A paulistana Thaís Borges, 46, sonhava desde pequena em trabalhar em banco. Na infância, quando via mulheres da área na TV, com salto alto e terninho, queria ser igual. “Meu sonho começou ali”, diz ela, uma das entrevistadas da pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, feita pelo Estúdio Clarice, organização de inteligência e criação focada em investigar e fomentar o poder feminino por meio de pesquisas e produções audiovisuais.
O sonho de infância de Thaís se tornou realidade. Atualmente, ela é sócia-diretora da BSSP Consulting, consultoria da área de tributação, e líder de comitê da Bossa Invest, uma das maiores companhias de capital de risco —quando o investidor compra uma participação acionária no negócio para lucrar com a valorização futura de empresas.
E foi além. Thaís também é cofundadora da Growth Gate, consultoria de marketing e vendas, e da EllaImpacta, projeto de mobilização global iniciada na ONU e voltada para mulheres.
Para chegar onde está, a executiva reconhece que não foi fácil. Começou a trabalhar aos 12 anos na sorveteria do pai na Casa Verde, bairro em que nasceu na zona norte de São Paulo. Aos 14, conseguiu um emprego como recepcionista para pagar o curso técnico de processamento de dados. Dois anos depois, buscando realizar o sonho de trabalhar em banco, foi fazer um estágio na Caixa Econômica Federal.
Tentou uma vaga em um banco privado e foi recusada. “Fiz todo o processo no RH, inclusive a entrevista com a gerente, por telefone. Mas, quando ela me viu, disse que eu não tinha perfil para atender clientes”, lembra. “Fiquei chocada com aquele caso de racismo, mas, faltando pouco tempo para eu terminar o curso técnico, fui trabalhar com telemarketing.”
Como muitos brasileiros, ela não teve a oportunidade de cursar uma faculdade após finalizar o ensino médio. “Em famílias humildes, como era a minha, o mais importante é ter um bom emprego, pagar contas”, diz Thaís.
Thaís ainda trabalhava com telemarketing quando soube que uma empresa da área tributária oferecia benefícios melhores e foi atrás de uma vaga. Entre eles, estavam cursos que outros colaboradores não valorizavam. Aprendeu conteúdos que ajudaram a ter bons resultados e crescer na companhia.
“Disparei na carreira em vendas técnicas [modelo de comercialização de empresa para empresa em que o vendedor atua como consultor] e me tornei executiva”, afirma. O que a ajudou, além do conhecimento adquirido em cursos, foi a “cara de pau”, como ela conta. “Sempre tive facilidade em lidar com pessoas, e entendi que ter simpatia fazia toda a diferença.”
Com seu jeito comunicativo, cresceu profissionalmente e foi convidada para trabalhar em uma empresa concorrente, mas de menor porte, que se tornaria uma das maiores companhias de tecnologia do Brasil para a área tributária.
Segundo Thaís, a psicanálise foi fundamental naquele momento, porque foi nas sessões que ela decidiu trocar a estabilidade por algo novo. Ela refletiu sobre o quanto poderia, sim, continuar crescendo com aquela nova missão.
E foi a psicanálise, iniciada aos 29 anos, que a faz enxergar sua potência. “Muitas vezes as pessoas reconhecem mais o poder em mim do que eu mesma.”
Thaís afirma enfrentar ainda mais preconceitos quando o assunto é poder. Embora tenha furado a bolha —como conta em seu livro, “Furei a Bolha” (editora Trend, 2024)— e ultrapassado limites que a sociedade costuma impor para pessoas pobres, ela recorre a artimanhas para driblar o machismo.
“Por anos, usei óculos sem precisar em reuniões com homens para ser levada a sério”, lembra a empresária. Mas não foi só isso: em algumas ocasiões, convocou —e ainda convoca— colegas do sexo masculino para acompanhá-la em eventos com outros executivos.
Thaís ainda dá mentorias e ministra palestras para mulheres negras e periféricas. Ao fazer isso, a executiva atua como fonte de inspiração, o que é importante para quem não tem outros exemplos por perto. Para 21% dos 2.036 entrevistados (ambos os sexos) para a pesquisa do Estúdio Clarice, conhecer histórias de empresárias bem-sucedidas é o que mais influencia o entendimento sobre o poder feminino.
“Para mim, ter a capacidade de mobilizar o outro é meu maior poder”, diz Thaís, que fala disso em seu segundo livro, ainda sem data de lançamento. “É uma obra sobre abundância, e isso não tem a ver com o quanto você tem de dinheiro na conta. Abundância é sobre gente, sobre nossas conexões com os outros.”
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noticia por : UOL






