O jornalismo contemporâneo vive uma profunda crise moral. A busca incessante pelo “equilíbrio” editorial, ou seja, a convenção de que é preciso sempre apresentar “os dois lados da moeda”, frequentemente se transformou em uma ferramenta de distorção da verdade.
Na tentativa de parecer neutros, diversos veículos de comunicação passaram a dar o mesmo peso a fatos amplamente documentados e a narrativas vagas, ignorando completamente o papel mais fundamental do jornalista: a verificação rigorosa.
Essa falha sistêmica ficou escancarada no The New York Times. Em um artigo de Nicholas Kristof, o jornal optou por promover uma grave inversão da realidade, transformando a vítima em acusada. O Estado de Israel, cujos cidadãos foram vítimas dos crimes sexuais mais horríveis e sistemáticos cometidos pelo Hamas em 7 de outubro, e cujos reféns foram submetidos a novos abusos sexuais dentro dos túneis do Hamas, é retratado como o lado culpado.
Não se tratou de um erro inocente causado por desconhecimento. Meses atrás, a Comissão Civil procurou o The New York Times e apresentou um relatório com evidências extensas e detalhadas da violência sexual sistemática praticada pelo Hamas, mas o jornal escolheu ignorá-las. E então, justamente na véspera da publicação do relatório por grandes veículos internacionais como a CNN, o Times decidiu publicar, em vez disso, um artigo atacando Israel. Essa tendência profundamente preocupante não se limita a Nova York.
Lá Fora
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Aqui no Brasil, alguns integrantes da mídia local decidiram ecoar a coluna de Kristof, e alguns chegaram até a criar um “equilíbrio artificial”, apresentando os acontecimentos como se fossem duas versões igualmente válidas da história.
Ao fazer isso, colocam no mesmo patamar o relatório abrangente e rigoroso da Comissão Civil, que reúne mais de 10 mil fotos e vídeos, 1.800 horas de documentação e testemunhos conclusivos sobre estupros, mutilações e execuções, e a matéria do Times cheia de acusaçõs desconectadas da realidade, cuidadosamente sincronizadas para anteceder a divulgação do relatório e manipular a opinião pública.
Considerando a enorme diferença de dimensão entre os Estados brasileiro e israelense, o público local pode facilmente reduzir essas questões a um debate teórico. Mas, dada a dimensão compacta de Israel, um país de dez milhões de habitantes onde mais de 1.200 pessoas foram assassinadas e 254 sequestradas naquele único dia, é praticamente impossível encontrar um israelense cuja vida não tenha sido atravessada por essa tragédia.
Essa dor também me atingiu pessoalmente; colegas, professores e amigos meus perderam a vida naquele Sábado Sombrio, durante o ataque mais grave contra o povo judeu desde o Holocausto.
Quando um jornalista no Brasil ou em Nova York escolhe oferecer uma plataforma igualitariamente “neutra” para aqueles que distorcem a realidade, ele não está protegendo a “liberdade de expressão”; está colaborando com uma propaganda criada para obscurecer atrocidades cometidas contra cidadãos israelenses, independentemente de quem sejam: judeus, muçulmanos ou cristãos.
Quando o Hamas atravessou nossas fronteiras, não perguntou quem nós éramos; simplesmente assassinou, estuprou e sequestrou a todos nós.
noticia por : UOL






