Minha primeira experiência como aprendiz de cirurgiã robótica foi um desastre. Era uma quarta-feira, 26 de agosto, e nós da 11ª turma do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha estávamos visitando o complexo Morumbi do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo.
No centro de treinamento em cirurgia robótica de lá, médicos de verdade aprendem a manipular as máquinas em um simulador de realidade virtual.
Experimentamos dois dos exercícios mais básicos do centro, nos mesmos equipamentos usados para treinar cirurgiões.
No primeiro, precisávamos passar argolas virtuais de um pino para outro. Consegui. Já estava começando a achar que levava jeito para a coisa quando veio o segundo desafio: retirar uma camada de gordura que cobria uma veia.
A ideia era usar uma pinça para puxar a gordura e outra para afastá-la, até deixar a veia à mostra. Só não podia apertar demais.
Apertei, a veia se rompeu e “critical error” (erro crítico) apareceu na tela, em letras garrafais vermelhas. Meu paciente, ainda bem, era virtual.
O fracasso não me impediu de ser voluntária para a demonstração seguinte, desta vez diante de um robô de verdade: o SkyWalker, usado no Einstein em cirurgias ortopédicas de joelho.
Guiados por Luiz Fabiano Taniguchi, médico ortopedista e cirurgião, fomos até o centro cirúrgico. Bastou vestir o uniforme marrom-claro, colocar touca e máscara para que a turma ficasse praticamente irreconhecível.
O SkyWalker funciona como um sistema de auxílio à cirurgia. A partir de imagens de tomografia, o médico planeja a operação no computador e define, por exemplo, o tamanho e a posição da prótese e a quantidade de osso que precisa ser retirada.
Durante o procedimento, um braço mecânico conectado ao sistema acompanha os movimentos e ajuda o cirurgião a executar esse planejamento.
Fui apresentada aos instrumentos e tive de fazer, em um modelo de osso, as marcações usadas pelo sistema durante a cirurgia. Depois de duas ou três tentativas desajeitadas, aprendi —o que me rendeu até um novo apelido: “doutora Luiza”.
A demonstração deixou claro o que os robôs cirúrgicos não fazem: operar sozinhos. A máquina depende das decisões humanas para planejar e conduzir o procedimento. No meu caso, a sorte foi que o osso era de mentira.
Na semana seguinte, a tecnologia apareceu no contexto da saúde pública.
Na terça-feira (1º), visitamos outra instituição com cirurgia robótica, o Hospital Municipal Gilson de Cássia Marques de Carvalho (ou Vila Santa Catarina), na zona sul de São Paulo. Desta vez, não tive a chance de mostrar minha recém-adquirida expertise.
Desde 2022, o hospital utiliza a cirurgia robótica em operações oncológicas e bariátricas. Em agosto, chegou à marca de mil procedimentos.
O Vila Santa Catarina faz parte da rede pública municipal, mas sua gestão é feita pelo Einstein por meio do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS), criado para que hospitais filantrópicos desenvolvam projetos de pesquisa, formação profissional, gestão e incorporação de tecnologias voltados ao sistema público.
O Einstein administra mais de 30 unidades públicas, entre hospitais e serviços ambulatoriais. Também no dia 1º, visitamos mais duas delas: as UBS Parque Araribá e Campo Limpo, ambas na zona sul de São Paulo.
Ali, como em toda Unidade Básica de Saúde, o foco é a atenção primária (a porta de entrada no sistema de saúde). Essas duas unidades também contam com equipes de medicina de família, especialidade voltada ao acompanhamento contínuo dos pacientes.
O objetivo é identificar e acompanhar problemas de saúde ou outras dificuldades antes que se agravem e exijam tratamentos mais complexos e caros.
Na UBS Campo Limpo, 18,7% das cerca de 23 mil pessoas cadastradas pela unidade são idosas. Para acompanhar esses pacientes, a unidade desenvolveu o Programa de Acompanhamento de Idosos (PAI), voltado a pessoas com diferentes graus de vulnerabilidade clínica e social.
Os acompanhantes atuam nas casas dos pacientes. O objetivo é promover sua autonomia. Isso pode significar ensinar alguém a usar uma tecnologia, identificar uma situação de insegurança alimentar ou isolamento social.
A presença crescente de idosos nas unidades de saúde acompanha uma mudança demográfica mais ampla. Segundo projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 15,6% da população brasileira tinha 60 anos ou mais em 2023. Em 2070, essa parcela deve chegar a 37,8%.
Isso muda o conjunto de doenças que o sistema de saúde precisa prevenir, diagnosticar e tratar.
O câncer é um dos principais exemplos, já que o envelhecimento dá mais tempo para alterações celulares, enquanto exposições a fatores de risco como tabagismo, consumo de álcool e radiação ultravioleta também aumentam o risco de alguns tumores.
O Inca (Instituto Nacional de Câncer) estima 781 mil novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028. A doença é a segunda principal causa de morte no mundo, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares.
Na visita ao Einstein, as discussões sobre o futuro do tratamento do câncer passaram por frentes como a medicina de precisão, que escolhe a terapia segundo as características de cada tumor; tratamentos com vírus modificados para atacar células cancerosas; e a radioterapia em altas doses, que em alguns casos pode substituir a cirurgia.
Terapias celulares, como a CAR-T, também fizeram parte da discussão. A técnica modifica células do paciente para que elas reconheçam e ataquem o câncer.
O envelhecimento aumenta ainda a incidência de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Em conversa durante a visita, a neurologista Polyana Piza explicou que uma das frentes de pesquisa na área é reduzir o risco de demência antes do aparecimento dos primeiros sintomas.
A lista de estratégias estudadas envolve atividade física, alimentação, estímulo cognitivo e convivência social, todos fatores que podem ser assimilados e desenvolvidos ao longo da vida. Nesse caso, a prevenção começa bem antes de qualquer aparelho ou medicamento entrar em cena.
O 11º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha tem apoio do Einstein Hospital Israelita e do Laboratório Roche.
noticia por : UOL




