6 de março de 2026 - 4:25

Um elefante branco no bairro do Pacaembu

Em um dos bairros mais nobres de São Paulo, o Pacaembu, um conjunto de prédios resiste bem preservado e inutilizado. É o antigo Asilo dos Expostos, orfanato na rua Angatuba, 756, atrás do cemitério do Araçá. Ele se mantém imponente, mas virou um elefante branco, difícil de ocupar, devido ao seu gigantismo, e de vender, por seu preço elevado e por ser um bem tombado.

Pertence à Fundação Faculdade de Medicina da USP desde o final dos anos 1990 e é o maior imóvel ocioso da região, com seus 46 mil m2 de área total. Ao longo de sua história, o complexo teve diversas camadas de uso.

Na segunda metade do século 19, a área pertencia à chácara de Joaquim Floriano Wanderley, que a comprou dos jesuítas, donos da sesmaria do Pacaembu. Em 1895, foi adquirida pela irmandade da Santa Casa de Misericórdia que criou ali o Asilo dos Expostos, destinado a abrigar e educar menores abandonados de até seis anos.

Em 1910, a edificação original foi substituída pela atual, cujo projeto é do escritório de Ramos de Azevedo e incluí um prédio de administração, um de serviços e um de dormitórios, além de capela e berçário. Em 1944, o conjunto arquitetônico, cercado por grande área verde, passou a se chamar Educandário Sampaio Viana.

O lar de menores, que reunia 600 crianças, funcionou no local até a década de 1980, quando foi convertido na unidade de triagem Sampaio Viana da antiga Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor), hoje Fundação Casa. Em 1997, essa unidade foi desativada e as últimas crianças e adolescentes que ocupavam o complexo foram transferidas para outros lugares.

No ano seguinte, quando também foi tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), o conjunto arquitetônico de Ramos de Azevedo foi adquirido pela Fundação Faculdade de Medicina da USP junto ao governo do estado.

Foram pagos pelo imóvel R$ 20 milhões, mas tratou-se de aquisição controversa, que teria envolvido verbas do SUS (Sistema Único de Saúde). Na época, a transação foi alvo de uma ação civil pública da Promotoria do Meio Ambiente do Ministério Público Estadual. Também motivou o pedido de demissão de quatro curadores do conselho da instituição,

O negócio não foi desfeito, mas, em 27 anos, a faculdade de medicina nunca conseguiu encontrar um uso para o antigo Asilo dos Expostos. Os prédios ficaram desocupados, gerando apenas altos custos de manutenção em torno de R$ 1,2 milhão por ano.

O argumento para comprar o imóvel foi consolidar o fundo de reserva da instituição para cobrir eventuais passivos trabalhistas da entidade no caso de dificuldades financeiras. O problema é que por ser tombado ele não teria liquidez para atingir esse objetivo.

Os moradores da vizinhança estão satisfeitos com a situação do conjunto, que não gera barulhos nem trânsito na região, chamada de Pacaembu de Cima, de onde se tem uma vista completa do estádio de futebol. Ao longo dos anos, escolas, faculdades e hotéis já fizeram propostas de aquisição, mas nenhuma delas se concretizou justamente pela pressão da vizinhança. Preservados, os prédios se transformaram em um monumento à ociosidade. Poderiam ter um excelente uso público. Em 2002, cogitou-se fazer um centro cultural no local, outra ideia que não vingou.

Atualmente, quem visita o Asilo dos Expostos se depara com um lugar completamente vazio onde há um placa no portão que indica que ali funciona um estacionamento emergencial da faculdade de medicina das 6h30 às 21h. No ano passado, o conjunto foi colocado à venda em um leilão com lance mínimo de R$ 160 milhões, mas não teve compradores.


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noticia por : UOL

6 de março de 2026 - 4:25

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