Sabe aquele prazer que sentimos quando esprememos a pasta de dente até o osso para extrair o resíduo derradeiro e render mais uma escovada?
Somos criativos nas nossas contradições: economizamos com zelo onde não faz diferença e gastamos com abundância onde deveríamos hesitar.
Imagine uma situação simples: você está numa praia e alguém se oferece para comprar sua cerveja preferida. Em teoria, você estaria disposto a pagar um valor compatível com a marca. Certo? A lógica diria que sim, mas a realidade diz o contrário. As pessoas aceitam pagar mais se a cerveja for comprada de um hotel de luxo e menos se comprada de um mercadinho, ainda que seja exatamente o mesmo produto.
Esse foi um dos experimentos de Richard Thaler, Nobel de Economia e um dos fundadores da chamada economia comportamental. Em sua obra “Nudge: Improving Decisions About Health, Wealth and Happiness”, ele explora de forma divertida a teoria da contabilidade mental, explicando, com exemplos, que as pessoas criam “caixas mentais” para diferentes tipos de gasto. A cerveja do hotel, por exemplo, pertence à conta do prazer, da experiência; a do mercadinho, à conta das miudezas cotidianas, onde todo gasto exige vigilância rigorosa. O produto é idêntico, a transação, não.
Essa sensibilidade à “justiça”, ausente nos modelos econômicos tradicionais, colide com a lógica clássica de Adam Smith, que nos define como agentes racionais que avaliam preços e utilidades de forma objetiva. Ao rejeitar o conceito estreito do “homo economicus”, base da teoria neoclássica, Thaler liderou uma dissidência que lhe rendeu anos de ostracismo acadêmico antes da sua teoria ser aceita e celebrada.
Nosso cérebro não compara valores absolutos, e sim contextos psicológicos. Carregamos uma bússola moral, desorientada e torta, que nos faz relativizar o preço das coisas que nos seduzem. Acabamos deixando a calculadora de lado e decidindo com o peito. No fim das contas, quando compramos cerveja, não estamos comprando apenas cerveja.
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A Black Friday é um laboratório dessa dinâmica. Passamos o ano inteiro discutindo preços triviais, apertando tubos de pasta de dente exauridos, e compramos objetos caros, que nem precisamos, só porque estão “pela metade do preço”. A metade, nesse caso, é essencialmente emocional.
O consumidor não compra a televisão porque precisa dela, compra porque teme perder a promoção. É o FOMO consumista. Sabendo disso, o mercado cria apelos promocionais não se contentam com a aritmética distorcida, eles acionam a mais poderosa das engrenagens psicológicas: a aversão à perda. Criam estratégias quase irresistíveis, “Última chamada”, “Ganhe R$ 20 de desconto em compras acima de R$ 100”, “Economize 30% levando quatro unidades”, “Faltam apenas R$ 10 para o frete grátis”,
Ao clicarmos na compra (o cartão de crédito é um aliado a esse impulso imediatista), somos tomados por uma sensação de esperteza e vantagem. Depois, a racionalidade cuida de justificar a decisão que o desejo tomou.
Apesar de toda a sofisticação do ser humano, continuamos sendo criaturas guiadas por emoções antigas, heurísticas, e pelo estranho desejo de acreditar que, desta vez, fomos nós que vencemos o sistema —mesmo quando, secretamente, sabemos que foi o sistema que venceu… de novo.
Em resumo: acabamos gastando mais para economizar.
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noticia por : UOL




