São Paulo
Uma viga de transição é uma estrutura reforçada entre dois andares que permite redistribuir o peso herdado do nível de cima. É usada para reposicionar pilares e abrir espaços amplos em um piso, por exemplo. Ao nomear seu solo a partir dessa técnica, a dançarina Adriana Nunes firma um paralelo e pensa a arte como um engenho capaz de criar respiros no sufoco do dia a dia.
“Viga de Transição” fez suas duas primeiras sessões no espaço Centro da Terra no fim da semana passada. Nesta quinta (28) e sexta-feira (29), às 20h, faz as duas últimas.

Adriana Nunes no solo ‘Viga de Transição’
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Ian Maenfeld/Divulgação Adriana Nunes
“A vida cotidiana da maioria de nós é muito repetitiva. Estamos sempre sob pressão, tendo que pagar as contas, criar os filhos, fazer as coisas funcionarem”, diz a dançarina. “A arte é a forma de sair dessa repetição e entrar num lugar de inovação, surpresa, achar uma coisa mais profunda do que a gente a vida que vamos levando.”
Nunes dança carregando um bloco de concreto grande e irregular, que achou na rua, vindo talvez de alguma casa despedaçada. Ela já pensava em dançar com um peso quando o encontrou, e se atraiu por seu aspecto de ruína. Desse destroço de obra, veio a ideia de buscar na construção uma metáfora para a sua coreografia, o que a levou até as tais vigas.
Enquanto suspende o pedregulho, a ela busca explorar em seus passos o contraste entre a pressão e a suavidade, por vezes truncando seus movimentos, por vezes se deslocando com fluidez. O detrito limita seus gestos convencionais e a obriga a surgir com novas soluções.
Esse processo de criar uma armadilha para então superá-la também esteve por trás de “Todo”, coreografia estreada pela dançarina em 2022, em que ela se cobria deixando apenas uma parte sua ou outra à mostra, se obrigando a se expressar só com esses pedaços isolados de seu corpo. Como a nova dança, a anterior estreou com algumas poucas apresentações no Centro da Terra, mas foi muito além disso, apesar do bom retorno da crítica e do público.
“Não quero ficar nas lamentações, mas é difícil fazer uma temporada maior. O outro solo teve plateia cheia, indicação ao APCA, mas eu nunca consegui circular com ele. A estrutura hoje reduz muito a possibilidade de trabalho dos artistas. São meses de ensaio, a gente faz vídeo, prepara material de divulgação, para fazer uma ou duas apresentações e nunca mais.”
Mas a situação árida não a desanima. “Os retornos que eu estou tendo das duas apresentações que fiz na semana passada são muito legais, isso já me alimenta.”
Viga de Transição
De: Adriana Nunes. Centro da Terra – r. Piracuama, 19, Perdizes, região oeste. Qui. e sex., às 20h. Até 29/5. Ingr.: R$ 96 em sympla.com.br. Livre
noticia por : UOL






