele anunciou a suspensão de qualquer compartilhamento de inteligência com os Estados Unidos enquanto os ataques a barcos continuarem —depois, porém, o ministro do Interior, Armando Benedetti, disse ter havido uma “má interpretação” e declarou que a cooperação continuaria.

Trump já chamou Petro de “chefe ilegal das drogas”, e a Casa Branca retirou seu visto e o colocou em uma lista de sanções geralmente reservada para grandes criminosos e violadores de direitos humanos.

Para Petro, ex-rebelde durante o longo e brutal conflito interno da Colômbia, enfrentar adversários não é novidade. Aqueles que o conhecem descrevem um homem movido por suas convicções —um crítico vitalício da corrupção e da desigualdade que se tornou o rosto combativo da esquerda colombiana.

Esse mesmo impulso, dizem eles, agora alimenta sua disposição de enfrentar Washington, mesmo com seu governo mancando internamente devido à violência persistente, escândalos e turbulência no gabinete.

Para admiradores, seu confronto com Trump é a maior batalha de uma cruzada de décadas contra os poderosos. Para detratores, é uma demonstração irresponsável de ego e mostra um líder mais concentrado em se promover como um campeão moral global do que em governar de forma eficaz em casa.

O embaixador da Colômbia em Washington, Daniel García-Peña, elogiou Petro por colocar debates necessários no palco mundial.

“Acho que ele está do lado certo da história”, disse ele em sua casa em Bogotá, depois de Petro tê-lo chamado de volta brevemente durante uma recente disputa diplomática. “Ele foi, na minha opinião, muito, muito corajoso por se levantar e dizer o que acredita.”

Mas o ex-ministro da Educação de Petro Alejandro Gaviria, que renunciou no início de 2023 após se opor a uma proposta de medida de saúde do governo, disse que, embora ele possa ter “uma preocupação genuína” com a humanidade, não “internaliza as consequências, impactos ou efeitos sobre a Colômbia”.

Essa tensão, entre ambição e diplomacia, definiu seu recente confronto com Washington. Os Estados Unidos revogaram seu visto em setembro depois que, ao falar em um protesto pró-Palestina em Nova York, ele pediu que soldados dos EUA desobedecessem a Trump.

Desde então, o governo Trump acelerou uma campanha para destruir barcos e matar tripulantes que, segundo ele, estavam traficando drogas. Muitos especialistas jurídicos chamaram isso de assassinato extrajudicial.

Os ataques começaram no Caribe, mas se espalharam pelo Pacífico e atingiram barcos que Petro disse estarem transportando colombianos.

Depois que ele acusou os EUA de assassinarem um pescador colombiano, Trump ameaçou cortar ajuda e impor tarifas, acusou Petro de ser um chefão do narcotráfico e aplicou algumas das sanções mais severas do arsenal americano contra o líder colombiano, seus parentes e seu ministro do Interior.

O confronto rendeu elogios a Petro pela esquerda global, mas alarmou muitos em casa, pois a Colômbia depende dos Estados Unidos para comércio e cooperação antidrogas.

Críticos dizem que sua política externa é ideológica, não pragmática. Petro, disse Gaviria, acredita que “está expressando verdades que ninguém mais expressa”.

Ex-ministra do Meio Ambiente, Susana Muhamad disse que cautela nunca foi o estilo de Petro. “Toda a sua vida política tem sido correr riscos”, disse ela. “Caminhar na beira do abismo para pressionar por mudanças, para criar tensão, para expor o que realmente está acontecendo.”

Filho de um auditor do governo e de uma dona de casa, Petro juntou-se ao M-19, uma guerrilha de esquerda, aos 17 anos —revoltado, segundo ele, com a pobreza perto de sua casa nos arredores de Bogotá.

Menor do que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que operavam a partir de redutos rurais e arrecadavam dinheiro através do narcotráfico, o M-19 atraía estudantes urbanos, ativistas e artistas que desafiavam o que viam como uma oligarquia elitista.

O grupo tentou cultivar uma imagem de Robin Hood, roubando leite de caminhões e distribuindo-o em bairros pobres.

Embora menos cruel do que outros insurgentes, o M-19 realizou um dos atos mais mortais do longo conflito interno colombiano: o cerco ao prédio da Justiça em 1985, que deixou 94 mortos em confrontos com a polícia e o Exército.

Petro, então preso por sua filiação ao M-19, não participou e disse ter sido torturado na prisão.

Ele posteriormente ajudou a negociar o acordo de paz de 1990 do grupo com o governo, transformando o M-19 em um partido político que ajudou a redigir a Constituição colombiana de 1991. A Carta enfatiza igualdade e direitos humanos e é considerada um dos resultados mais bem-sucedidos do processo de paz.

Petro logo entrou no Congresso, ganhando destaque por expor vínculos entre paramilitares e políticos — revelações que levaram a dezenas de indiciamentos, mas também lhe renderam inimigos poderosos em um país polarizado por uma guerra complexa entre guerrilheiros de esquerda, paramilitares de direita e o Estado.

Ele se tornou admirado por progressistas e alvo de desconfiança dos conservadores, que nunca abandonaram a crença de que Petro é, no fundo, um insurgente esquerdista inflexível.

Em um país onde a hierarquia de classes é literalmente codificada —bairros são classificados de um a seis, do mais pobre ao mais rico—, Petro desafiou a elite hereditária da Colômbia. Abraçou sua imagem de outsider, preferindo jeans e camisas abertas e citando Foucault, apresentando-se como intelectual e homem do povo.

Como prefeito de Bogotá de 2012 a 2015, reduziu tarifas de transporte público e subsidiou água para os pobres, consolidando sua reputação progressista, mas frustrando críticos que o viam como um idealista desinteressado nas demandas diárias de administrar uma cidade extensa e caótica.

Em 2022, venceu a eleição presidencial, tornando-se o primeiro líder de esquerda da Colômbia —um marco em uma das nações mais conservadoras da América Latina.

Ele prometeu transformações sociais e econômicas profundas, mas críticos dizem que ficou aquém. Embora tenha avançado em iniciativas de redistribuição de terras e ambientais, a promessa de Petro de trazer paz duradoura a um país marcado por décadas de derramamento de sangue fracassou, e sua popularidade caiu.

Críticos conservadores denunciam seu passado guerrilheiro e sua aproximação com o regime da Venezuela, além de criticá-lo por dar aos ex-combatentes um papel formal no processo de paz.

A desilusão se espalhou até mesmo à esquerda. “Seu governo tem sido desastroso”, disse María Jimena Duzán, uma proeminente jornalista colombiana que apoiou sua candidatura. “Suas políticas —muitas muito boas e realmente inovadoras— nunca foram implementadas.”

Apoiadores dizem que os esforços para retratá-lo como errático ou incompetente fazem parte de uma reação coordenada de elites políticas e midiáticas que ressentem seu poder.

Mas, embora Petro tenha sido alvo das elites por muito tempo, ele leva isso adiante e “sente que todos sempre o estão perseguindo”, disse Federico Gómez Lara, diretor da revista política colombiana Cambio.

O confronto de Petro com Trump dividiu os colombianos entre enfrentar ou apaziguar Washington. García-Peña argumentou que o apaziguamento fracassou com outras nações e disse que a postura desafiadora de Petro lhe rendeu admiração no país e no exterior.

Ainda assim, o desconforto está aumentando no establishment de Bogotá, disse Gaviria. “Há uma sensação de que o ambiente está se tornando cada vez mais instável e de que Petro já não tem quaisquer limites.”

Autoridades estão ansiosas para minimizar o confronto com Trump como um mal-entendido.

O ministro da Defesa, Pedro Sánchez, disse que Petro estava “obcecado em combater o narcotráfico”, e Armando Benedetti (Interior) afirmou que “nosso grande fracasso foi que não conseguimos transmitir essa mensagem a Trump”.

Mas Gómez Lara acredita que o presidente aprecia o conflito. “Gustavo Petro sempre viveu dentro de uma lógica de confronto”, disse ele. “Ele precisa de um inimigo para funcionar. Foram os paramilitares, depois a classe política, depois Netanyahu” —uma referência ao primeiro-ministro israelense.

“Agora é Donald Trump”, disse ele.

noticia por : UOL

7 de março de 2026 - 3:00

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