28 de setembro de 2026 - 18:12

Tinariwen encontra no Brasil público que dança sem entender suas letras

No palco, as palavras são quase todas incompreensíveis para a plateia. Cantadas em tamasheq, língua dos tuaregues do Saara, as músicas da banda Tinariwen falam de um cotidiano no deserto impensável para brasileiros. Ainda assim, no Brasil, o público dança, acompanha os riffs de guitarra e responde aos movimentos dos músicos.

Neste mês, a Tinariwen retornou ao Brasil, dez anos após a última visita, e fez uma série de shows no país. Foram do Circo Voador, no Rio de Janeiro, ao Sesc Franca e ao Sesc Pompeia, com duas datas, em 24 e 25 de setembro. Depois, o grupo seguiu para uma última apresentação no Mimo Festival, em Olinda.

Durante os shows, seis integrantes dançam no palco, trocam gestos com o público e arriscam “obrigado” e “merci”. No repertório, músicas como “Azawad”, que abriu a apresentação, “Imidiwan Takyadam”, “Amassakoul ‘n’ Ténéré” e “Tiwàyyen” fazem lembrar que o Tinariwen faz, mesmo, um grande show de guitarras.

“A música é uma língua que conecta todo mundo”, diz Abdallah Ag Alhousseyni, cofundador, vocalista e guitarrista do grupo. Para ele, não é necessário compreender as palavras para que uma canção produza uma reação.

Formado em 1979, o Tinariwen surgiu entre comunidades nômades tuaregues espalhadas pelo Saara, em uma região atravessada pelas fronteiras atuais de Mali, Argélia, Líbia e Níger. O nome do grupo significa deserto, e sua música se tornou uma das pioneiras do chamado “desert blues”, combinação de ritmos tradicionais tuaregues, canto coletivo e guitarras elétricas influenciadas pelo rock e pelo blues.

A história do grupo está ligada à história de deslocamento dos próprios tuaregues. Os integrantes viveram em campos de refugiados, passaram pela Argélia e pela Líbia, e alguns receberam treinamento militar. Em 1990, no Mali, alguns músicos participaram da revolta tuaregue contra o governo e, depois dos acordos de paz, o grupo deixou as armas e passou a se dedicar à música em exílio.

Antes de alcançar palcos internacionais, o Tinariwen circulava pelo Saara, tocando em festas e casamentos e espalhando suas músicas por fitas cassete. O reconhecimento fora do norte africano veio sobretudo a partir dos anos 2000. Em 2012, o álbum “Tassili” ganhou o Grammy de melhor álbum de world music.

A identidade do grupo também aparece nas roupas que seus integrantes usam no palco. Os longos tecidos azuis e índigo, que dão origem ao apelido “povo azul”, cobrem o corpo, e o branco do rosto faz referência ao tagelmust, turbante tradicional usado pelos tuaregues, e às vestes empregadas para proteção contra o clima extremo do deserto.

Segundo Abdallah, um músico inevitavelmente leva para suas canções o ambiente em que vive. “Em São Paulo, poderiam aparecer máquinas, aviões, o ruído da cidade. No deserto, aparecem outras sensações. Para quem conhece aquele ambiente, seria possível reconhecer na música algo da experiência do deserto. Para quem nunca esteve lá, talvez a percepção seja diferente”.

Foi assim que o grupo chegou a músicos como Robert Plant, Thom Yorke e José González. Este último, admirador do Tinariwen desde o álbum “Aman Iman”, de 2007, participa de “Hoggar”, mais recente disco da banda, lançado neste ano. Aqui no Brasil, os fãs da vez foram Seu Jorge e Juçara Marçal, que prestigiaram a banda na apresentação da sexta-feira no Pompeia.

Para Abdallah, as canções não existem apenas para falar de tristeza ou guerra. Elas contam a história do povo tuaregue, falam de alegria e procuram levantar o ânimo das pessoas. Também podem estimular a continuidade das reivindicações da população.

O músico afirma que os tuaregues enfrentam dificuldades para viver de acordo com seu modo de vida tradicional, marcado historicamente pelo nomadismo, diante das fronteiras estabelecidas pela geopolítica contemporânea.

O conflito que envolve os tuaregues, que se arrasta há mais de seis décadas, “é um conflito de tuaregues que querem ser livres e independentes”, diz Abdallah. Hoje, segundo o músico, militares malianos e mercenários russos do grupo Wagner têm atacado comunidades da região. As acusações são parte do contexto político retratado em “Hoggar”, que transforma a experiência recente de violência e deslocamento em matéria-prima para as canções.

A própria circulação internacional da banda passou a ser afetada por fronteiras. A turnê que levaria o Tinariwen aos Estados Unidos foi cancelada depois que o governo Donald Trump ampliou restrições de entrada que atingem cidadãos do Mali.

No bis, a apresentação chega à catarse. Na sexta (25), no Pompeia, um dos músicos, já sem os tecidos que cobrem seu rosto, surge usando um boné do MST, diante de uma plateia já entregue ao transe do grupo.

“Esperança é que o que mantém a música genuína durante todo o tempo, e é essa esperança que vai manter a criação conectada com a passagem do tempo”, diz Abdallah. “É essa esperança no coração que faz com que os músicos consigam que o tempo passe e a música permaneça.”

noticia por : UOL

28 de setembro de 2026 - 18:12

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