No meio da existência, Dante se viu numa selva escura, pois se perdera num caminho que não era nem a verdade nem a vida, e o que ele fez não foi sentar-se entre as árvores e lamentar a escuridão: desceu ao inferno, atravessou a purificação e subiu ao Paraíso, guiado primeiro pelo Amor de Santo Agostinho e depois pela razão de Virgílio. A Divina Comédia não é apenas o maior poema da civilização cristã: é o mapa de navegação de todo homem que, chegando à metade da vida, descobre que a floresta ao seu redor é mais densa do que imaginava e que as estrelas, embora estejam lá, estão temporariamente ocultas pela copa das árvores.
Há um tipo particular de selva que acomete os homens que se veem frustrados em um país que não tem como apreciar o que eles poderiam oferecer. Otto Maria Carpeaux a conheceu quando chegou ao Brasil escapando das botas sujas do nacional-socialismo alemão: um intelectual formado nas tradições de Viena, Roma e Praga, transplantado para um ambiente onde a vida do espírito era, por assim dizer, artesanal. O que Carpeaux fez com essa desproporção é instrutivo: ele não se diminuiu para caber no novo ambiente, e sim elevou, sem maneirismos, o ambiente ao seu nível. A História da Literatura Ocidental, escrita em português adotivo com uma erudição que envergonharia nativos de qualquer língua, é a prova de que um homem sozinho, armado apenas de inteligência e disciplina, pode conter em si uma civilização inteira e transmiti-la intacta. Carpeaux não pensava por departamentos, e sim por constelações. E é essa forma de pensamento (integrativa, diagonal, irredutível às especializações que a universidade moderna impõe como camisas de força) que o Brasil mais precisa e menos reconhece.
Porque o Brasil sofre de um mal que Francis Bacon diagnosticou quatro séculos atrás, antes mesmo de o Brasil existir como Nação. Bacon identificou os ídolos que distorcem o espelho da mente humana: os ídolos da tribo (os vieses que compartilhamos como espécie), os da caverna (as impressões individuais), os do foro (as distorções da linguagem) e os do teatro (as doutrinas recebidas sem exame). A política brasileira, em sua versão mais avacalhada, é um catálogo completo de todos os quatro. O ídolo da tribo terceiro-mundista, que nos convence de que somos vítimas permanentes da ordem internacional. O ídolo da caverna ideológica, que substitui a observação da realidade por esquemas mentais rígidos e anacrônicos herdados do século XX. O ídolo do foro diplomático, onde expressões em si vazias como “multilateralismo” e “cooperação Sul-Sul” funcionam como encantamentos que dispensam a verificação empírica. E o ídolo do foro, do palco, onde doutrinas inteiras de política externa são aceitas por tradição e pusilanimidade, não por evidência. Enquanto esses ídolos governarem, o Brasil continuará a desperdiçar, geração após geração, o potencial que a geografia, a demografia e a cultura lhe deram.
Leibniz, que Voltaire ridicularizou na figura de Pangloss, sem bem entender o polímata saxão, dizia que vivemos no melhor dos mundos possíveis. A frase soa absurda até que se compreenda o que ele realmente queria dizer: não que o mundo seja bom (basta abrir o “feed” do X para para refutar isso), mas que, dadas as restrições lógicas da Criação, esse arranjo particular maximiza a variedade, a riqueza e a complexidade do ser. É uma teodiceia, mas é também, com olhos contemporâneos, uma leitura da otimização sob restrições. E é talvez a única atitude filosófica que permite amar o Brasil sem enlouquecer: reconhecer as restrições (a herança institucional ibérica, a cleptocracia entranhada, a classe dirigente que trata o Estado como espólio) e, dentro delas, buscar a configuração que maximize a riqueza possível. Não o Brasil ideal, que não existe: é o melhor Brasil possível, que ainda não foi tentado.
Leonardo da Vinci via o fluxo da água e o movimento do cabelo humano como manifestações do mesmo princípio. Goethe via na metamorfose das plantas a mesma lei que governava a metamorfose do espírito. Robert Musil, por sua vez, criou em Ulrich, o protagonista d’O Homem sem Qualidades, o diagnóstico mais preciso da patologia que ameaça toda inteligência marginalmente superior à média: o Möglichkeitssinn, o senso de possibilidade, a capacidade de ver tudo o que poderia ser e, por isso mesmo, a incapacidade de se comprometer com o que é. É um palavrão alemão para falta de agência, mas Ulrich é brilhante, irônico, analítico, paralisado, e vê a Viena do entreguerras com uma lucidez que nenhum dos seus contemporâneos possui, mas essa lucidez não se converte em ação. É o espelho invertido de Fausto: onde Fausto vende a alma para viver tudo, Ulrich preserva a alma mas não vive nada.
O Fausto de Goethe resolve o dilema de Musil avant la lettre. Fausto percorre o conhecimento, o prazer, o poder e a beleza, e em nenhum deles encontra razão para dizer a frase proibida: “Verweile doch, du bist so schön” (“detém-te, és tão bela”). Dizê-la significaria parar, e parar é morrer. Mas no final, velho e cego, Fausto a pronuncia, não diante de uma mulher nem num momento de êxtase, mas perante uma visão: terras drenadas onde um povo livre poderia viver e trabalhar. A beleza que o detém não é estética e sim ética. É a visão da obra feita para os outros. Goethe sabia o que Musil apenas intuiu: que a inteligência só se redime quando se converte em serviço. Não em servidão (que é a degradação do serviço), mas na entrega deliberada das próprias capacidades a algo maior do que o ego que as possui.
São Tomás de Aquino construiu, na Summa Theologica, a demonstração mais rigorosa de que razão e fé não são inimigas, mas instrumentos complementares que, corretamente ordenados, produzem uma visão da realidade mais completa do que qualquer um dos dois poderia produzir sozinho. Onde Descartes separou (mente e corpo, sujeito e objeto, razão e fé, o homem e o mundo), São Tomás integrou. A distinção tomista entre os graus de conhecimento (sensível, racional, intelectual, contemplativo) é também a descrição de um caminho, se bem que não um, desde a perspectiva cristã, da verdade ou da vida: parte-se do dado empírico, daí se vai à análise racional, alcança-se a percepção do padrão que conecta o particular ao universal e, nos momentos mais raros, toca-se algo que se parece com contemplação. Esse caminho não é privilégio de monges, é o o bendito itinerário natural de toda inteligência que se recusa a parar antes de chegar ao fim.
E o fim, para Dante, é o Amor. “L’amor che move il sole e l’altre stelle’. O último verso do Paraíso não é uma declaração sentimental, é uma afirmação cosmológica. O princípio que organiza o Universo divino não é a força, não é a matéria, não é a informação, mas o Amor. Agostinho já o sabia quando escreveu que o peso de cada coisa é o seu amor, e que cada coisa se move em direção ao lugar para onde o seu amor a impele. A pedra cai porque “ama” o centro da terra. O fogo sobe porque “ama” o céu. E o homem? O homem se move em direção àquilo que ama, e a desordem da sua vida é sempre, no fundo, uma desordem da ideia agostiniana de Amor: amores mal-hierarquizados, amores dirigidos ao objeto errado, amores que se fixam no transitório quando deveriam apontar para o permanente, a imanência como má substituta da transcendência.
O amor pelo Brasil, que é um humano e por isso mesmo grafado em minúsculo, pertence a essa economia. Não é o Amor (este pertencente a Deus, ou, para os agnósticos e ateus, àquilo que cada um, na solidão da consciência, reconhece como o absoluto), mas é um amor real, legítimo, e extraordinariamente exigente. Amar o Brasil é amar algo que se recusa, década após década, a ser o que poderia ser. É o amor pelo potencial traído, um amor epistemologicamente corno, pois a esperança nunca morre de todo (o País é grande demais, vital demais, inventivo demais para que se desista dele), mas também nunca se realiza por inteiro. Carpeaux amou o Brasil assim, de fora para dentro. Machado de Assis o amou assim, de dentro para dentro, com ironia e com a recusa de transformar o amor em propaganda ou desespero, em que pese ambos possivelmente terem sido tentadores para o bruxo do Cosme Velho. E todo brasileiro que pensa com seriedade sobre o destino do País conhece essa forma particular de patriotismo ferido: não o ufanismo que ignora os defeitos, nem o cinismo que ignora as virtudes, mas a lucidez que vê ambos e insiste, mesmo assim, em não desistir, por amor ao Brasil.
Dante precisou de dois guias para sair da selva escura. Virgílio (a razão, o ofício, a competência) o conduziu pelo inferno e pelo purgatório. Beatrice, a representação do Amor, não de Dante, mas de Deus, que transcende e ilumina, o conduziu pelo paraíso. Nenhum dos dois bastava sozinho. A razão sem o Amor é Musil: diagnóstico sem cura. O Amor sem a razão é fanatismo: fervor sem direção. O Brasil precisa de ambos, na ordem certa: primeiro o trabalho virgiliano de identificar os ídolos, desmontar as ilusões, construir o diagnóstico com rigor empírico e coragem intelectual; depois, e somente depois, a visão beatriciana de um País que finalmente corresponda à ideia de amor que lhe dedicam aqueles que, apesar de tudo, se recusam a abandoná-lo. A selva é escura, mas as estrelas, como Dante sabia ao minuciosamente terminar cada uma das três partes do seu poema, continuam lá. Basta erguer os olhos.
Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Suas opiniões são estritamente pessoais e não necessariamente refletem aquelas do MRE.
noticia por : Gazeta do Povo





