Há uma semana travei no assunto “Tremembé”. Levei o tema pra análise e para alguns podcasts que gravei. É normal assistir e gostar dessa série? O que é isso em nós que deseja saber sobre a rotina de psicopatas com histórias aterradoras?
Temos medo da nossa loucura, da nossa maldade, do estranho em nós, e daí vem a curiosidade? Ver gente que faz o que só passou momentaneamente pela cabeça de um bom neurótico ajuda a relaxar antes de dormir (essa explicação sempre me soou doentia)?
“Tremembé – O Presídio dos Famosos”. Não é “Tremembé: Monstros na Jaula”. Não é “Tremembé: O Confinamento da Escória”. É: fa-mo-sos. É do gosto do povo, é popular, é sexy, é algo a ser celebrado. Como diz Milly Lacombe, é como se a revista Caras fizesse um especial no inferno (não que já não tenha feito vários).
Cristian Cravinhos coloca calcinha sexy, tem olhar matador (ops), ele é pop, ele é delicioso, ele quebra o pau de tanto meter. Suzane von Richthofen seduz até os ratos do refeitório, se deixa ser lambida por debaixo de uma máquina de costura, mostra uma parte do peito enquanto é encoxada. Ah que gente transante, bonita, que tesão bandido. Mas esses atores estão performando histórias que, quando lemos nos jornais, quase vomitamos o café da manhã. E isso é muito indigesto.
Senti peninha de Anna Carolina Jatobá, tão indefesa, com saudade dos seus filhos. Só que ela estrangulou até a morte uma criança. O que é isso que essa série faz (e todos que a assistem também) que humaniza a mais atroz e cruel das perversões? E por que nos damos a esse trabalho (de produzir e assistir) a ponto de tornar o produto um tremendo sucesso?
Até entendo quem gosta de célebres personagens da ficção, como Hannibal Lecter (“O Silêncio dos Inocentes”), Alex Delarge (“Laranja Mecânica”) e Patrick Bateman (“Psicopata Americano”). Em Mad Man, Don Draper era um sociopata de primeira, mas eu era louca por ele. Era o meu feminismo de merda ou diante de toda a magia de uma série impecavelmente bem executada, com roteiros perfeitos e direção irretocável, só cabia a mim torcer pelo protagonista? O mesmo sobre Odete Roitman: eu acho que a gente se apaixonou por diálogos icônicos e pela atuação brilhante de Debora Bloch e não por uma miserável que trata o filho paraplégico como uma “coisa” que não deveria existir.
Mas e quando você se deixa levar por uma sedutora Marina Ruy Barbosa, ao som de “eu sei que eu sou bonita e gostosa”, e por uma direção impecável de Vera Egito e de repente se enoja com sua própria condição de telespectadora entregue: “peraí, nããão!!! O Brasil não pode simpatizar com essa desgraçada! E agora ela taí vendendo umas sandálias medonhas com a ajuda dessa série e dos seus fãs!
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Não sou consumidora de true crime. Ouvi “Praia dos Ossos” pela importância da história para debates feministas (e porque é tão bem-feito que me capturou) e confesso que maratonei a série dos irmãos Menendez. Em ambos, os algozes, um misógino e um abusador e estuprador de menores, eram bem definidos e podíamos odiá-los. Mas, em “Tremembé”, quem a gente odeia? Tá, odiamos o Roger Abdelmassih, mas se ele fosse jovem teriam dado um jeito de transformá-lo em sexy e, portanto, humanizável.
Mas se eu estava vendo só pra maldizer, por que quis voltar logo de um almoço no sábado pra terminar o último episódio? Eu não sou melhor do que ninguém que gostou da série, mas pelo menos estou bem culpada e confusa por isso.
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noticia por : UOL




