24 de abril de 2026 - 1:26

Os rituais silenciosos que fazemos para sobreviver em Teerã

As coisas mais doces chegam nos momentos mais brutais. Em Teerã, sob bombardeio, o desejo surge quase instantaneamente —depois da explosão, depois do tremor, quando alguém busca algo açucarado. Surge a geleia. Um pedaço de doce é partido ao meio e compartilhado.

Parece surreal falar de sobremesas em uma cidade sob ataques aéreos constantes. Mas o corpo insiste. Existem rituais silenciosos de sobrevivência, formas de dizer a si mesmo que você suportou mais uma explosão —e ainda está aqui.

Desde 28 de fevereiro, quando começou a guerra EUAIsrael contra o Irã, esses pequenos rituais têm sustentado uma linha frágil contra o pânico.

Não há nada de abstrato no medo. Nos ataques mais intensos, cada célula do seu corpo treme. O som não parece externo; ele atravessa você, como se seus próprios ossos ecoassem. Nesses momentos, a mente se enche de perguntas: será que é desta vez? E, pior ainda, e se eu sobreviver, mas alguém que amo não? E se todos sobrevivermos, apenas para sair e descobrir que a casa que mantinha nossas vidas unidas desapareceu?

Esse ciclo se repete várias vezes por dia e quase todas as noites. O sono se torna frágil. Você se deita sabendo que pode ser acordado pelo rugido de caças ou por uma explosão violenta. Mesmo no silêncio, sua mente ensaia aquilo que mais teme.

E ainda assim, no meio disso tudo, a vida insiste em continuar. O que vamos almoçar amanhã? E depois de amanhã? As perguntas não são feitas porque o amanhã parece certo, mas justamente porque não parece. Planejar uma refeição se torna um ato de desafio, uma recusa em se entregar completamente ao medo. “E o jantar?”, alguém pergunta, como se o mundo não tivesse acabado de tremer.

Uma amiga que vende alimentos orgânicos diz que vendeu mais geleia de framboesa nas duas primeiras semanas de guerra do que em todo o ano anterior. As padarias continuam abertas, seus fornos funcionando em meio aos bombardeios, enchendo as ruas e casas com o cheiro de pão fresco. São sinais de que a cidade ainda está viva.

A primeira necessidade após cada explosão é a confirmação: estamos todos vivos —por enquanto. Os celulares se acendem com mensagens de texto. Ligações de amigos e parentes se sobrepõem. As vozes tremem de alívio. “Estamos bem.”

As prateleiras dos supermercados continuam abastecidas, e as pessoas tranquilizam umas às outras: há comida, há pão, há o suficiente. Mas imediatamente surge outro pensamento: suficiente para quem? Você come e se pergunta sobre quem não pode. Você se senta à mesa e pensa em famílias lutando para colocar até mesmo uma refeição simples diante de seus filhos. Em uma economia estagnada, aqueles que vivem de renda diária são empurrados ainda mais para o limite.

Há momentos que revelam um tipo de dignidade quase insuportável de testemunhar. As estradas são perigosas, as bombas imprevisíveis, mas as pessoas ainda insistem em ir trabalhar. É ao mesmo tempo comovente e devastador ver o quanto as pessoas lutam pelas necessidades mais básicas, o quanto a vida se torna ainda mais difícil para aqueles que já carregam seus maiores fardos.

O que torna esta guerra mais difícil de compreender não é apenas sua violência, mas seu imediatismo. Esta é uma cidade moderna, no tempo presente. A guerra parece algo que deveria ter ficado para trás —uma herança brutal de outro século.

Não há sirenes. O primeiro aviso é a própria explosão —e então surge o sentimento mais humilhante que alguém pode experimentar.

O peso psicológico se estende até o brilho das telas de televisão, em narrativas concorrentes. Os canais são trocados rapidamente: transmissões estatais proclamando resiliência e vitória, vozes da oposição prevendo o colapso iminente do regime. Por baixo de tudo isso, as pessoas absorvem não apenas as ondas de choque das bombas, mas também as distorções da informação, sem saber onde está a verdade.

Além das fronteiras, o mundo observa. A diáspora iraniana também. Alguns até celebram. Há imagens de iranianos no exterior dançando, convencidos de que essa guerra trará transformação, de que a destruição abrirá caminho para algo melhor. É um otimismo distante que parece incompreensível para quem está dentro do raio das explosões. O apoio à guerra se transforma em outra coisa quando os mísseis caem perto o suficiente para fazer suas janelas tremerem.

A responsabilidade se dissolve no ruído. Todos os lados desviam a culpa. Enquanto isso, pessoas comuns permanecem no meio, absorvendo as consequências. Por agora, a vida é medida em pequenos intervalos: entre explosões, entre xícaras de chá, entre mensagens confirmando que mais um ente querido sobreviveu mais uma noite.

noticia por : UOL

24 de abril de 2026 - 1:26

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