9 de março de 2026 - 18:26

Queda no número de filhos provoca um nó na economia, diz pesquisador britânico

O número de idosos no Brasil já supera o de crianças: são 32,1 milhões de pessoas com mais de 60 anos, ante 26,4 milhões de crianças de até nove anos, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os grupos representam, respectivamente, 15,8% e 13% da população nacional, de acordo com o último Censo demográfico, de 2022. Trata-se de uma mudança profunda em relação ao Censo de 2000, quando os idosos somavam 8,6% e, as crianças, 19,4% da população.

“Países da América do Sul estão reproduzindo as baixas taxas de natalidade que já eram comuns na Europa e no Japão, o que gera um grande problema para a economia global daqui a 20 anos”, disse à Folha o demógrafo britânico Paul Morland, 61, pesquisador associado da BirkBeck, Universidade de Londres, e um dos principais estudiosos dos efeitos da combinação entre aumento da longevidade e queda da natalidade sobre a economia.

Morland chama a atenção para a rapidez deste processo na Coreia do Sul, que enfrenta um declínio populacional de mais de 85% em apenas duas gerações. No país asiático, a cada 100 casais nascem entre 33 e 35 filhos, que dão origem de 11 a 12 netos. É uma taxa de fecundidade de 0,72 a 0,75 por mulher. No Brasil, é de 1,55 por mulher, com empresas se moldando para atender famílias cada vez menores. Seriam necessários 2,1 filhos por mulher no mundo para manter a população estável.

“Se não temos crianças, economizamos dinheiro com educação. Ao mesmo tempo, vamos viver cada vez mais. Tudo isso é maravilhoso. Mas não teremos trabalhadores suficientes daqui a 20 anos para nos apoiar na velhice, nem filhos”, diz Morland, que participou no início de fevereiro da Cúpula Mundial de Governos, em Dubai, com a proposta de reunir lideranças globais para discutir economia, inovação e políticas públicas.

De acordo com o especialista, os países desenvolvidos podem adiar temporariamente os piores efeitos deste cenário com a imigração. Mas muitas nações, inclusive aquelas de onde os imigrantes vêm, deverão envelhecer antes de enriquecerem, afirma. Para ele, o colapso da fertilidade é um problema macro global, não uma questão social isolada.

“É o trabalho que faz girar a economia e haverá cada vez menos gente jovem trabalhando. Ao mesmo tempo, os mais velhos tendem a não arriscar seu capital, a não empreender, o que gera cada vez menos inovação”, diz. “Pessoas mais velhas, por sua vez, precisam de alguém para cuidar delas e não haverá mais gente nova disponível. E os governos não terão orçamento para cuidar da saúde dos cidadãos à medida que eles envelhecem, porque menos gente contribuiu com impostos”, afirma o especialista, que trata do assunto em “No One Left: Why the World Needs More Children” (Ninguém Sobrou: Por Que o Mundo Precisa de Mais Crianças, em tradução livre), editora Swift Press (2024).

O pesquisador acredita que questões culturais afetam diretamente o baixo índice de natalidade. Mas não considera que o “trabalho invisível” que recai sobre as mulheres —responsáveis pelos cuidados com a casa e a família, além do trabalho remunerado— seja determinante para os baixos índices de natalidade. No Brasil, o trabalho invisível representa cerca de 8,5% do PIB (Produto Interno Bruto) e aumenta a sobrecarga das mulheres o que, segundo alguns estudiosos, contribui para a disposição delas de terem menos filhos ou não tê-los.

“Somos um tanto obsessivos em relação ao PIB: se alguém trabalha fora, faz parte do PIB. Se alguém trabalha nos cuidados domésticos e com filhos, não é considerado PIB. Temos que mudar um pouco isso”, diz. “Mas acho que a decisão de ter ou não filhos pertence ao casal, não é uma decisão da mulher. Eles precisam ser encorajados e apoiados para isso, pela sociedade e pelo governo —com subsídios a moradia, educação, oferta de cuidados, flexibilidade no trabalho etc.”, afirma.

O especialista não apoia, porém, políticas públicas e benefícios corporativos para congelamento de óvulos, a fim de que as mulheres engravidem mais tarde. “Acho que isso só encorajaria as pessoas a terem seus filhos mais e mais tarde. É muito melhor tê-los quando você tem energia e entusiasmo, entre os 20 e 30 anos”, defende.

Morland também não considera que as novas gerações são mais “egoístas” em relação às anteriores. “É claro que mulheres e homens querem ter uma vida fora de casa, construir suas carreiras. Mas precisam ser encorajados a fazerem isso e terem filhos”, diz. “Eu fiz isso, meus filhos estão fazendo isso, nós podemos fazer isso acontecer”, afirma o demógrafo, pai de três filhos e avô de quatro netos. “Me tornar pai foi a melhor decisão que tomei.”

noticia por : UOL

9 de março de 2026 - 18:26

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