11 de agosto de 2026 - 18:41

E quando uma igreja deixa de ser igreja?

Uma igreja em cada esquina. A sensação se disseminou, com espanto, ao longo da década de 1990, quando o Brasil ainda demorava a reconhecer a força do movimento evangélico pentecostal e a consequente multiplicação de seus templos. Nos últimos anos, essa percepção se consolidou e ganhou qualidade estatística.

Segundo dados do IBGE divulgados em 2024, existem no país mais de meio milhão de estabelecimentos religiosos de diferentes denominações. Para efeito de comparação, a mesma pesquisa indicava que o número de estabelecimentos de ensino e de saúde correspondia, em cada caso, a menos da metade desse total.

Com centenas de milhares de templos espalhados pelo país, é inevitável que muitos deles, em algum momento, fechem, sejam vendidos ou recebam novos usos. É nesse ponto que a expansão religiosa se encontra com o mercado imobiliário e que começam a se avolumar os casos de igrejas que deixam de ser igrejas no Brasil.

Há exemplos já clássicos, como o da antiga Igreja Presbiteriana no bairro do Bixiga, em São Paulo. Depois do encerramento dos cultos, o local abrigou espaços de teatro experimental, entre eles o Teatro Igreja e o Teatro da Praça. A partir de 2006, o espaço ganhou diferentes nomes e propostas, sempre com a vocação para receber shows, festas e diferentes performances. Acima daquilo que fora um altar, ainda está a inscrição “Casa de oração para todos os povos”.

A antiga capela das Irmãs Bernardinas, em Canela, no Rio Grande do Sul, é outro caso. Inaugurado em 1952, o prédio abrigou uma importante escola do município e, no andar superior, os dormitórios das internas, a clausura das religiosas e uma pequena capela. Com o declínio do interesse pelo noviciado e o encerramento das atividades do colégio, o edifício preservou a arquitetura original, mas, no lugar do centro religioso, passou a abrigar, entre outros comércios, um bar e um wine bar.

Mais recentemente, em junho de 2022, o prédio da Igreja Nova Apostólica, apesar de manter seus traços de edificação religiosa, passou a abrigar a tradicional livraria gaúcha Bamboletras.

Poucos desses casos, contudo, se comparam à trajetória do Cine Copan. Anunciado na década de 1950 como “o Rockefeller Center de São Paulo”, o edifício concebido por Oscar Niemeyer teria, em sua parte térrea, um moderno teatro e um luxuoso cinema. A sala, inaugurada em 1970 com 1.200 lugares, fechou em 1986 e permaneceu assim por anos, até reabrir com sessões frequentes de um único filme: os cultos da Igreja Renascer em Cristo.

O antigo cinema, que havia se tornado templo evangélico, assim permaneceu até 2008, quando foi interditado pela prefeitura, inaugurando um longo limbo em meio a disputas jurídicas. Em 2026, contudo, o cinema que virou igreja recebeu uma temporada de apresentações teatrais de Hamlet. Agora, prevê-se para 2027 a inauguração de um cinema —outra vez— com tela de LED de 17 metros, bar, gastronomia e espaços para conferências e eventos.

O projeto é uma iniciativa do Nubank e, por isso, rebatizará o espaço como Nu Cine Copan. De cinema a igreja e de igreja a cinema é o tipo de trajetória que nos ajuda a perceber a vida social dos templos religiosos. Assim como todos os outros espaços nas nossas cidades, as igrejas também estão em constante transformação, inclusive, deixando de sê-las.


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noticia por : UOL

11 de agosto de 2026 - 18:41

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