28 de setembro de 2026 - 18:13

Interpol apresenta novas sonoridades em disco que marca os 25 anos da banda

Poucas bandas estão tão associadas à retomada do pós-punk no rock dos anos 2000 quanto o Interpol. É curioso perceber como o grupo traz um som um tanto diferente no oitavo e recém-lançado álbum, “This Mirror Weighs a Ton”, quatro anos depois do anterior, “The Other Side of Make-Believe”.

O guitarrista Daniel Kessler acha estranho as pessoas perguntarem sobre as motivações da banda para um novo álbum e o que o trabalho traz de diferente. “Não precisamos de novas motivações. Gosto de escrever canções, gosto de estar com os caras. A gente simplesmente mostra as ideias aos outros e sai juntando as coisas.”

Kessler destaca a boa química com o guitarrista e vocalista Paul Banks e o baterista Sam Fogarino, o núcleo duro do Interpol desde 2000. Atualmente, a banda completa o line-up de baixo e teclados com Brad Truax e Brandon Curtis, integrados à formação oficial.

Formado em Nova York no fim dos anos 1990, o grupo surgiu em meio à explosão de bandas de guitarras que recolocou a cidade no mapa do rock. Mas, enquanto os Strokes recuperavam o espírito do rock de garagem, o Interpol olhava para outro lugar: Joy Division, Echo & the Bunnymen e o pós-punk britânico de duas décadas antes.

“Turn On the Bright Lights”, de 2002, transformou guitarras angulares, baixo pulsante, bateria urgente e o barítono sombrio de Banks em uma das marcas do indie rock daquele período. “Obstacle 1”, “PDA” e “NYC” ajudaram a fazer do álbum um clássico.

“Antics”, de 2004, ampliou o alcance da banda com “Evil”, “Slow Hands” e “C’mere”. O Interpol tornou-se uma das principais referências do revival pós-punk, movimento que recuperava sonoridades dos anos 1980 e as transportava para a atmosfera urbana e ansiosa da Nova York pós-11 de Setembro.

Mais de 20 anos depois, Kessler acha estranho que a banda ainda fique sob o rótulo de pós-punk. “Quando essa classificação apareceu, não entendi bem. Depois creio que até fazia algum sentido, mas hoje, depois de tantas músicas que fizemos, tantos caminhos sonoros?” Mas o guitarrista não quer se preocupar com isso. “Não me importa essa identificação, mas creio que funciona apenas para nossos dois primeiros discos.”

A saída do baixista Carlos Dengler, em 2010, alterou a formação, mas não dissolveu a identidade construída nos primeiros trabalhos. Kessler concorda que, desde então, a banda avançou mais por pequenas mudanças de direção do que por rupturas.

É nesse contexto que chega “This Mirror Weighs a Ton”, lançado em 28 de agosto. O álbum marca a estreia da banda na Partisan Records e também o retorno às gravações em Nova York depois de mais de uma década, no estúdio do produtor Andrew Wyatt.

Kessler admite a ligação sentimental do grupo com Nova York, mas afirma que a cena roqueira mudou completamente. “Aquela cidade da virada do século não existe mais. Como todos nós, não somos mais aquelas pessoas. Mas gravar aqui, depois rodar por alguns estúdios, é agradável.”

A principal diferença em relação ao disco anterior, de 2022, está no próprio processo de criação. Produzido durante a pandemia, “The Other Side of Make-Believe” foi construído à distância, em um período de isolamento que contribuiu para seu caráter mais contido e atmosférico.

No novo trabalho, Kessler quis recuperar “a sensação de uma banda tocando junta em uma sala”. A gravação com a nova formação do grupo devolveu ao Interpol o contato físico constante, o que abriu espaço para improvisação e uma busca maior por outras texturas sonoras.

A faixa-título é um exemplo dessa mudança. “This Mirror Weighs a Ton” começa de maneira hipnótica, combinando baixo, sintetizadores e batidas eletrônicas discretas, enquanto Banks surge entre espaços vazios com vocais etéreos.

“See Out Loud”, por outro lado, recupera a tensão das guitarras que caracterizou a banda desde o início. O álbum também incorpora cordas, sopros, violões e arranjos eletrônicos. “Bird and the Serpent” termina com uma passagem orquestral, enquanto “Enemy” aposta em uma atmosfera de piano que se distancia da fórmula tradicional do grupo.

Há ainda uma novidade simbólica —em “See Out Loud”, Daniel Kessler divide os vocais com Banks, algo raro na história do Interpol. É um pequeno sinal de uma dinâmica criativa menos rígida após 25 anos de carreira.

O que não muda é a levada de guitarra de Kessler, que boa parte da crítica classifica de “minimalista”. E ele concorda, tranquilamente. “Acho que sou mesmo um pouco minimalista. Talvez eu seja econômico nos acordes. Gosto de pensar que sou assim.”

O que ainda deixa Kessler um pouco desconcertado é perceber que 25 anos de banda se passaram e hoje há uma nova geração que se inspira no Interpol. “É estranho pensar que você possa ser referência para os outros. Desde o começo eu criei música sem a preocupação sobre o que os outros iriam achar. Mas isso realmente sai do seu controle.”

Mais de duas décadas depois de “Turn On the Bright Lights”, ainda sob a sombra pós-punk desse álbum, o Interpol parece carregar uma contradição. É uma banda interessada em descobrir o que ainda pode fazer de inovador, mas com uma identidade que se tornou uma das mais reconhecíveis do rock.

noticia por : UOL

28 de setembro de 2026 - 18:13

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