7 de março de 2026 - 7:29

Mortes: Foi guardião das obras do pai e marcou a cultura à sua maneira

Ter nascido filho e com o mesmo nome do escritor e maior dramaturgo brasileiro poderia ter sido um fardo grande demais para Nelson Rodrigues Filho, mas ele soube criar sua própria história no cenário artístico do país, atuando como diretor teatral, roteirista e produtor cultural.

Formado em engenharia e jornalismo, Nelsinho, como era carinhosamente conhecido, tornou-se o guardião das obras do pai famoso, apelidado de “anjo pornográfico” por explorar em suas criações tabus de sua época, como adultério, incesto, perversões e crimes.

Após a morte de Nelson Rodrigues, em 1980, o filho passou a se dedicar à adaptação das peças do pai para outras mídias, como “Bonitinha, Mas Ordinária” para o cinema e “A Vida Como Ela É” para a TV.

Nascido no Rio de Janeiro em 1945, Nelsinho sempre esteve ligado à política nacional e participou da luta armada contra a ditadura militar, regime inicialmente apoiado pelo pai, que o considerava um “mal necessário”.

Essa diferença ideológica, no entanto, foi dissipada quando Nelsinho foi preso em 29 de março de 1972, quando cursava engenharia e militava pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Ele chegou a participar de uma greve de fome com outros presos por melhoria nas condições da detenção.

Em entrevistas posteriores, afirmou ter sido duramente torturado por três dias e sobrevivido graças ao prestígio do pai junto aos militares. Ao visitar o filho na prisão, Nelson Rodrigues ficou sabendo da tortura e mudou de lado, passando a usar sua influência na imprensa para defender a anistia e cobrar a libertação do filho, enviando, inclusive, cartas ao então presidente João Figueiredo.

Nelsinho foi solto em 16 de outubro de 1979, quase oito anos depois.

Nesse período, assumiu o que viria a se tornar sua identidade visual: a barba. Ele costumava contar que, antes da prisão, detestava fazer a barba, o que acontecia a cada dois meses. Atrás das grades, a deixou crescer e nunca mais a cortou.

A barba também foi a inspiração para duas de suas empreitadas. A primeira foi a abertura de um restaurante em Botafogo, o Barbas, ao lado de um grupo de amigos também barbudos. O local se tornou um centro cultural, com lançamento de livros com debate, círculos de psicanálise e encontros de poesia, além de manifestações políticas.

A segunda foi a criação, em 1985, do bloco de Carnaval Barbas, também com perfil cultural e político. A iniciativa é considerada um marco na retomada do Carnaval de rua na cidade.

“Sua partida representa uma perda significativa para o teatro brasileiro, para a produção cultural e para a história do Carnaval de rua do país”, disse o Ministério da Cultura, em nota, destacando a contribuição do produtor para a identidade nacional.

Nelsinho morreu na madrugada de quarta-feira (25), aos 80 anos, no hospital Unimed Barra, no Rio de Janeiro, onde estava internado desde Quarta-Feira de Cinzas com quadro de pneumonia e infecção urinária. Ele sofria havia meses com sequelas de um segundo AVC (acidente vascular cerebral). O primeiro ele sofrera em 2015. Deixa a filha, Cristiane Rodrigues.

O velório ocorreu nesta quinta (26) no salão nobre do Fluminense, seu clube do coração, e o enterro, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, onde o pai também está.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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noticia por : UOL

7 de março de 2026 - 7:29

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