23 de agosto de 2026 - 19:01

Direita e esquerda amam Singapura, mas só contam metade da história

O nome de Singapura já aparece há algum tempo no debate brasileiro, e vem de bocas que raramente concordam em alguma coisa. Renan Santos, pré-candidato à Presidência pelo Missão, promete “desfavelizar” o Brasil e cita como inspiração o homem que fez isso na cidade-Estado asiática, Lee Kuan Yew. Do outro lado do espectro, o desenvolvimentista Ciro Gomes aponta há anos Singapura como prova de que um Estado forte e planejador pode tirar um país do atraso. É o mesmo país servindo de modelo para projetos opostos, e isso só é possível porque cada lado importa apenas a metade que lhe agrada.

A história de como Singapura chegou a esse ponto não confirma nenhuma das duas versões. O People’s Action Party, o PAP, que governa a ilha sem interrupção desde 1959, não nasceu de direita. Foi fundado em 1954 como uma frente anticolonial de esquerda, reunindo social-democratas moderados e uma forte ala pró-comunista, ligada aos sindicatos chineses. Lee Kuan Yew, advogado formado em Cambridge, estava entre os moderados.

A convivência durou pouco. Em 1961, a ala de esquerda rompeu e fundou um partido próprio, o Barisan Sosialis, levando consigo a maioria das bases do PAP. A essa altura, Singapura negociava sua entrada na Federação da Malásia, e os malaios punham uma condição: conter a esquerda radical da ilha, que temiam como uma cabeça de ponte comunista. Foi desse cálculo que nasceu a Operação Coldstore.

Num só golpe, em fevereiro de 1963, um conselho de segurança formado pelos governos britânico, malaio e singapurense prendeu mais de cem opositores de esquerda sem julgamento, sob a acusação de subversão comunista. A acusação era contestada na época, inclusive por autoridades britânicas em Singapura, e servia a três interesses ao mesmo tempo: o de Kuala Lumpur, o de Londres e o do próprio Lee, que via a esquerda sumir do mapa.