4 de agosto de 2026 - 0:07

Mortes: Dedicação à arquitetura e à música foi maior herança que deixou aos filhos

A arquitetura e a música preenchiam a casa de Zé Borelli. Dos desenhos magistrais às canções tocadas ao violão, eram tão presentes que viraram heranças de família, transmitidas até na profissão dos filhos — um arquiteto, outro professor de música e instrumentista (além de psicólogo).

Havia uma cumplicidade: com Lucas, o pai compartilhava repertórios e tocava junto; com Tiago, foi parceiro em projetos da Borelli & Merigo, escritório que cofundou em 1978. “A música foi um escape, uma terapia, e ajudava muito na arquitetura, na parte criativa”, descreve o filho instrumentista.

A trajetória profissional foi de alguém que conciliou as pranchetas com a academia por décadas. Somente na FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) foram 30 anos até a aposentadoria, em 2016. Na Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), ele seguiu até o fim da vida.

No escritório, Borelli trabalhou especialmente com equipamentos públicos de saúde e transporte. A lista inclui os projetos dos hospitais municipais de Cidade Tiradentes e do M’Boi Mirim e do terminal intermodal do Grajaú, na zona sul paulistana, e a renovação do aeroporto de Lubango (Angola).

Também esteve à frente da transformação do antigo prédio do Detran-SP (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo) no MAC-USP (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo).

“Acho que essa opção [profissional] tem a ver com a ideia de projetos que possam responder a um sentido comum, de inclusão dentro da cidade, e de lugares por onde transita uma massa absurda de pessoas”, diz a viúva, a antropóloga Silvia Borelli.

Foi da arquitetura ainda que lhe veio a ideia para o nome da escola de música Domus (“casa” em latim), na qual foi aluno e parceiro por mais de 30 anos. Chegou a ser sócio do antigo Espaço Anexo Domus, que revelou talentos e recebeu artistas de destaque, como Chico César, Vanessa da Mata, Palavra Cantada e Funk Como Le Gusta, desde 1997.

Posteriormente, a escola mudou de nome para Sim! Nela, Borelli frequentou aulas de violão e até formou a Banda 3/4 com colegas. O repertório era de samba e música popular brasileira.

O professor nasceu em Bauru e morou por anos em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Mudou-se para a capital paulista pouco antes de entrar na graduação, mantendo ligação especial com o centro velho e a Lapa, bairro da zona oeste cuja história remete à da própria família, de imigrantes italianos.

José Borelli Neto morreu aos 75 anos em 20 de junho, de câncer. Deixa os filhos, a mulher e quatro netas (uma já iniciada na música).

Em meio ao luto, a família encontrou um manuscrito no qual ele fazia uma reflexão poética sobre as fases da vida. Do brotar “límpido, lânguido, cálido, transparente” até o momento em que, “intrépido, veloz e valente”, viraria mar.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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noticia por : UOL

4 de agosto de 2026 - 0:07

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