Desde 1999, a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) promove um concurso que se apresenta de forma bastante ousada: uma vitrine da excelência acadêmica brasileira. Mas um passeio pela lista de trabalhos inscritos na edição de 2026 desperta uma pergunta inevitável: excelência segundo quais critérios?
Todos os anos, teses e dissertações de programas de pós-graduação de todo o país disputam o reconhecimento de especialistas que escolhem os trabalhos considerados pala Anpocs como mais relevantes da produção nacional em Ciências Sociais.
Entre centenas de pesquisas submetidas na edição 2026, chamam a atenção títulos dedicados a temas centrados em debates identitários, enquanto outros parecem tratar de objetos cuja relevância social ou econômica ou institucional é bastante restrita.
A impressão geral é a de um ambiente acadêmico voltado cada vez mais para dialogar consigo mesmo, premiando agendas e recortes que encontram grande repercussão dentro da universidade, mas cuja conexão com os problemas concretos enfrentados pela maior parte da população brasileira nem sempre é evidente.
A Gazeta do Povo preparou uma lista com alguns destes trabalhos. Com uma ressalva: a lista de vencedores ainda não havia sido divulgada até a publicação da reportagem. Mas ainda assim é possível, com base nas inscrições, listar essas teses e dissertações como “as piores entre as melhores” à disposição da banca da Anpocs.
A reportagem questionou todos os autores citados, sobre a importância da tese ou dissertação e sobre possíveis críticas à pouca relevância do trabalho para a sociedade. Nenhum deles enviou resposta.
1) Título: As transversalidades do corpo e as travessuras do controle: uma etnografia sobre práticas agrícolas à luz dos estudos de gênero e das relações multiespécies [https://repositorio.unicamp.br/Acervo/Detalhe/1531940]
Autor: Joaquim Augusto de Araújo
Instituição: Unicamp
Resumo: A dissertação relaciona práticas agrícolas à sexualidade, propondo uma comparação entre os mecanismos de controle exercidos sobre corpos humanos e vegetais. Em outras palavras, o trabalho problematiza a identidade de gênero de frutas e vegetais.
Trecho: “O que pretendemos é justamente enfrentar esse problema teórica e metodologicamente a partir do entendimento de que os corpos vegetais também são construídos a partir de pressupostos dicotômicos, binários e ortodoxos. O mecanismo que tenta capturar segue sendo o mesmo (a lógica do controle é esculpida tanto pelo capitalismo quanto pela cisheteronorma). Quais os limites do que se pode ser, dentro de cada um desses campos? Quais são as determinações e conformidades que criam esses espaços e essas categorias de conhecimento? Mais especificamente, quais são as marcações que constituem um morango como orgânico ou um tomate como Sweet Grape?”.
2) Título: Regulação internacional das drogas e controle social violento: o associativismo brasileiro no circuito da cannabis medicinal [https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/colecao.php?strSecao=resultado&nrSeq=70608&idi=1&rc=1#]
Autor: Luan do Nascimento Silva
Instituição: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO)
Resumo: A tese discute a regulamentação do uso da maconha medicinal no Brasil e relaciona a proibição do consumo da droga para fins recreativos com uma “racionalidade colonial-moderna de exercício do controle social violento” e ao racismo.
Trecho: “Alguns outros exemplos ilustram como as políticas proibicionistas impulsionam a circulação, independentemente dos argumentos sobre danos à saúde (coletiva e individual), de práticas de discriminação e controle social, não apenas racial, mas também xenofóbica, de gênero, classe, entre outras demarcações. Por exemplo, as medidas de repressão ao consumo de ópio nos Estados Unidos no início do século XX foram direcionadas contra as comunidades chinesas nesses países (Mountian, 2017). Outro exemplo é a ressonância de discursos religiosos para a construção da moralidade nos argumentos proibicionistas, caracterizando as drogas como substâncias demoníacas ou xamânicas e os consumidores como pecadores ou encarnações do mal – exceto quando drogas e consumos fazem parte dos rituais em religiões hegemônicas, como o vinho no cristianismo (Mountian, 2017; Carneiro, 2022).”
3) Título: “Puta não tem amiga?”: afetos, conflitos e o imperativo de inimizade nas políticas da prostituição feminina [https://repositorio.unicamp.br/Acervo/Detalhe/1507296]
Autor: Adriely Clarindo Cattani
Instituição: Unicamp
Resumo: A tese analisa a condição natural de incentivo à inimizade entre prostitutas e busca entender como esses imperativos influenciam na formação de vínculos entre as profissionais do sexo, assim como nos processos pedagógicos que visam ao “aprender a ser prostituta”. A autora, que passou meses convivendo com “novinhas” e “gostosonas” em prostíbulos do Brasil e de Portugal, pode comprovar na própria pele a tese por ela defendida.
Trecho: “Assim, desde meu primeiro dia inserida na zona, observei que a pandemia aprofundava os embates entre garotas, e entre elas e os outros agentes que formavam as redes de relacionamento do local, o que forneceu pistas a respeito das dinâmicas de disputas e relações de apoio entre as trabalhadoras. Os conflitos entre prostitutas, aliás, me atingiram desde o primeiro dia, ao perceberem que o único cliente que entrou no local direcionou olhares e intenções à nossa direção, minha e de Malu, as outras garotas se afastaram e não deixaram espaços para conversas descontraídas. Fosse no trajeto de volta para casa, assim como nos dias seguintes de trabalho, sempre que um cliente inadvertidamente olhava em minha direção, olhares desdenhosos e expressões faciais nada acolhedoras eram direcionadas a mim”.
4) Título: Prazeres venais, amores efêmeros: as trocas sexuais da prostituição feminina na cidade de São Paulo [https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-09042026-190723/en.html]
Autor: Juno Ferreira
Instituição: Universidade de São Paulo (USP)
Resumo: A tese, que em muitos momentos abusa das descrições detalhadas, se propõe a explicar aquela que é comumente tida como “a profissão mais antiga do mundo”. De forma mais clara, como as mulheres realizam a troca de sexo por dinheiro na maior cidade do Brasil. O trabalho, a propósito, foi custeado com uma bolsa do CNPq.
Trecho: “As experiências consideradas abjetas, impuras ou repulsivas esbarram em limites do mau sexo e carregam consigo estigma para quem as pratica. Como discuti anteriormente, as fronteiras entre o prazer e repulsa se movem em limites que variam para cada profissional do sexo, mas que podem tangenciar práticas como o cruzamento geracional, a inversão de mulheres para performances de gênero masculinas e/ou penetrativas e as práticas sadomasoquistas relacionadas a dor. Outras propostas menos comuns também já foram mencionadas pelas garotas de programa com quem conversei (…), em relações com animais e em encenações que remetem à pedofilia. Vanessa menciona sobre um cliente imundo que carregava as roupas de sua sobrinha adolescente em seu carro e queria que ela as vestisse e o chamasse de ‘tio’ durante o programa”.
5) Título: O crime como composição: as facções do Rio Grande do Sul entre redes mercantis, práticas de apoio e governança [https://lume.ufrgs.br/handle/10183/299032]
Autor: Marcelli Cipriani Rodrigues
Instituição: Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Resumo: A tese explica que os grupos de criminosos no Rio Grande do Sul não são um bloco único e fechado, mas funcionam como uma grande teia de pessoas e objetos conectados para levar produtos de um lugar para o outro. Esses grupos se mantêm unidos porque os membros ajudam uns aos outros com favores e seguem regras próprias para organizar o seu trabalho e resolver problemas no dia a dia. Para isso, a autora acaba por transformar fatos em ficção, trocando nomes, datas e lugares. O resultado, em alguns pontos, soa como uma complacência com os criminosos, tratados por vezes como vítimas do sistema.
Trecho: “Antônio esclareceu ao amigo que o negócio envolvia riscos. Todavia, também o tranquilizou. Ele não precisaria ter medo de perder a própria vida, de ser capturado por balas perdidas em meio a confrontos armados ou de ficar à mercê das arbitrariedades de chefes de facções sanguinários e impiedosos: apenas transportaria mercadorias de um local a outro e, no decorrer de pontos de paragem, auxiliaria em seu carregamento e descarregamento. Apesar dos enormes pesares que apareciam de uma só vez em sua mente, aquela parecia se tratar, de fato, de uma saída alternativa. O que mais lhe pesou na tomada de decisão – afora a esperança de garantir um futuro melhor à mãe e ao filho – foi que, tal qual ocorrera com Antônio, ele também já confiava no amigo. De outro lado, o cunhado de Antônio sempre havia sido simpático e generoso com ele. Assim como o próprio Danilo, ambos aparentavam ser trabalhadores comuns: homens que iam à luta com a preocupação de assegurar o sustento de suas vidas e famílias. Em síntese, não eram bandidos.”
6) Título: “MELHOR QUE FILME DE AÇÃO”: Uma etnografia do canal de YouTube da Polícia Militar de Santa Catarina [https://tede.ufsc.br/teses/PASO0618-D.pdf]
Autor: Jo Pedro Barros Klinkerfus
Instituição: Universidade Federal de Santa Catarina
Resumo: O trabalho analisa a produção na websérie Papa Mike SC (2019), filmada por policiais militares catarinenses com câmeras corporais. O sucesso da série, acusa o autor, se dá por uma série de fatores incluindo a edição, que cria um “senso de perigo” atinge “as sensibilidades modernas que colocam a figura do bandido como inimigo público e tratam indivíduos, populações e territórios como menos humanos”.
Trecho: “Um cidadão que morre pode ser reconhecido como vítima a partir de sua proximidade moral e imagética com os polos do ‘bandido’ e do ‘cidadão de bem’, enquanto os ‘criminosos’ e aqueles vistos como próximos a eles tem suas mortes marcadas como merecidas e os policiais são caracterizados como ‘heróis’ quando morrem. Quando descrevemos o personagem do ‘bandido’, podemos acionar uma série de categorias que são sinônimos entre os comentadores, como suspeito, vagabundo, meliante e criminoso.”
noticia por : Gazeta do Povo






