A geração Z, nascida entre 1997 e 2012, tem demonstrado preocupação crescente com a aparência e os sinais do envelhecimento, em meio a exposição constante às redes sociais. Especialistas apontam que o contato diário com imagens editadas e filtros intensifica a autocrítica e faz com que jovens passem a notar imperfeições que, em outros contextos, poderiam ter menor impacto na percepção de si.
O movimento se traduz tanto pela procura por procedimentos estéticos entre pessoas dessa faixa etária quanto pela adoção de rotinas rigorosas de autocuidado cada vez mais cedo.
O segurador Raffael Brasil, 27, tem um ritual metódico de cuidado com a aparência. Acorda às 5h15, começa o dia com um suplemento de cafeína e malha em jejum. Na volta, faz um shake com maca peruana, ginseng, tribulus terrestris, spirulina, moringa, farinha de uva, ginkgo biloba e pó de guaraná. No combo do café da manhã, também toma multivitamínicos, silício orgânico, probióticos e minerais para “fortalecer a pele e interromper o envelhecimento“, diz.
“Eu gosto muito de ser jovem. Quero que a virilidade, a disposição e o bem-estar que tenho hoje durem para sempre. Quanto mais eu adiar os sinais da idade, mais vou sentir que continuo vivendo isso”, diz.
Aos 24, Raffael começou a fazer tratamentos para a pele como microagulhamentos, aplicações de bioestimuladores, fios de PDO (com efeito de lifting facial), preenchimentos de olheira e peeling. Admite, porém, que toda essa combinação o deixou parecendo uma “boneca de cera”. Hoje, faz somente aplicações de toxina botulínica a cada seis meses.
Para a comunicadora de beleza e bem-estar Vanessa Rozan, embora o envelhecimento seja uma questão presente em todas as gerações, jovens da geração Z tendem a estar mais atravessados por essa preocupação, devido a exposição constante à própria imagem nas redes sociais.
Segundo Rozan, que é doutoranda em psicologia social com foco na análise dos padrões de beleza nas redes sociais na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), essa dinâmica, intensificada por filtros e ferramentas de edição, pode aumentar a insatisfação com a aparência e impulsionar a busca por procedimentos estéticos.
Para ela, esse movimento pode estar ligado ao fenômeno chamado de “dismorfia do Snapchat”, quando a percepção da própria imagem se torna distorcida e pequenas marcas naturais da idade são vistas como problemas.
O gerontólogo Alexandre Kalache diz que esse fenômeno também passa por uma mudança nas relações entre gerações. Segundo ele, os jovens convivem cada vez menos com pessoas idosas, seja na família, no trabalho ou nos espaços sociais, e, com isso, perdem referências concretas sobre o que é envelhecer. O resultado é que a velhice passa a ser vista como algo distante, desconhecido e, por isso, mais assustador.
“Sempre pergunto aos jovens quando foi a última vez que conversaram por mais de meia hora com alguém com mais de 80 anos que não fosse os avós por obrigação. Quase ninguém consegue responder. Sem essa convivência, essa geração permanece isolada em seu próprio círculo, e vão envelhecer lamentando ter envelhecido”, diz.
A médica Maria Eduarda Pires, 24, já fez preenchimento de olheiras e lábios, botox e usou diferentes tipos de canetas emagrecedoras. Na última vez que foi aplicar toxina botulínica, para tratar somente o bruxismo, acabou fazendo também aplicação na testa, sugerida pela profissional ao observar pequenas linhas de expressão. “Não era algo que me incomodava. Mas já que eu estava ali”, observa.
Ela diz que não percebe o mesmo nível de preocupação com a aparência entre mulheres mais velhas da família. Cita, por exemplo, a mãe e a tia, que nunca recorreram a procedimentos estéticos e mantêm uma relação mais tranquila com o envelhecimento. Entre amigos e familiares do seu convívio, ela afirma que é comum ver filhas investindo em intervenções precoces, enquanto mulheres mais velhas não apresentam essa pressão por correções.
Em uma rápida busca nas redes sociais, é fácil encontrar vídeos de adolescentes e jovens adultos preocupados com linhas de expressão, até mesmo antes dos 20 anos. Em comentários, eles relatam incômodo com marcas na pele e dúvidas sobre como evitá-las.
“Tenho 24 anos e já tenho linha de expressão na testa”, escreveu uma usuária em uma publicação no TikTok. Outra diz ter marcas abaixo dos olhos e atribui o problema à genética, apesar de seguir uma rotina de cuidados. Há ainda quem queira começar a usar ativos como retinol, mesmo com receio por ter pele sensível, e quem planeja iniciar procedimentos estéticos ainda jovem.
O avanço dos procedimentos estéticos minimamente invasivos entre os mais jovens é uma tendência mundial. Levantamento da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, na sigla em inglês) mostra que a aplicação de toxina botulínica foi o procedimento estético mais realizado por pessoas de 18 a 34 anos no mundo, de 2018 a 2024.
Nesse período, a quantidade de botox aplicado por jovens dessa faixa etária cresceu 29,9% no mundo, passando de 1,3 milhão em 2018 para 1,7 milhão em 2024. Tanto a entidade internacional quanto a SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica) não têm um recorte específico dos procedimentos feitos por brasileiros jovens. Ainda assim, a percepção dos especialistas é de crescimento consistente no país.
“O mercado da cirurgia plástica e dos procedimentos estéticos tem aumentado exponencialmente no mundo inteiro, e no Brasil não é diferente. O crescimento ocorreu principalmente entre públicos que antes não procuravam tanto, como os jovens e os homens“, diz Marcelo Sampaio, presidente da SBCP.
Segundo Sampaio, há uma mudança no perfil e também do tipo de procedimento procurado ao longo dos anos.
Cuide-se
Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar
“A cirurgia plástica sempre teve forte demanda entre mulheres, mas isso está mudando. Hoje, os jovens buscam mais procedimentos cosméticos do que cirurgias. Ainda que não tenhamos todos os números consolidados, a percepção dos cirurgiões plásticos é essa”, afirma.
A percepção é compartilhada também pela dermatologista Sylvia Ypiranga, membro da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia). O aumento, diz, se deve a uma combinação de fatores, entre eles maior acesso à informação, popularização do skincare, avanços tecnológicos que tornaram procedimentos menos invasivos e mais acessíveis, e, principalmente, a influência das redes sociais.
“Hoje existe uma cultura de prevenção e de gerenciamento do envelhecimento, que tem começado muito mais cedo do que nas gerações anteriores”, diz.
Para Ypiranga, o lado positivo disso é que hábitos saudáveis de cuidado com a pele, como uso de protetor solar, aumentaram. “Por outro lado, muitas decisões são guiadas mais por aparência do que por necessidade médica.” A influência desse movimento não se restringe aos consultórios médicos e já é percebida também pela indústria de cosméticos.
Harumi Iamamoto, gerente de operações no Brasil da empresa alemã Dr. Wolff, diz que, ao longo de seus 21 anos no mercado de cosméticos, percebeu um “rejuvenescimento” do consumidor, impulsionado pela maior oferta de produtos no país.
“O mercado brasileiro de cosméticos era pequeno comparado ao mercado internacional. Houve uma tendência mais recente de uma preocupação muito grande com saúde e autocuidado, e isso acabou puxando também a estética. Uma coisa que chama nossa atenção é que o brasileiro começa a se preocupar mais cedo que em outros países”, afirma.
Dados internos de campanhas digitais da empresa mostram que o interesse de compras pela linha de cuidado capilar masculino antiqueda é muito maior entre os mais jovens no Brasil. Na Espanha, homens de 35 a 44 anos são os mais interessados pela linha antiqueda (28%), enquanto no Brasil, os de 25 a 34 anos são a maior parcela (21%), segundo a empresa.
O que pode ser indicado antes dos 30
Segundo Ypiranga, da SBD, os cuidados com a pele devem começar ainda na infância, com foco na fotoproteção. Na adolescência, o acompanhamento dermatológico é indicado sobretudo para o tratamento de acne e oleosidade. Já na fase adulta jovem, por volta dos 20 anos, podem ser consideradas estratégias leves de prevenção do envelhecimento, sempre de forma individualizada.
Ela explica que não há uma “autorização” ou regra fixa para procedimentos estéticos em pessoas mais jovens, que devem ser avaliados caso a caso. O botox, por exemplo, pode ser utilizado em situações específicas de musculatura muito expressiva, assim como lasers podem ser indicados para acne, manchas ou cicatrizes, desde que haja indicação médica.
Antes dos 18 anos, a recomendação é restringir intervenções a tratamentos de condições dermatológicas, evitando procedimentos puramente estéticos.
A médica reforça ainda que até mesmo o chamado “botox preventivo” só deve ser feito quando há indicação clínica clara, geralmente a partir dos 20 ou 25 anos.
Procedimentos como preenchimentos faciais podem ser discutidos em adultos jovens, mas sempre considerando o estágio de desenvolvimento do paciente e sua maturidade para compreender riscos, efeitos e recuperação.
noticia por : UOL






