29 de abril de 2026 - 1:58

Gilmar Mendes tenta apagar incêndio com gasolina

Se a sua organização enfrentasse uma tal erosão de imagem que chegou a ponto de ameaçar todo o capital reputacional acumulado ao longo dos anos, você escolheria Gilmar Mendes para comandar a reação à crise? Entregaria ao ministro o planejamento e a execução da estratégia destinada a conter danos, recuperar credibilidade e mitigar o desgaste público?

Improvável, não é? Mas, no caso do Supremo Tribunal Federal, algo muito próximo disso acabou acontecendo. Diante de uma crise de confiança causada pela contaminação produzida pelo escândalo do Banco Master e pelas relações impróprias entre ministros, familiares e o dublê de banqueiro traficante de influência, Gilmar Mendes decidiu assumir uma espécie de missão de defesa pública da corte. Justificou a iniciativa com sua condição de decano e com o fato de ter, segundo suas próprias palavras, uma audiência.

Como era previsível, não funcionou. Toda organização séria sabe que reputação é patrimônio e que respostas a crises de imagem exigem rapidez, inteligência e, sobretudo, uma estratégia adequada. Também sabe como é decisivo escolher quem será a face externa da tentativa de reparação da imagem.

Com Gilmar Mendes no papel de relações públicas, em vez de um esforço de contenção, viu-se uma ampliação do dano. O ministro esteve muito ativo nas redes sociais e, não satisfeito, fez um tour pelas redações de telejornais nacionais. Mas não reduziu o ruído, não acalmou o público nem transmitiu confiança. Ao contrário, apenas reforçou críticas, procurou brigas e produziu mais conteúdo para os detratores.

Primeiro, porque Gilmar Mendes é percebido como parte do próprio problema de imagem do STF. A percepção de um Supremo fascinado pelo status conferido pela convivência com bilionários e homens de poder encontra nele seu emblema mais acabado. O famoso e exclusivo Gilmarpalooza —tratado pelo próprio ministro como um “case de sucesso”— tornou-se símbolo da promiscuidade entre poder econômico, político e judicial.

Um festival de ostentação em que ministros, empresários e caciques da República se reúnem, fora do país, para se reconhecer e para confirmar reciprocamente sua condição de casta. “Se você não for, só você não vai”, diziam os vips. Não seria, portanto, por meio de Gilmar que a imagem de um Judiciário isento de relações impróprias com os poderosos poderia ser reforçada.

A segunda razão é de temperamento. Ele não é um conciliador; é um homem de combate. Crises de imagem exigem contenção, moderação e alguma capacidade de reconhecer problemas sem transformar toda crítica em guerra pessoal. O ministro opera de outra forma. Diante de uma pergunta sobre a crise de credibilidade do STF, ele devolve uma pergunta sobre a crise de credibilidade do jornalismo. Em vez de explicar, ataca; em vez de dissipar suspeitas, desloca o conflito.

Sua imagem pública é a de alguém autocentrado, altivo e pouco inclinado à autolimitação. Não transmite prudência, mas superioridade; não busca desarmar ânimos, prefere vencer a disputa. Excelente para confrontos de poder, péssimo atributo para quem precisa reconstruir confiança.

A terceira razão é ainda mais grave: Gilmar reforça precisamente uma das críticas mais fortes dirigidas ao Tribunal, a convicção de que a corte não tem o menor escrúpulo em usar o próprio poder em causa própria.

Se o relator de uma CPI propõe o indiciamento de ministros, a resposta é um processo. Se uma sátira desagrada, surge uma queixa-crime. Do Olimpo das suas convicções, o ministro não vê problema algum em combater a crise de imagem de uma instituição acusada de abuso de poder justamente usando recursos que serão entendidos como abuso de poder.

Gilmar Mendes simplesmente não acredita que, além de ser justo e isento, o STF precisa parecer justo e isento. Seu princípio é “tenha deferência pela corte ou enfrente as consequências”. Convenhamos que isso não parece a melhor estratégia para mitigar a crise de imagem que afeta a instituição.

Por fim, há o problema político. Gilmar Mendes tornou-se um ativo eleitoral para seus detratores. Alessandro Vieira percebeu isso ao apostar no desgaste produzido pelo pedido de indiciamento. Romeu Zema, desesperado por um lugar ao sol no lotado campo do bolsonarismo, viu uma oportunidade imperdível na troca de agressões com o ministro.

Em ambos os casos, a dinâmica é a mesma: provoca-se o STF, espera-se a reação do ministro Gilmar, e a reação multiplica o retorno político de quem provocou. E ainda reforça os aspectos já criticados da imagem do tribunal.


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noticia por : UOL

29 de abril de 2026 - 1:58

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