O filme “Elize: Sombras de uma Mulher”, que estreou na Netflix na última quarta-feira (22), rapidamente entrou para a lista dos títulos mais vistos da plataforma ao resgatar um dos crimes de maior repercussão do país. Estrelado por Lorena Comparato e Henrique Kimura e dirigido por Felipe Vellas, o longa recria o assassinato e o esquartejamento do empresário Marcos Matsunaga, ocorrido em 2012, mas deixa claro que se trata de uma obra de ficção inspirada em fatos reais, utilizando licenças poéticas para construir um suspense psicológico sobre a ruína do casal.
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A produção preserva a espinha dorsal das investigações policiais. A narrativa retrata a origem do relacionamento — quando Elize trabalhava como acompanhante e Marcos ainda era casado —, o nascimento da filha, a contratação do detetive particular que confirmou a infidelidade do empresário, o tiro de misericórdia, o fatiamento do corpo e o transporte dos restos mortais em três malas, cena registrada por câmeras de segurança do elevador. Elementos como a coleção de cerca de 30 armas e 10 mil munições mantidas no apartamento também aparecem com fidelidade, inclusive a pistola calibre .380 usada no homicídio, dada de presente pela própria vítima.
Apesar da precisão nos dados oficiais, a obra promove alterações substanciais na cronologia dos fatos para acelerar o ritmo dramático. O relacionamento real, que durou cerca de oito anos entre o primeiro encontro em 2004 e o crime em maio de 2012, foi comprimido na tela para aproximadamente três anos. Essa condensação temporal passa a impressão de que a paixão, o casamento, a maternidade e a crise conjugal se desenrolaram de forma muito mais abrupta do que na vida real.
A maior divergência em relação ao processo judicial está na escolha do ponto de vista e na criação de cenas de intimidade sem comprovação documental. O roteiro assume a perspectiva de Elize, retratando Marcos como um homem manipulador e agressivo, enquanto a esposa aparece acuada pelo medo de perder a guarda da filha e de ser internada em um hospital psiquiátrico. Segundo o diretor Felipe Vellas, como não existem registros das discussões a portas fechadas, os conflitos e agressões cotidianas foram inventados pelos roteiristas com base em depoimentos prestados por Elize à época.
Essa romantização da narrativa estende-se ao momento do homicídio. No longa, o disparo surge como consequência imediata e impulsiva de uma briga acalorada. A reconstituição cinematográfica contrasta com o entendimento do júri popular na Justiça, que reconheceu a qualificadora de recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Assim, embora utilize marcos reais e conhecidos do caso público, o filme preenche as lacunas do processo com elementos dramáticos e não deve ser encarado como um documento fiel da verdade processual.
noticia por : UOL





