11 de julho de 2026 - 23:56

O legado esquecido do Marechal Rondon, que queria a assimilação gradual dos indígenas

Pouco depois do meio-dia de 27 de fevereiro de 1914, sete canoas partiram de um ponto onde a linha telegráfica cruzava um rio escuro, cheio pela estação das águas, no noroeste do Mato Grosso. Eram 22 homens sob dois comandantes: o coronel brasileiro Cândido Rondon e o ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que integrava a expedição ao lado do filho Kermit. “Partimos Rio da Dúvida abaixo, rumo ao desconhecido”, escreveu Roosevelt. Se o rio corresse para o Ji-Paraná, estariam em terreno conhecido dentro de uma semana; se desaguasse no Madeira, em seis. Rondon resumiu a terceira hipótese em seu relato: “A três meses, não se sabe onde, era o Rio da Dúvida.”

O batismo era do próprio Rondon, que registrou o rio no diário em agosto de 1909, mapeando cabeceiras na Serra do Norte, sem imaginar que voltaria para percorrê-lo até o fim. Nenhum homem civilizado tinha descido aquelas águas.

A ousadia da empreitada exemplifica o espírito desbravador e, por vezes, quase inconsequente de um homem cujo legado não recebe a atenção que merece.

A descida durou dois meses e custou três vidas. O remador Simplício afogou-se numa corredeira. Roosevelt rasgou a perna numa pedra, contraiu malária, delirou com febre de 40 graus e, numa madrugada, chamou o filho e o naturalista George Cherrie para um aviso: “Quero que vocês dois sigam em frente. Vocês conseguem sair. Eu paro aqui.” Cherrie entendeu que ele falava de suicídio; dali em diante, ninguém o deixou sozinho. Dias depois, o camarada Julio de Lima, flagrado duas vezes roubando comida, matou com um tiro à queima-roupa o cabo Paixão, o mais respeitado dos homens da expedição.