18 de maio de 2026 - 5:49

Dor menstrual é subnotificada no SUS; estudo aponta 21 vezes mais casos ocultos em prontuários

Milhares de meninas e mulheres convivem com dores menstruais e pélvicas incapacitantes, muitas delas desde a primeira menstruação, mas os registros oficiais do SUS (Sistema Único de Saúde) captam apenas uma pequena fração desses casos. A maior parte permanece invisível.

É o que mostra um estudo conduzido pela Vital Strategies Brasil em parceria com a UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), que identificou, com uso de inteligência artificial, um número 21 vezes maior dessas queixas do que o registrado pelos códigos oficiais de doenças.


Financiada pelo Instituto Alana, a pesquisa analisou dados de mais de 469 mil meninas e mulheres de 10 a 49 anos atendidas na rede municipal de saúde do Recife entre 2016 e 2025.

Foram cruzadas informações dos sistemas de atenção primária, internações hospitalares e notificações de violência para investigar como dores menstruais e pélvicas aparecem —ou deixam de aparecer— nos registros clínicos.

Quando os pesquisadores analisaram apenas os códigos da CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), encontraram registros de dor menstrual ou pélvica em apenas 0,5% das pacientes, o equivalente a 1.906 mulheres.

Mas, ao incorporar uma metodologia de análise semântica com inteligência artificial, capaz de interpretar os textos livres escritos pelos profissionais de saúde nos prontuários, o número saltou para mais de 41 mil casos, cerca de 9% da amostra.

O estudo também identificou falhas importantes na qualidade das informações registradas. Em menos de 5% dos casos havia menções à intensidade, frequência ou duração da dor, informações consideradas fundamentais para orientar a conduta clínica.

Ao mesmo tempo, os dados mostram que essas pacientes procuram frequentemente os serviços de saúde. Mulheres com registro de dor pélvica tiveram, em média, 24 atendimentos no período analisado, quase cinco vezes mais do que aquelas sem histórico de dor.

“Elas estão indo aos serviços repetidamente, mas suas queixas não estão sendo adequadamente registradas nem acompanhadas“, diz Sofia Reinach, gerente de saúde e líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Alana.

A pesquisa também revelou um descompasso entre o que as pacientes relatam e o que efetivamente orienta a condução clínica. Termos como endometriose e adenomiose aparecem com frequência nos campos subjetivos dos prontuários, destinados às queixas relatadas pelas pacientes.

Porém, essas menções diminuem significativamente nos campos “objetivo” e “plano”, usados para definir avaliação clínica e tratamento. Na prática, isso sugere que as dores são reconhecidas durante a consulta, mas frequentemente não se traduzem em manejo terapêutico imediato na atenção básica.

“Existem recomendações para manejo da dor na atenção primária, incluindo uso de contraceptivos hormonais e outras estratégias. Mas os prontuários mostram muito mais menções a medicamentos para gases e constipação intestinal do que a tratamentos específicos para dor pélvica”, afirma Reinach.

Para a secretária municipal de Saúde do Recife, Luciana Albuquerque, a pesquisa ajuda a expor um problema historicamente banalizado nos serviços de saúde. “O que a gente precisa agora é fazer a ligação dos pontos da rede para conseguir virar esse jogo, mudar a cultura da banalização da dor”, diz.

Ela afirma que pretende usar os resultados da pesquisa para capacitar mais de 3.000 profissionais da atenção básica da cidade. O treinamento será associado a um novo protocolo municipal de planejamento sexual e reprodutivo.

“O que a gente quer é que a atenção básica consiga resolver o máximo possível dos casos e encaminhe adequadamente aquilo que precisar de média e alta complexidade”, diz.

Segundo ela, a rede municipal já dispõe de instrumentos que podem ampliar o diagnóstico e o tratamento, como oferta do implante contraceptivo Implanon nas unidades básicas, ultrassom itinerante e ambulatórios especializados no Hospital da Mulher e em policlínicas.

Usuária de plano de saúde, a estudante Cecília Vieira, 22, recebeu o implante em fevereiro no SUS de Recife e diz que não sente mais as dores incapacitantes que acompanhavam desde os 14 anos, três anos após a primeira menstruação.

“Chegava a desmaiar de dor, ficava muito fraca, faltava às aulas”, relata. Ela conta que tentou usar anticoncepcionais indicados pela ginecologista do plano, mas não se adaptou. “Além das dores, ficava enjoada com a pílula e vomitava muito.”

A médica sugeriu o implante, mas o plano não cobriu o contraceptivo, que custava cerca de R$ 2.000. “Era muito caro para mim. Foi quando soube que já era oferecido no SUS e fui atrás.”

A secretária Luciana afirma que o município também ampliou a capacidade cirúrgica do Hospital da Mulher após acordo com o Ministério da Saúde que prevê R$ 44 milhões adicionais por ano e cerca de 5.000 cirurgias extras anuais.

Para Pedro de Paula, diretor-executivo da Vital Strategies Brasil, a metodologia empregada no estudo mostra como o grande volume de dados já existente no SUS pode ser transformado em informação útil para gestão pública.

Segundo ele, o cruzamento de bases do SUS com ferramentas de linguística computacional e inteligência artificial já desperta interesse do Ministério da Saúde e pode ser expandido para outras regiões do país.

O estudo também encontrou associação entre dor e violência. Meninas e mulheres com registros simultâneos de dor pélvica e histórico de violência apresentaram prontuários ainda mais incompletos, apesar da maior complexidade clínica.

Nesse grupo, pacientes realizaram em média 35 visitas à atenção primária—cerca de 50% mais do que aquelas com dor sem registros de violência. Adolescentes de 10 a 14 anos apareceram entre os grupos mais vulneráveis.

Para Pedro de Paula, a sobreposição de sofrimento físico, violência e adoecimento mental ajuda a explicar a gravidade do problema. “Estamos falando de meninas que passam anos circulando pelo sistema de saúde sem diagnóstico. Isso afeta a escola, a saúde mental, a vida social e o futuro dessas jovens.”

Segundo Reinach, estimativas indicam que entre 35% e 45% das meninas convivem com dores menstruais incapacitantes. “A menarca acontece cada vez mais cedo, muitas vezes aos 10 ou 11 anos, e a dor menstrual está tirando meninas do jogo da vida, da escola e da convivência social”, diz.

Hoje, a média estimada para diagnóstico de endometriose varia entre sete e dez anos, tanto no Brasil quanto internacionalmente.

Para enfrentar o problema, o Instituto Alana prepara um programa voltado à saúde menstrual, dor pélvica e endometriose, estruturado em três frentes: financiamento à pesquisa, fortalecimento de políticas públicas e campanhas de conscientização.

A organização também discute com o Ministério da Saúde e com a prefeitura do Recife a criação de uma linha de cuidado específica para meninas e adolescentes com dor crônica. “Durante muito tempo, a dor menstrual foi tratada como exagero ou algo normal”, afirma Reinach. “Mas, se essas queixas não aparecem adequadamente nos dados oficiais, elas também deixam de orientar políticas públicas, formação profissional e organização do cuidado.”

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde

noticia por : UOL

18 de maio de 2026 - 5:49

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