17 de maio de 2026 - 9:35

O problema de ver o corpo em pedaços

Eu estava na fila do açougue quando me senti estranhamente identificada. À minha frente, havia o desenho de um boi dividido por diversos traços brancos, cada um a delimitar uma região e uma categoria de sua carne. Por alguns segundos, me vi da mesma maneira e me perguntei qual seria, no meu corpo, o coxão duro, o lagarto, o filé.

Não era difícil saber. Embora eu nunca tenha sido assada, fui diversas vezes fatiada e analisada, por diversas pessoas. Nariz feio. Sorriso lindo. Peito bonito, mas meio caído. Bunda razoável, poderia ser maior. Mãos grandes demais. Barriga flácida. Cabelos finos. Meu filé: sem dúvida, as minhas pernas. Meu coxão duro: o mole.

Não estou sozinha. Sob a lâmina do olhar público, que separa o corpo em pedaços, estão quase 4 bilhões de mulheres. As mais famosas, fatiadas publicamente, a ponto de suas partes serem famosas de forma solo, como se fossem pedaços independentes, protagonizando suas próprias trajetórias.

Os seios da Scarlett Johansson. A vulva da Cláudia Ohana. A bunda da Beyoncé e da Kim Kardashian. As coxas da Sabrina Sato. As pernas da Anna Hickmann e da Claudia Raia. Os cabelos da Ivete.

Sangalo. Os pés da Jade Picon. As sobrancelhas de Juliana Paes. A barriga da Jennifer Aniston. “A barriga saliente” (num site, em tom de crítica) de Britney Spears. Ou mesmo a PPK de Jean Grey, eleita como “a vagina mais bonita do Brasil“.

Cada uma faz com a sua PPK, popô & cia o que quiser, até alçar a nome próprio, como Valesca Popozuda fez, e fez muito bem, se apropriando daquilo que a reduziria. Mas, no geral, não ganhamos com a setorização do nosso corpo. Na verdade, perdemos.

Perceba como os homens não são avaliados em pedaços, mas no todo. E, porque são avaliados no todo, podem ser bonitos por algo que precede e excede a beleza física: o jeito, a alma, o algo mais que orquestra o conjunto.

Além da setorização desvalorizar a mulher à medida que a reduz a um objeto, também a coloca em uma posição frágil, porque “mesmo que algumas partes sejam aprovadas, outras sempre serão consideradas aquém”, já pontuou Susan Sontag, em um ensaio de 1975, ano em que nasci –fico estarrecida de quase nada ter mudado desde então, eu ainda no açougue a me ver ora como filé, ora como patinho.

Nesse mesmo ensaio, Sontag cita o cineasta Jean Cocteau: “a beleza é, sem dúvida, uma forma de poder. E merecidamente. O lamentável é que essa seja a única forma de poder que a maioria das mulheres é incentivada a buscar. Esse poder é sempre concebido em relação aos homens; não é o poder de fazer, mas o de atrair. É um poder que nega a si, pois não é um poder que possa ser escolhido livremente.”

Para piorar, é inadmissível que esses pedaços de carne que nos constituem envelheçam. Na fila do açougue, luto com minhas próprias partes. Minhas pernas são de 30 anos. Meus seios de 40. Minha barriga, laceada pela maternidade e cerveja, de 50. Minhas pálpebras, cansadas de lacrimejar de tristeza, alegria e alergia, são de 60.

E mesmo lendo Susan Sontag, mesmo lendo as feministas, mesmo escrevendo para vocês, ainda tenho o cacoete de me ver em fragmentos, e talvez por isso ainda me veja tão mais patinho e patinho feio do que gostaria.


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noticia por : UOL

17 de maio de 2026 - 9:35

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