7 de julho de 2026 - 9:51

Morreram todas minhas samambaias, mas vai que existe reencarnação?

Dos temas da moda, aqueles que o algoritmo joga na nossa cara até que tomemos alguma providência consumista a respeito, o meu preferido é o desejo coletivo de migrar para o campo. A vida pós-Covid pede um futuro de ar puro e relógio de sol, como era no tempo dos nossos avós.

Seria uma evolução natural das matérias sobre o aumento das compras de plantas para os apartamentos na pandemia? Eu mesma comprei muitas. Foi dinheiro perdido, morreram todas.

As primeiras a morrer foram as samambaias. Sol demais não pode. Escuridão, também não. De vento ela não gosta, acha incômodo para os cabelos. Tem que borrifar água mineral nas folhas, mas com parcimônia. Até banho de chuveiro me aconselharam, sem remover o substrato.

Elas precisam de ar para meditar nos seus horários. Ar, brisa, nada de vento, são coisas diferentes. A temperatura e acidez da água interferem. Tem que conversar, cantar e colocar música clássica. Fiz isso tudo. Testei todos os lugares do apartamento onde eu morava. Morreram, mesmo assim.

Um dos lugares onde testei o bem-estar de uma das minhas samambaias, que Deus a tenha, foi a varandinha minúscula do meu quarto. Depois que ela faleceu, decretei que não tentaria mais e deixei lá o cadáver por um tempo antes de jogar no lixo com terra, vaso, tudo.

Evitei ir ao local da morte por uns meses. Quando voltei à varandinha, lá estavam belíssimos galhos de samambaia brotando do chão, do ralo, dos espaços entre os azulejos. Sem que eu fizesse absolutamente nada, cresceu uma pequena floresta natural no meu quarto.

Pode ter relação com o fato de sempre ter música boa tocando. Pode ser uma lição da natureza. Pode ser uma piada da samambaia, uma vida após a morte para me dar uma lição de resiliência —palavra da moda que também ganhamos na pandemia.

O apartamento era alugado, saí de lá e deixei minha guerreira. Não sei o que fizeram com ela, mas disse adeus e obrigada antes de sair.

Então agora que voltamos à vida livre, não cutucamos mais o nariz com swab e não estamos presos, dizem que o movimento migratório para o campo está acontecendo a todo vapor. Eu mesma aderi.

Achei um chalé na serra, de madeira, pequeno, no alto, perto de uma imagem enorme de são Sebastião, cercado de pés de murici, aquela fruta cujo suco é salgado e doce e eu adoro.

Quero um canto para escrever em silêncio. Quero escrever ao menos algumas partes do livro no meu caderno, na caligrafia que aprendi aos cinco anos de idade. Parar a escrita somente para ver um passarinho novo chegando. Cuidar das pitangueiras, que atraem pássaros. Inventar, cavar a terra e a memória com as mãos, buscar as histórias olhando para o céu, palavras de um bom texto andam no ritmo certo das nuvens.

Deve ser porque cresci ouvindo Elis Regina, desejar uma casa no campo e a esperança de óculos. Ou porque eu sei bem de onde vim, de antepassados que observavam a natureza, uma bisavó que amava melancias, uma avó que sabia lidar com as carnaúbas e tirar delas o sustento da família.

Fiz uma lista de músicas brasileiras que falam de pássaros e plantas, enquanto planejo a arrumação da casinha. Se existir reencarnação de plantas, espero que minhas samambaias confiem em mim para uma segunda chance.


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noticia por : UOL

7 de julho de 2026 - 9:51

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