Para alguns candidatos, a eleição presidencial é uma corrida pelo Palácio do Planalto. Para outros, pode ser uma disputa por algo que não se ganha na urna eletrônica: espaço, exposição nacional, sobrevivência partidária ou simplesmente a chance de colocar uma ideia diante de milhões de eleitores.
É nesse segundo grupo que estão algumas candidaturas que passam longe do centro das atenções da eleição de 2026. Enquanto os candidatos mais competitivos tentam convencer milhões de brasileiros de que podem governar o país, os nanicos enfrentam uma batalha anterior: fazer com que o eleitor pare por alguns segundos para saber quem são.
E por que alguém entra numa corrida presidencial quando as chances de vitória parecem tão distantes? A pergunta pressupõe que todos os candidatos estejam disputando exatamente a mesma coisa, mas não estão. Para esses partidos pequenos, uma candidatura presidencial pode funcionar como vitrine nacional. Além disso, pode servir para apresentar um nome ao eleitorado, testar uma mensagem ou construir uma trajetória política.
Esquerda radical usa campanha como vitrine para seus ideais
No campo da esquerda, por exemplo, a hegemonia pertence ao PT. Outras legendas menores, como PCO, PCB, PSTU e UP, aproveitam a eleição como uma oportunidade de levar ao debate nacional projetos ideológicos que dificilmente encontrariam espaço entre as candidaturas competitivas. Isso está explícito nos primeiros parágrafos do programa do candidato Rui Costa Pimenta, do PCO.
“As eleições são uma tribuna de propaganda das reivindicações fundamentais da população explorada, principalmente o socialismo e o governo operário, e para defender a organização dos trabalhadores, pois as conquistas do povo trabalhador não virão pelo voto, pelo discurso demagógico dos políticos da burguesia. Para o PCO, as eleições são um terreno secundário da luta da classe operária e dos explorados”, detalha o documento.
O partido tem sua base teórica no trotskismo, assim como o PSTU do candidato Hertz Dias. Em comum, as legendas guardam também a origem: em ambos os casos, as lideranças originais foram expulsas do PT por divergências.
Do lado dos marxistas-leninistas estão o UP, de Samara Martins, e o PCB, de Edmilson Costa. Estes aproveitam as eleições para divulgar seus ideais, como o “rompimento da classe trabalhadora com a burguesia”, como descrito nas propostas dos partidos, e a tentativa de ganhar os corações dos jovens nos movimentos estudantis.
Leonardo Avalanche substituiu Pablo Marçal no PRTB
Há também aqueles candidatos que enfrentaram outros desafios para terem seus nomes disponíveis nas urnas. Foi assim com Leonardo Avalanche (PRTB), que chegou à disputa como vice de Pablo Marçal, mas foi alçado à cabeça de chapa após a Justiça Eleitoral confirmar a inelegibilidade do influenciador.
Com quase meio bilhão de reais declarados ao TSE, Avalanche vai participar de sua segunda eleição. Na primeira, em 2018, recebeu 173 votos quando concorreu ao cargo de deputado federal pelo Podemos goiano. Em 2024, quando assumiu a presidência do PRTB após uma série de disputas internas que seguiram a morte do fundador da legenda, Levi Fidelix, coordenou a campanha de Marçal à prefeitura de São Paulo.
A viúva de Levi, Aldineia Fidelix, bem que tentou anular a eleição da direção nacional do PRTB. As supostas irregularidades no processo, como a inserção de dados falsos nos sistemas públicos da Justiça Eleitoral, levaram o então presidente do TSE, o ministro Alexandre de Moraes, a determinar uma intervenção no partido. Avalanche sempre negou as acusações.
Outras controvérsias giram em torno dele, como a suspeita de desvio de R$ 750 mil do fundo eleitoral do PRTB durante as eleições municipais de 2024. As investigações apontam que os recursos teriam passado por empresas intermediárias antes de supostamente beneficiarem Avalanche, familiares e pessoas ligadas a ele, incluindo movimentações em dinheiro vivo e em contas de um menor de idade. O candidato nega as acusações, que estão sob investigação da Polícia Federal.
Áudios vazados deram base a outras alegações contra Avalanche, de envolvimento com o PCC. O candidato negou veementemente qualquer ligação com o crime organizado, afirmando que o áudio divulgado era falso ou forjado por inteligência artificial, e que ele não possui condenação criminal que comprove o vínculo.
Clariana Barão era “Plano C” do DC
Quem também precisou vencer uma disputa interna para se candidatar foi Clariana Barão, do DC. Seu nome como cabeça de chapa é uma novidade no partido. Nunca, desde a fundação da legenda em 1995, houve outro candidato do Democracia Cristã a não ser Eymael, o criador do DC.
A advogada é o “Plano C” do partido para a disputa em 2026. O “Plano A” era o ex-deputado e ex-ministro dos governos Lula e Dilma Aldo Rebelo. O anúncio da pré-candidatura, no início de 2026, não despertou as paixões esperadas pelo partido, e em maio ele foi substituído.
O “Plano B” foi o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. O anúncio teve até um vídeo feito com IA mostrando Barbosa e sua toga, com ares de super-herói. O ex-ministro, porém, desistiu de ser candidato.
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Rebelo se revoltou e judicializou sua pré-candidatura pelo DC. Mas após declarações públicas de Aldo Rebelo criticando a direção do partido, o partido abriu um processo disciplinar e decretou sua expulsão sumária, alegando que a postura do político contrariava os valores da legenda.
Sobrou para Clariana Barão, que é presidente estadual do DC no Mato Grosso. O partido ainda tentou fazer do limão uma limonada, e durante o anúncio da candidata, a direção da legenda ressaltou que a escolha de Clariana também buscava trazer representatividade feminina para a eleição. A candidata a vice também é uma mulher, a advogada Fabiana Torquato, do mesmo partido.
Wilson Grassi representa ex-partido da mulher sem mulheres
O clima que antecedeu o lançamento da candidatura do Veterinário Wilson Grassi também não era dos melhores no Democrata. Até dezembro de 2025, a legenda se chamava Partido da Mulher Brasileira (PMB). Fundado em 2008 pela ativista nordestina Suêd Haidar, o partido só obteve reconhecimento oficial no TSE em 2015.
Logo após seu registro, o partido funcionou como uma “barriga de aluguel” durante a janela partidária (período em que deputados podem trocar de sigla sem perder o mandato). O PMB recebeu a filiação de um senador e 22 deputados federais que buscavam negociar espaço ou fugir de suas legendas de origem.
Uma contradição marcou a sigla à época: dos 22 deputados que entraram no “partido da mulher”, 20 eram homens. Cerca de um ano depois, a grande maioria desses parlamentares abandonaram o PMB e migraram para outros partidos.
Reconhecendo que o nome “Partido da Mulher Brasileira” não refletia sua realidade demográfica ou ideológica, a direção do partido iniciou diversas batalhas no TSE para mudar de nome. A direção tentou adotar “Brasil 35” e, posteriormente, “Por Mais Brasil” para tentar manter a sigla PMB.
O TSE rejeitou ambos os pedidos entre 2021 e 2022, argumentando que as opções poderiam induzir o eleitorado ao erro. O mesmo tribunal, então, permitiu em dezembro de 2025 que o partido fosse renomeado para Democrata. Só um “s” separa a legenda do Democratas, antigo PFL, que se fundiu ao Partido Social Liberal (PSL) em 2022 para formar o União Brasil.
O PMB flertou com Bolsonaro antes de o ex-presidente migrar para o PL e lançou candidatos nas eleições seguintes, como o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, que concorreu ao governo de São Paulo em 2022, e a jornalista Cristina Graeml, que chegou ao segundo turno da disputa pela prefeitura de Curitiba em 2024 mesmo sem tempo de TV ou fundo eleitoral.
Agora, o nome de Grassi é o primeiro a ser lançado pela legenda para a disputa presidencial. O veterinário, que tem como vice a fundadora e presidente do partido, Suêd Haidar, nunca recebeu mais do que 4.517 votos. Esse foi o resultado de sua votação em 2006, quando disputou uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo pelo PFL.
Em 2022, Grassi tentou concorrer à Câmara Federal pelo PV-SP, mas teve sua candidatura considerada inapta pelo TSE. Ele voltou em 2024, com menores expectativas: concorrendo à uma vaga de vereador na capital paulista pelo PRTB, teve apenas 2,7 mil votos.
Esses podem ser bons exemplos de porque os nanicos se lançam candidatos. A resposta para essa pergunta pode ser diferente para cada um. Pode estar na ideologia, no partido, na exposição, na construção de uma liderança ou na tentativa de transformar poucos votos em alguma coisa maior depois da eleição.
Afinal, perder uma eleição não significa necessariamente sair de mãos vazias. Para quem chega à disputa com pouca estrutura e pouca visibilidade, talvez a verdadeira campanha comece justamente quando a apuração termina.
noticia por : Gazeta do Povo








